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depoimentos & saudações
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25/04/1974 - A data simboliza o fim de muitas distorções da sociedade portuguesa da segunda metade do século
XX. A repressão da liberdade de pensamento e expressão, a par da artificial manutenção da estratificação económica
e cultural são, para mim, os piores vícios a que a revolução colocou termo. Foi sem dúvida um salto em frente, a que
se têm seguido muitos pequenos passos no mesmo sentido. Portugal é hoje um país exemplar, pelo menos em matéria
de respeito pelos interesses de cada individuo, seja ele natural ou estrangeiro. Mas é necessário não ter por certo e
seguro o ponto a que chegamos. A História mostra que o improvável se converte em realidade, dando lugar àquilo
que é torpe. Numa perspectiva alargada e já com o distanciamento a 1974, o momento político de então, liderado por
Marcelo Caetano, era de um reformismo lento, insuficiente e enferrujado. Mas convenhamos, o sentido para onde
Portugal já então caminhava era o oposto daquele para onde hoje caminham países como os EUA ou a França. Nunca será demais lembrar
que, independentemente de cada momento civilizacional, as organizações das sociedades alteram-se numa lógica cíclica, com regresso a
paradigmas já vividos e este movimento é indiferente ao sofrimento que outrora foi provocado por modelos idênticos. Faz pois sentido o
slogan desbotado do 25 de Abril sempre, se isso significar uma resistência à transformação negativa do nosso actual modelo de sociedade
tolerante e a tender para justa.
João Araújo
25 de Abril - Ontem, Hoje e Amanhã
A evocação da Revolução de Abril, cujo 43.º aniversário
exaltamos, aponta-nos a liberdade, a paz e a democracia, como as
conquistas mais emblemáticas.
Parecia utopia, mas deixou de o ser, naquele dia libertador, a
generalização do anseio de construir um país pacífico, igualitário,
fraterno, solidário, assente na força do povo.
Os militares e o povo, unidos, deram expressão à sua força e
com esta conquistámos o salário mínimo, o subsídio de desemprego, o 13.º mês, 30 dias
de férias e o subsídio, a redução do horário de trabalho, pensão mínima de reforma e
pensão social. Conquistámos dignidade. Conseguimos eleições livres e uma constituição
democrática e progressista.
Generalizou-se o acesso à educação, através de escola pública com qualidade, e o
mesmo aconteceu com a justiça.
Assistência médica e medicamentosa tendencialmente gratuita e um Serviço Nacional
de Saúde eficaz, aumentaram a esperança de vida e reduziram substancialmente a
mortalidade infantil.
O Poder Local emergiu e assumiu-se, constituindo também ele um motor de
desenvolvimento e de elevação das condições de vida nas aldeias vilas e cidades do nosso
país.
Faz sentido falar de Abril e do Poder Local Democrático, também na Quinta do
Conde, terra de Abril. A transformação, a metamorfose, o trabalho de incontáveis pessoas
e coletivos é possível porque houve Abril, a Revolução dos Cravos com cujo espírito e
valores a Quinta do Conde se identifica.
Viva o 25 de Abril
Vítor Antunes
No dia 25 de Abril de 1974 assisti ao florir dos cravos nos canos das
espingardas que nos restituíram a liberdade e a democracia
Morava a escassos metros do posto da GNR,em Vila Franca de
Xira, minha terra natal, e, pelas 07h30 da manhã do dia 25 de Abril de
1974, quando saí de casa, para ír trabalhar para as OGMA (Oficinas
Gerais de Material de Aeronáutica), a primeira pessoa que encontrei
foi um guarda da GNR, pai de um colega meu, que se deslocava apressadamente para
aquele posto e que me aconselhou a voltar para casa, pois algo de grave se estava a passar.
Sem me dar mais explicações decidi continuar o meu percurso para apanhar o comboio
que me transportava até às OGMA, em Alverca.
Logo na estação verifiquei que o movimento de passageiros era mais reduzido
que o habitual,mas a agitação das pessoas era grande pois já se fazia eco do primeiro
comunicado do Movimento das Forças Armadas que tinha sido transmitido horas antes
aos microfones do Rádio Clube Português“...apelando para o bom senso dos comandos
das forças militarizadas no sentido de serem evitados quaisquer confrontos com as Forças
Armadas”.
Em vez de descer em Alverca segui para Lisboa, e tive a felicidade de viver a história
que se estava a escrever com o derrube de uma odiosa ditadura fascista, com quase
meio-século que se sustentou na miséria e no obscurantismo, com recurso à opressão
e à repressão exercida pela tenebrosa PIDE, e assistir ao florir dos cravos nos canos das
espingardas dos militares que devolveram a liberdade e democracia ao povo português.
Fernando Soares Reis
A revolução do
25 de Abril, iniciada
há quarenta e três
anos foi sobretudo
uma
revolução
democrática e social.
