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Saúde
CSS | 23 de Junho de 2017
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Beldroega
Carla Marques
Nutricionista
ACES Almada-Seixal
Dieta e Saúde
Afinal o que comer?
A alimentação tem implicações, quer
na causa, quer na prevenção de doenças
como a Obesidade, a Diabetes, a Doença
Cardiovascular e o Cancro.
O aumento da produção de comidas
processadas, a rápida urbanização e a
mudança de hábitos de vida, levou a uma
alteração dos padrões alimentares. O
acesso fácil à informação tem contribuído
para o aparecimento constante de
conceitos inadequados, induzindo o
consumidor à prática de dietas da moda,
sem qualquer fundamento científico.
Numa dieta saudável e equilibrada,
o valor calórico diário vai depender das
necessidades individuais, dos hábitos
culturais, bem como da oferta alimentar
disponível. Mas os princípios que
constituem uma alimentação saudável
são sempre os mesmos.
A Dieta Mediterrânea foi reconhecida
pela UNESCO como Património
Cultural Imaterial da Humanidade em
2013. Este padrão alimentar é visto como
o mais saudável e mais sustentável do
mundo. Preconiza uma cozinha simples
por forma a preservar os nutrientes, um
elevado consumo de frutas e vegetais
da época em detrimento de produtos
de origem animal, pão e cereais
pouco refinados, leguminosas secas e
oleaginosas, o azeite como principal
fonte de gordura, consumo moderado
de lacticínios preferencialmente magros,
utilização de ervas aromáticas em
detrimento do sal, consumo frequente
de pescado, e baixo consumo de carnes
vermelhas.
Esta dieta constitui por si só uma
ferramenta de educação alimentar,
indispensável e transversal, a toda a
população.
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Toda a gente conhece a beldroega
como
excelente
legume
para
confecionar suculentas sopas. No
entanto, encontrei algo que me deixou
intrigado: há uma dezena de anos,
em Havana, adquiri o livro intitulado
“Plantas Tóxicas”, redigido por um
coletivo de seis cientistas cubanos, que
incluía a beldroega entre as ditas. Não posso crer! - Logo exclamei e, de
imediato, iniciei uma pesquisa aturada
para entender por que razão a beldroega
estava englobada na lista das plantas
tóxicas cubanas. Concluí que, em
determinadas condições climatéricas,
a planta fica avermelhada e é aí que se
encontra a toxicidade. Tal corresponde
a uma concentração elevada de
oxalatos que são prejudiciais a pessoas e
animais. Portanto, beldroegas sim, mas
verdinhas.
Posta esta curiosa premissa inicial,
vamos então descrever a Portulaca
oleracea L, da família das portulacáceas,
que se encontra espontânea em todos os
climas quentes e temperados. É uma
verdura anual que surge na primavera,
provida de talos espessos, grossos
e suculentos alastrando pelo solo
arenoso. As suas pequenas folhas são
sésseis, ovaladas, carnosas e opostas,
agrupando-se nas extremidades dos
caules. As flores, também pequenas,
são hermafroditas, amarelas e possuem
entre quatro e seis pétalas. Os frutos
formam cápsulas ovais com numerosas
sementes pretas. Estas podem estar
dormentes no solo durante vinte anos
sem perder o seu poder germinativo.
Ora, se cada pé pode produzir perto
de 10 mil sementes, estamos a ver a
espantosa capacidade de reprodução da
beldroega.
A composição química desta
portulaca (conhecem-se cerca de 40
espécies deste género botânico) integra
mucilagens, cálcio, fósforo, ferro,
magnésio, oxalatos, ácidos gordos
(ómega-3), pro-vitamina A, vitaminas
B1, B2, B5 e vitamina C. Por isso,
alguns terapeutas a apelidam de “planta
ABC”.
Propriedades
medicinais:
antiinflamatória,
anti-escorbútica,
diurética,
emenagoga,
emoliente,
laxante, tónica, vermífuga, vulnerária,
depurativa, etc.
A beldroega é boa para combater a
obesidade, o reumatismo e as doenças
cardíacas e constitui remédio eficaz
nos problemas do fígado, rins e
bexiga. Externamente é usada para
queimaduras, picadas de insectos,
mordeduras de répteis, gengivites,
furúnculos e irritações de olhos
cansados (suco da planta tenra).
Pode-se preparar a infusão de 100
g da planta verde num litro de água e
tomar até cinco chávenas por dia. Para
uso externo fazem-se cataplasmas da
planta fresca esmagada ou utiliza-se o
seu suco.
Contudo, a melhor maneira de
beneficiar das propriedades medicinais
desta erva silvestre é integrá-la na
nossa alimentação, o que já acontece
Miguel Boieiro
alentejana em que à sopa de beldroega
se junta queijo:
Sopa de beldroegas com queijo
Ingredientes: 1 robusto molho de
beldroegas, 400 g de batatas, 6 ovos,
3 queijos frescos, 1,5 dl de azeite, 3
cabeças de alho, 300 g de pão escuro
duro, 2 litros de água, 1 colherzinha de
pimentão, 1 folha de louro, sal.
Preparação: Coloca-se o azeite
com os dentes de alho esmagados,
a fritar. Adicionam-se as beldroegas
previamente escaldadas, o pimentão,
o louro e o sal e deixa-se refogar um
pouco. Junta-se a água e as batatas às
rodelas. Logo que as batatas estiverem
DR
Artigo
desde remotas eras. As folhas e os talos
tenros, depois de muito bem lavados,
são óptimos para preparar saladas
crudívoras, juntamente com a alface, o
rabanete, a cebola e a cenoura ralada.
Quanto às sopas, há uma infinidade
de maneiras de as confeccionar,
dependendo da criatividade de cada
um. Entre nós, é famosa uma receita
cozidas, escalfam-se os ovos e os queijos
em fatias. Retiram-se os ovos e os queijos
para um recipiente à parte. Num prato
fundo deita-se o caldo e as beldroegas
sobre o pão cortado e serve-se tudo ao
mesmo tempo.
Não será uma excelente refeição?
