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Destinos

CSS | 9 de Dezembro de 2016

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Faial

Uma estranha sensação do belo

Dizem que são as filhas de uma deusa, filha de Neptuno e de Anfitrite. São nove. E todas elas têm um nome. Também uma cor. Como “Ilha
Azul”. Ou Ilha do Faial. Uma ilha que se tornou mundialmente conhecida por ter o mais famoso ponto de encontro de velejadores de todo
o mundo, o Peter Café. Mas também porque ali se deu, em 1957, uma erupção vulcânica, marcando definitivamente a sua paisagem. Os
Capelinhos. E porque ali também se encontram baleias e golfinhos. E mil e um cenários que se passeiam entre penhascos, pequenos montes,
vales profundos e verdejantes, piscinas naturais e praias de areia escura. onde o azul é omnipresente

Entre o Velho e o Novo Mundo, como que
boiando num infindável oceano, existem nove
ilhas. São os Açores, essas ilhas remotas rodeadas
pelo mesmo mar, quase que se olhando olhos nos
olhos. Algumas delas mesmo quase que se tocando.
Mas existem duas dessas ilhas onde esta sensação é mais presente, mais sentida, o Pico e o Faial.
E foi ao encontro desta última, separada do seu
vizinho Pico por uma estreita linha de água a que
chamam Canal do Faial e sob a guarda dos ilhéus
Em Pé e Deitado, que não tira os olhos de São Jorge e que parece estar sempre à procura de encontrar
no horizonte as outras ilhas que compõem o grupo
central do arquipélago açoriano, as ilhas da Terceira e da Graciosa, que partimos.
Faial que tem na marina da Horta a sua principal porta para o Mundo, esse museu vivo onde
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“Lobos do Mar” se passeiam ou pintam as pedras
e o chão como forma de agradecimento a Neptuno
por os terem trazido a terra firme, perpetuando a
sua passagem por esta ilha.
Percorrer este museu a céu aberto é sentir essa
doce sensação de que também somos velhos “Lobos

do Mar”, uma sensação que se prolonga quando
atravessamos a rua empedrada que separa este museu vivo de um conjunto de edifícios cujas fachadas
parecem contar histórias, e entramos naquela porta
encimada por uma tabuleta em madeira onde se
pode ler “Café Sport”, ladeada por dois cachalotes
esculpidos em madeira.
Nesse momento, apodera-se de nós uma outra
sensação. A de que acabámos de entrar num lugar
especial, único, como que num território livre de
fronteiras, frequentado por gentes de todas as latitudes e longitudes, uma verdadeira paragem do
mundo.
Depois, é seguir o que nos ensinaram. Pedir o
seu famoso gin tónico, a sua tosta mista e os sentidos, principalmente a audição. E deixarmo-nos
embalar pelas conversas que pairam no ar. Conversas de gentes que têm no mar a sua paixão, envoltas
num puro espírito de confraternização e convívio,
um lugar que se tornou mítico, uma referência incontornável para os velejadores de todo o mundo
que, desde há décadas, muitas décadas, ali buscam
acolhimento e trocam experiências.
Um lugar que também se tornou ponto de encontro de residentes, turistas, gente das mais diversas artes e gentes dos mares de todo o mundo,
e que abriga um dos mais completos museus de
scrimshaw, ou a arte de esculpir dentes e ossos de
baleia.
Mas há que deixar a cidade da Horta, depois de
mais um tonificante gin no Peter. Há que partir ao
encontro de muitas das outras curiosidades e tradições que sabiamente perpetuam nesta ilha.
E de segredos que fazem do Faial uma das
mais marcantes ilhas dos Açores. Mas sem
que antes olhemos para o chão e admiremos os seus passeios com belos desenhos
em calçada portuguesa.
Subir à Espalamaca, parar no Miradouro da Nª Sra. Conceição com vista panorâmica para a Horta e lado norte da ilha,
prosseguir até aos Flamengos e aí deliciarmo-nos com os seus belos moinhos e esse

fascinante Vale dos Flamengos, seguir em direcção
à Caldeira, descer para a zona norte da ilha, entre
verdes pastagens bordeadas por hortênsias, e parar
no miradouro com vista para a Fajã.
Uma paragem obrigatória que servirá não só
para revisitar todos esses lugares que ficaram para
trás, numa viagem pela nossa memória marcada
pela policromia dos caminhos, mas também para
tentar adivinhar o que nos espera mais além, sabendo que nesse mais além iremos encontrar um
lugar único e o mais marcante não só para o Faial
mas também para todos os Açores.
São os Capelinhos, um lugar cheio de história e

de estórias, um lugar que nem a nossa mais criativa imaginação consegue desenhar. Uma paisagem
completamente oposta a todas as outras que possamos encontrar no Faial, que nos arrebata pela
sua imponência e estranha beleza, numa mostra
constante da grande força da Natureza, da brutalidade que emergiu da grande erupção de 1957,
soterrando campos, casas e vidas, mas criando uma
das mais fantásticas paisagens dos Açores.
Lugar onde acontece um pôr-do-sol único, em
frente do qual continuam a “navegar” golfinhos e
baleias, parte integrante da cultura, vida e história
das gentes desta ilha.
Texto e fotos: Fernando Borges