O
progresso
e justiça social
que o 25 de Abril
conseguiu, tiveram efeitos não só na
sociedade Portuguesa, como deixou marcas
indeléveis a nível internacional. A Revolução
dos Cravos, contribuiu decisivamente para
que a democracia se consolidasse a nível
internacional.
Em Espanha, tempos depois assistimos á
queda do Franquismo e do Brasil, que vê no
25 de Abril um incentivo para intensificar a
sua oposição à ditadura militar.
A Revolução dos Cravos alterou Portugal
rápida e intensamente, ainda que se
mantenham alguns problemas e atrasos com
origem nos 48 anos de ditadura salazarista.
Convirá relembrar que até 1974, Portugal
era o país mais pobre e menos desenvolvido
da Europa Ocidental.
Com o 25 de Abril, tornou-se no país da
Europa do Sul com maior êxito a nível social.
As mulheres ao ingressarem em força
no mundo do trabalho, em número
superior á média europeia, e no ensino
superior, tornaram-se numa marca do que
é considerado como desenvolvimento e
progresso de uma sociedade.
O Fim da Guerra Colonial que consumiu
milhares de vidas humanas, sobretudo jovens,
e quase quarenta por cento dos orçamentos
anuais do Estado, a conquista da liberdade
política, de imprensa, de expressão, a criação
do Serviço Nacional de saúde, do salário
mínimo nacional, a escolaridade mínima
obrigatória, e a elaboração da C.R.P. entre
muitas outras, são mais-valias da Revolução.
No campo económico, o progresso de
Portugal nos anos a seguir a 1975 até á adesão
ao euro foi muito significativo. O nível de
vida e a produtividade aumentaram acima
do verificado nos outros países do Sul da
Europa. A inovação nas nossas empresas teve
um papel fundamental nestes resultados.
A taxa de desemprego estava entre
as mais baixas da Europa, mas com a
entrada no euro em 1999, Portugal perdeu
a sua independência monetária e iniciouse uma época de resultados económicos
desanimadores.
Todos estes resultados foram obtidos
mesmo com a crise de 2011que nos obrigou a
pedir ajuda internacional.
Portugal apresenta sinais económicos
positivos como crescimento das exportações,
confiança dos consumidores e aumento dos
indicadores de inovação nas empresas.
A crise económica que nos estrangula
desde 2008, não impede que Portugal seja dos
poucos países que têm conseguido diminuir,
ainda que ligeiramente as desigualdades
sociais em vez de as aumentar como acontece
em países mais ricos.
No entanto, este 25 de Abril comemorase num contexto em que se verificam alguns
motivos de tristeza. A crise económica e a
austeridade causaram muitos danos ao Povo
e ao País.
Os desafios que hoje se apresentam são
muito concretos e mais graves, quando
comparados com outros países do Sul da
Europa.
A Revolução do Cravos contribuiu
para a criação de uma democracia onde
hoje se nota a preocupação em continuar
a diminuir as desigualdades e promover a
inclusão social. Os líderes políticos estão
disponíveis para ouvir o descontentamento
dos que se manifestam nas ruas exigindo
melhores condições de vida, trabalho e o fim
da austeridade. Esta atitude afirma-se como
sendo de um enorme significado politico.
João Martins
Ao longo destes 43 anos, muitos episódios eu vivi no 25 de Abril.
Começando na minha infância em que o 25 de Abril era sinónimo de
actividades desportivas desenvolvidas pela Comissão de Moradores,
passando pela minha adolescência em que o 25 de Abril passou a ser
sinónimo de liberdade e de revolução, até á idade adulta em que passou,
também a ser sinónimo de luta. Seria por isso difícil destacar um episódio
vivido neste dia tão especial. O 25 de Abril e os seus ideais modelaram a
minha consciência política. Foi com o 25 de Abril que aprendi não só as palavras liberdade,
fraternidade, igualdade, mas, principalmente, o conteúdo e significado destas palavras,
e que entendi que as mesmas rimavam com a palavra socialismo, e daí foi um passo a
abraçar os ideais comunistas, pois não há liberdade enquanto não houver justa distribuição
da riqueza, enquanto uns continuarem a condicionar o pensamento dos outros; não há
igualdade enquanto uns, poucos, continuarem a enriquecer à custa do empobrecimento de
uma imensa maioria.
Portugal é hoje um País desigual, com o aumento da pobreza e da exploração, que
demonstra que os ideais do 25 de Abril estão por concretizar. É, por isso é tempo de lutar
pelos ideais de Abril, de despertar de consciências! Podem dizer-me que os ideais do 25
de Abril são uma utopia, mas há utopias lindas pelas quais vale a pena lutar e a história
demonstra que muitas utopias se transformaram em realidade! Acredito que os ideais de
Abril hão-de vencer, basta o povo português acordar!
Paulo Silva
