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CSS | 31 de Janeiro de 2017

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Nazaré

Uma cidade com alma!

Na vasta enseada de areia fina e branca em forma de meia-lua com suas águas de esmeralda translúcida, agora nua dos
antigos barcos de proa normanda recurva e alta e das redes de xávega mourisca, podem ainda ver-se, pescadores com
camisas aos quadrados e mulheres com as suas inúmeras saias sobrepostas, remendando as redes e secando o peixe, tarefas
que perduram como memória de uma intensa e permanente actividade piscatória, que não há muitos anos, dava vida,
durante o ano inteiro, ao vasto areal que se estende em frente à cidade da Nazaré.

Era domingo e eu vi a alegria contangiante
estampada na face das mulheres, as varinas das
sete saias, o orgulho e a vaidade com que exibiam os seus tradicionais fatos domingueiros.
Dos mais simples aos mais elaborados, fossem
de popelina, de veludo ou de seda, com aventais coloridos finamente bordados e aplicações
de renda. As meias grossas, usadas até ao joelho, delicadamente urdidas em linha branca,
formando desenhos em relevo, contrastavam
com as tairocas de cor escura ou verniz preto,
que pareciam ameaçar cair dos pés a cada passada. Os lenços coloridos eram atados no alto da
cabeça. Algumas traziam o colo enfeitado com
vários cordões e medalhões de ouro e das orelhas
pendiam grandes arcadas, lembrando tempos de
abundância na faina.
Das jovens de tenra idade, até às mais calejadas pela vida, por detrás das faces tisnadas pelo
sol, eu vi, como os seus olhos brilhavam de contentamento.
Estranhei não ver homens igualmente trajados a rigor, descalços com as suas camisas aos
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quadrados, as calças arregaçadas até ao joelho,
presas na cintura com uma faixa de pano atada
com um nó.
Festejavam o dia das mulheres, disseram. No
dia anterior, tinha sido a vez dos homens.
Sinais dos tempos modernos, pensei.
Ao fim da tarde, à luz do sol, entre forasteiros
e gentes da terra, as mulheres dançavam num
baile que havia na Praça. Juntei-me a elas e deixei-me contagiar pela sua alegria e jovialidade.
O dia estava soalheiro, convidava a passear
pela radiosa praia, que bordeja a grande baía da
cidade da Nazaré.
Os coloridos barcos que outrora eram puxados por bois para a praia, ainda são usados, mas
estão agora num ancoradouro.
Ao percorrer a Marginal a pé, não deixei de
espreitar as ruas estreitas e tortuosas, com as casas caiadas de branco e as sacadas em madeira,
lembrando as velhas tradições e o senso estético
das mais remotas povoações do litoral.
Neste passeio apreciei ainda, o Monumento
em memória dos Náufragos e a Mãe Nazarena,
virada de frente para a praia, ali colocada em
homenagem à coragem e abnegação de todas as
mulheres e mães, a quem o mar reclamou filhos
e ou companheiros de uma vida sofrida.
De acordo com uma lenda, a origem do nome
da cidade deriva de uma estátua da Virgem, que
foi trazida de Nazaré na Palestina, por um monge no século IV.
Um elevador construído em 1889, leva-nos
da Marginal ao Sítio, oferecendo-nos ao mesmo
tempo um notável passeio panorâmico.
O Sítio é uma falésia elevada, no coração do
centro histórico, com um miradouro sobranceiro ao promontório, com uma vista deslumbrante
sobre a cidade e a sua orla marítima. Segundo
reza a lenda, foi aí que a Virgem salvou de morte
certa D. Fuas Roupinho, um dignatário local, ao
impedi-lo de seguir um veado que saltara da falésia para o nevoeiro em 1182. Em homenagem
à Virgem, ergueram à beira da falésia a Ermida
da Memória.

O Sítio é um dos pontos de atracção da Nazaré e é um lugar secular de peregrinação e culto
de forasteiros e locais, onde muito se ansiou e
rezou pelos sucessivos regressos dos homens da
faina. Ali, dediquei algum tempo a visitar os locais de interesse cultural e a sentir o poder e a
grandiosidade do oceano que se estende a perder
de vista, onde apreciar o final de tarde, com o
sol a beijar o mar, cobrindo-o com um imenso
manto de luminosidade de prata, é imperdível.
De bicicleta ou a pé, renovamos as energias,
apreciando a beleza da paisagem, ao percorrer a
“Estrada Atlântica”, cuja ciclovia, com uma extensão total de 45,6 quilómetros, faz a ligação
entre o Sítio e a Praia do Osso da Baleia. Um
percurso a não perder, onde podemos admirar a
beleza ímpar do pôr-do-sol.
São igualmente dignos de visita, a Igreja
Barroca de Nossa Senhora da Nazaré, o Museu
Etnográfico e Arqueológico Dr. Joaquim Manso, com um acervo museológico de carácter local e regional, onde podemos ver, para além de
objectos arqueológicos e etnográficos, pintura,
fotografia, embarcações tradicionais e trajes nazarenos.
Na extremidade do morro, temos o Forte de
S. Miguel Arcanjo, do século XVII, onde está
localizado o Farol.
Os arredores merecem igualmente ser visitados. Na saída do Porto de Abrigo, a caminho da
praia do Salgado e logo após a Ponte das Barcas,
virando à direita temos a Igreja de S. Gião, importante templo visigótico datado do século VII,
único na Península Ibérica.
As belas praias de areia branca, que se estendem ao longo de mais de 55 quilómetros de
costa, onde se inclui a Praia do Norte, dada a
conhecer ao Mundo pelo Surfista Garrett McNamara quando há 4 anos, a 29.01.2013, surfou
uma onda gigante, no agora, mundialmente conhecido “Canhão da Nazaré”, são outros tantos
locais de eleição da região.
De S. Martinho do Porto com a sua bela enseada, que por ser uma praia arenosa numa baía

quase fechada é a preferida pelas famílias com
crianças, passando por S. Pedro de Moel, onde a
simbiose entre a intervenção do homem e a natureza é perfeita, e um pouco mais acima, a Praia
da Vieira, onde tudo é típico, desde a lota ao folclore, até à Praia do Pedrógão com o seu extenso
areal dourado, dotada de condições adequadas à
prática de actividades desportivas, tudo é digno
de ser visitado e apreciado.
Em todos estes locais, a gastronomia é rica e
variada e há para descobrir muitas especialidades regionais. Delicie-se com os pratos à base de
marisco e peixe fresco acompanhando-os com
um bom vinho e traga consigo o inesquecível sabor a mar. Na hora da sobremesa, os Barquinhos
da Nazaré, são uma doce tentação.
O artesanato é feito de cores vivas e texturas diversas. Os bonecos trajados a rigor, as miniaturas das embarcações de outros tempos, a
cestaria, a cantaria ou a tecelagem, podem ser
encontrados nas casas da especialidade ou em
vendedores de rua e serão, sem dúvida, a prova
viva de que lá esteve e trouxe consigo um pouco
da alma daquele acolhedor e simpático povo.
Sim, porque a Nazaré é uma cidade com
Alma!
Texto e Fotos: Fernando Borges