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entrevista

CSS | 7 de Dezembro de 2017

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UTENTES DA SAÚDE DO CONCELHO DO SEIXAL
VOLTAM AOS PROTESTOS
Nas últimas semanas, a luta por melhores cuidados de saúde no concelho do Seixal intensificou-se. A diminuição da capacidade
de resposta da UCSP de Corroios e o atraso no lançamento do concurso para o novo centro de saúde em Santa Marta do Pinhal;
cativações e a ausência de inscrição de verbas para o Hospital do Seixal no Orçamento de Estado de 2018 estão na origem dos
protestos da população utente dos serviços públicos de saúde.

No dia 22 de novembro foi feita uma
vigília junto ao Centro de Saúde de Corroios
e, a 27, uma concentração à porta da residência oficial do Primeiro-Ministro em
S. Bento. A liderar estas lutas está a Comissão de Utentes da Saúde do Concelho do
Seixal (CUSC.S). O “Comércio” esteve à
fala com um dos seus membros, José Lourenço, a quem colocou diversas questões
sobre o estado da saúde no concelho.
Depois de alguma acalmia, a CUSC.S
lança diversas iniciativas de protesto.
Porquê agora?
Embora num curto espaço de tempo,
estas iniciativas foram bastante amadurecidas e ponderadas. A CUSC.S não tem
um prazer especial em trazer a luta para as
ruas mas, quando o diálogo se esgota ou
se tenta fazer “tábua rasa” das promessas
e acordos assinados, não resta outra alternativa do que amplificar a voz dos utentes,
para que seja ouvida onde é necessário.
Porque motivo é que a unidade de
Corroios tem sido alvo de tantos protestos e quais os motivos para esta luta?
A situação da Unidade de Cuidados de
Saúde Personalizados (UCSP) de Corroios
é paradigmática da escassez de resposta em
cuidados de saúde primários de que o nosso concelho padece. A falta de médicos é
crónica. Para esta unidade dar cobertura
a todos os inscritos frequentadores, necessitaria de 16 médicos de família, quando
nem de metade dispõe. Para atenuar essa
carência, estava em funcionamento um
atendimento diário das 8 às 19h00, para
doença aguda e utentes sem médico de
família, que era assegurado por médicos
contratados em “outsourcing”.
No dia 31 de outubro tomámos conhecimento de que, por ordens superiores, essas
horas iriam diminuir das atuais 190 horas
mensais para 36 horas e apenas à 3.ª feira.
A agravar este cenário, não foram repostas as duas médicas que saíram recentemente da unidade, deixando a descoberto
mais cerca de 3.800 utentes, a juntar aos já
cronicamente existentes.
Trata-se de uma situação insustentável,
até porque estamos a entrar num período
crítico de gripe, que requer um reforço da
capacidade de resposta do sistema. Desde
logo, estivemos em contacto com a coordenadora da unidade, que manifestou a
sua total impotência face às determinações superiores que lhe foram impostas.
Enviámos de imediato um e-mail à direção do Agrupamento de Centros de Saú-

de (ACES) de Almada/Seixal, indagando
por soluções para a situação dramática que
estava criada. Sabíamos de antemão que
o próprio ACES cumpria ordens emanadas da Administração Regional de Saúde
de Lisboa e Vale do Tejo, e se limitou a
fazer cumprir e gerir, da forma possível,
essa determinação. Tivemos depois uma
reunião no ACES com toda a equipa diretiva daquele agrupamento, no que fomos
acompanhados pela senhora Vereadora
Manuela Calado, da Câmara Municipal
do Seixal.
Da reunião saiu alguma medida para
ser posta em prática rapidamente?
Saíram alguns esboços, embora paliativos e insuficientes. O certo é que, da análise das carências e insuficiências da oferta
de cuidados de saúde primários no nosso
concelho, percebemos que a situação é
muito complicada e que só a construção
do novo centro de saúde de Corroios e do
centro de saúde de Foros de Amora poderá pôr alguma ordem e resolver questões
estruturais, criando condições de acolhimento a mais médicos e outros profissionais de saúde.
Um novo centro de saúde para Foros
de Amora já é uma reivindicação antiga, qual o impacto desta criação?
Há muito que se exige essa unidade.
Os cerca de 12.000 utentes de Foros de
Amora estão a ser atendidos na UCSP de
Amora que, já de si, está a rebentar “pelas
costuras”. Existe um terreno há muito
cedido pela Câmara Municipal do Seixal,
excelentemente integrado no meio urbano.
A retirada destes 12.000 utentes para uma
unidade própria, libertaria capacidade na
UCSP de Amora para fazer face às suas
próprias necessidades.
Mas não é só Corroios e Amora que
têm problemas. Apenas estão no topo das
prioridades. É absolutamente necessária a
construção de uma extensão em Aldeia de
Paio Pires, cujos utentes têm de se deslocar
a outras unidades do concelho, acrescidos
com custos de transporte que, em muitos
casos, são impeditivos de um acompanhamento clínico mais regular, como é o caso
dos diabéticos e outros doentes crónicos.
De uma forma geral todas as unidades
de saúde no concelho têm vários constrangimentos funcionais, seja ao nível das suas
estruturas físicas, seja de recursos humanos. A maioria das unidades não tem uma
central telefónica em condições, o centro
de saúde de Amora está há mais de 4 anos

