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CULTURA

CSS | 20 de Outubro de 2017

4

HISTÓRIAS ASSOCIATIVAS (23)*

CAETANO VERÍSSIMO

Fernando Fitas

UMA VIDA INTEIRA
DEDICADA
à SFUA e à sua banda

Neste convocar de afectos associativos,
vivências e memórias, é-nos sugerido por
alguns elementos da direcção da União
Arrentelense, a audição de Caetano
Veríssimo, 78 anos, um dos associados mais
antigos da colectividade e porventura, um
dos seus filarmónicos cuja ligação à banda
assume maior perenidade.
Homem de trato fácil mas receoso de que,
por via da sua pouca instrução escolar, o
seu testemunho pudesse, eventualmente,
beliscar a grandiosidade da obra cultural que
a sociedade ergueu ao cabo dos cento e tal
anos que leva de existência, algumas vezes
nos chamou a sua casa, em ordem a assinalar
determinado detalhe que não mencionara
acerca de um ou outro episódio a que antes
se havia reportado.
Essa constante exigência de rigor, em tudo
quanto à vida da colectividade diz respeito,
faz dele uma figura deveras respeitada por
todos quantos, por esta ou aquela razão, se
acham, de alguma forma ligados à prestigiada
agremiação arrentelense.
Embora haja nascido em Paio Pires, os laços

de afectividade que mantém com Arrentela
e a sua sociedade remontam ao tempo em
que começou a namorar sua esposa. “Tinha
eu 15 anos, quando iniciámos o namoro e
casámos quatro anos depois.” Diz. “Ora,
como ela era natural de Arrentela e aqui
vivia, não tive outra alternativa que não fosse
a de emigrar para cá, situação que, por força
de todas estas décadas de permanência e dos
50 anos que levo de músico da sociedade,
me confere o estatuto de arrentelense. Pelo
menos, assim sou considerado.” Refere com
notória satisfação.
“Primeiros passos na música
foram dados em Paio Pires”
Ainda que toda a sua carreira tenha sido
realizada na SFUA, foi no entanto, na
Sociedade 5 de Outubro, em Paio Pires,
que aprendeu o solfejo. “O meu monitor
chamava-se José Costa, pessoa muito
dedicada à banda da sua sociedade e que para
além de ser seu director, foi ainda o primeiro
músico do concelho a tocar trombone de

ROSTOS DO SEIXAL

ANTÓNIO FORTUNATO
DE SOUSA
(1914 - 1989)

Nasceu no Montijo, começando, ainda
muito jovem, a sua formação musical na escola
de música da Sociedade Filarmónica 1.º de
Dezembro, onde aprendeu a tocar saxofone
contralto. Rumou para norte, vivendo na cidade
do Porto, onde conheceu a sua esposa, voltando
juntos a sul. Em 1933 alistou-se na Banda da
Armada Portuguesa, como voluntário, na
classe de músico. A partir de 1935 frequentou
a Escola de Música do Conservatório Nacional,
onde se formou em saxofone – com média
de 20 valores – e ainda em violino, sendo-lhe
atribuído em 1937 o Prémio do Conservatório,
com o pianista Vianna da Mota no júri. Ficou
na Banda da Armada até à reforma, em 1974,
com o posto de 1.º Tenente, tendo chegado a
assumir a posição de Subchefe da Banda. Em
1956 é convidado a dirigir a Banda da Sociedade
Filarmónica União Seixalense - "Os Prussianos",
tendo, não só, continuado o legado do anterior
maestro Marcos Romão dos Reis Júnior, como
também ter criado uma pedagogia exemplar
de orquestrar e transcrever peças originais para