sem ar condicionado, o material informático das unidades e do próprio ACES
é obsoleto e recuperam-se peças de umas
máquinas para as outras para que algumas, poucas, se mantenham em funcionamento.
Quem está nas estruturas diretivas de
topo, como a Administração Regional de
Saúde e o Ministério da Saúde estão alheados, ou alheiam-se, da realidade vivida
pelo ACES ou pelas unidades de saúde.
Os utentes estão refletidos numa folha de
Excel, sem rosto.
Acha que a população em geral, tem
perceção que se passa nos centros de
saúde?
Acredito que a maioria, não o tenha.
Naturalmente que as pessoas exigem ser
bem servidas, e isso é bom, mas muitas
das vezes não se apercebem das condições
em que as equipas trabalham. É preciso
entrar no “coração” da unidade e contactar
diretamente os seus profissionais. Somos
confrontados frequentemente com o desgaste físico, emocional e algumas situações
mesmo de “burnout”. É fatigante, ao longo
do dia, ter de desligar e ligar os computadores de hora a hora, ou menos, porque
o sistema não responde; é penoso subir e
descer escadas, dezenas de vezes por dia,
para entregar um simples papel, por falta de manutenção de um mini-elevador
interno; é caricato, quando chove, ter de
esvaziar salas de trabalho e colocar dezenas de baldes para amparar a água. Estas
são apenas algumas das muitas situações
que nos chegam.
Acha que esses fatores poderão estar
ligados às queixas de alguns utentes em
relação ao atendimento?
Essas situações de impaciência existem,
mas não são a regra. O que nós verificamos
no dia-a-dia das unidades é a resiliência
das equipas, a imaginação e criatividade
para encontrar caminhos que permitam
manter as unidades em funcionamento.
Acredito que se as equipas não procedessem deste modo, a situação real seria bastante mais grave.
A nossa luta é também por eles, pela
dignificação das suas condições de trabalho. Com melhores condições, presta-se
um melhor serviço.
Voltando a Corroios, foi assinado
este ano um acordo para a construção
do novo centro de saúde em Santa Marta do Pinhal. Como está a situação?
Na verdade, em 9 de maio, foi assinado
um acordo de colaboração entre a ARS-LVT e a Câmara Municipal do Seixal
para a instalação do novo centro de saúde, homologado na mesma altura pelo
Secretário de Estado da Saúde, que também esteve presente. Nessa cerimónia,
com pompa e circunstância, o governante
garantiria que esta nova unidade estaria ao
serviço dos utentes até final de 2018. Também prometeu que o Hospital do Seixal
estaria concluído em finais de 2019. O
certo é que, passados 7 meses, continuamos no papel, no plano das intenções. Há
uma portaria conjunta dos Secretários de
Estado do Orçamento e Adjunto e da Saúde, publicada em DR a 2 de outubro, que
autoriza a repartição, entre 2017 e 2018,
da verba destinada à sua construção. O
certo é que o concurso para a construção já

deveria estar lançado e escolhido o respetivo empreiteiro. A própria Câmara Municipal do Seixal não pode avançar com o
concurso para acessibilidades e espaços
exteriores, sem que a ARS-LVT lhes entregue o projeto final. Para além da cedência
do terreno, a Câmara Municipal do Seixal
tem orçamentada uma verba de cerca de
400 mil euros para estas intervenções.
Quais os motivos que vos levaram a
promover no dia 27 de novembro uma
concentração à porta da residência oficial do Primeiro-Ministro?
O Orçamento de Estado de 2017, contempla uma verba de 10 milhões de euros
para os projetos de arquitetura e especialidades técnicas de três hospitais públicos:
Lisboa Oriental, Évora e Seixal. O certo
é que essa verba, a um mês do final do
ano, encontra-se cativa no Ministério das
Finanças, o que deixa a descoberto uma
incongruência face às declarações que o
Secretário de Estado fez em Corroios e o
Primeiro-Ministro em junho deste ano.
António Costa afirmou à comunicação
social que, em julho, se deslocaria ao concelho do Seixal para anunciar formalmente o lançamento do Hospital. Não sabemos
é de que ano.
Ao iniciar-se a discussão do Orçamento
de Estado para 2018 e, analisadas as propostas do governo para a Saúde, verificamos que aparentemente este não previa
qualquer verba para a sua construção.
Qual foi a leitura da Comissão de
Utentes sobre essa omissão?
Foi a única leitura possível: indicia que
o governo não pretende iniciar a obra em
2018, comprometendo as promessas feitas
à população. Nem as declarações feitas
pelo Ministro das Finanças em discussão
na especialidade do OE2018 nos convenceram. Dizia então que o investimento se
iria refletir em 2019. Ora, se assim for, é
porque a obra só avança em 2019, atrasando mais um ano a sua conclusão. Nenhum
empreiteiro arranca com uma obra sem
receber um valor na adjudicação.
Foi por isso que enviamos um e-mail
a todos os grupos parlamentares para que
exigissem a inscrição da verba ainda neste
Orçamento e foi por isso que decidimos
fazer uma concentração em S. Bento e
apresentar uma carta no mesmo sentido
ao Primeiro-Ministro.
O que pretendem fazer daqui para a
frente?
A população do concelho do Seixal
está farta de ser enganada pelos sucessivos governos. Está saturada de assistir à
capitulação do Estado perante o poder dos
grupos privados da saúde. Mais de metade
da faturação destes grupos é feita ao Estado, que deixa assim de investir suficientemente no Serviço Nacional de Saúde.
No dia 17 de dezembro teremos de
novo a iniciativa do Natal do Hospital. No
final do próximo mês de janeiro, iremos
entregar ao governo os mais de 40.000
votos da campanha “Um voto pelo Hospital do Seixal”. Outras iniciativas serão lançadas. Não abdicaremos de colocar a luta
nas ruas, de amplificar a voz dos utentes.
Não aceitaremos outro 2009. Esgotou-se a
nossa capacidade de tolerância sobre estas
questões, que mexem literalmente com a
vida das pessoas.