vara,” salienta.
“Contudo, por razões que se prendiam com
as suas funções de encarregado da serralharia
no Arsenal do Alfeite, numa altura em que ali
havia necessidade de efectuar muitos serões,
só me pode ministrar as primeiras lições,
findas as quais me endossou para o senhor
Jerónimo Costa.
No entanto,” faz notar, “mau grado todo o
empenho colocado por aquele na busca de
uma saída para o caso, este também se via a
braços com um tremenda falta de tempo, pois
que, tratando-se do único barbeiro existente
na aldeia, nessa época, não tinha mãos a
medir para despachar a freguesia. Toda esta
situação, fazia com que estivesse semanas
inteiras sem uma aula, o que, para meu pesar,
acabou por me levar à desistência.”
Filho de uma família de fracos recursos, que
trazia uma Quinta à renda para alimentar as
12 bocas que constituíam o agregado, o qual
incluía, não apenas, o casal e os oito filhos,
mas também os avós, começou a trabalhar na
Wicanders aos doze anos, circunstância que,
ao invés de lhe esmorecer o sonho de um dia
vir a saber música, lhe acentuou esse desejo.
“Mais tarde,” conta, “com a obtenção por
parte de minha sogra para namorar a filha
e o ingresso na Mundet, associei-me na
União Arrentelense, com o intuito inicial
de aproveitar as condições mais vantajosas
oferecidas aos sócios no acesso aos bailaricos.
Sobretudo, porque não tendo ainda obtido
idêntica autorização por parte de seu pai,
havia que lançar mão a todos os expedientes
que possibilitassem os nossos encontros.
Este, a meu entender, era um deles.”
E de tal sorte se revelou a sua entrada
para a referida fábrica, que um dia o
companheiro e consócio, José de Almeida
Cardoso, vulgarmente conhecido por ‘José
da Mariana’, o aliciou a retomar as aulas de
solfejo. Ele mesmo se responsabilizaria pelas
lições, na condição de que, quando estivesse
apto a receber o instrumento, só aceitaria

orquestra ou banda sinfónica, adaptando-as a
uma banda civil ou filarmónica, para que esta
fosse corretamente executada. Tinha o cuidado
de escrever a história da obra ou o seu ponto
de vista acerca da mesma na partitura que
copiava. Compositor nato, António Fortunato
de Sousa, escreveu originais seus para a Banda
da União Seixalense, tais como a marcha "O
Veterano - Adelino Lopes", a fantasia para
trompete "Dulce" ou a abertura "Gratidão" homenageando assim as gentes da coletividade,
compondo ainda obras reconhecidas
nacionalmente, como a "Rapsódia Portuguesa
nº1", a suite "Quadros Portugueses" ou a
abertura "Lusitânia", estreadas pela Banda da
União Seixalense, servindo assim de molde para
eventuais correções antes da estreia oficial das
mesmas, quer na Banda da União Seixalense,
quer na Banda da Armada Portuguesa, onde
também era maestro e compositor. Para além
da banda, dirigiu e orquestrou canções para o
Grupo Cénico da União Seixalense, ajudando
sempre nos eventos culturais da coletividade.

integrar o corpo da banda de Arrentela.
Firmado o acordo, lançou-se no
aperfeiçoamento dos seus conhecimentos
musicais, e, desse modo, na concretizar
do sonho que há muito acalentava no
mais fundo de si. “Pena foi,” diz, “que o
homem tenha adoecido dos pulmões e não
tivesse concluído a sua missão devido ao
seu internamento no sanatório. Face a este
contratempo, Manuel Lourenço Júnior, ou
‘Manuel da Aurora’, prontamente chamou
a si a continuidade do trabalho de me dar
as lições que faltavam para terminar esta fase
da aprendizagem. Coube-lhe a ele, portanto,
a satisfação de me levar para a estante, de
me entregar o instrumento e me levar para
a banda.”
A respeito de Manuel Lourenço Júnior,
também apelidado de Manuel Marques,
convirá sublinhar que se tratou de uma
personagem que marcou uma época na
Banda da Sociedade Filarmónica União
Arrentelense. Possuidor de uma boa formação
musical, quer no domínio da composição,
quer no da execução, ministrada, de resto, por
um tio cego, proporcionaram-lhe a faculdade
de saber tocar todos os instrumentos de bocal
existentes na banda. De igual modo, era ele
quem escrevia todo o tipo de pautas para a
banda.
Um feito raro para a época, especialmente
se nos recordarmos que todo o material
utilizado pelos respectivos, músicos, tinha de
ser manualmente copiado, uma vez que, ao
tempo, não havia ainda fotocopiadoras. Uma
tarefa que lhe tomava todos os momentos
livres, tornando-o, no dizer de quantos o
conheceram “num escravo da própria banda,
mas à qual se entregava com todo o gosto.”
*Excertos de “Histórias Associativas- Memórias
da Nossa Memória – 1º Volume As
Filarmónicas”.
Edição Câmara Municipal do Seixal-2001

Em 1969, o seu trabalho como maestro da
Banda da Armada Portuguesa intensifica-se,
tendo de deixar a regência da Banda da União,
embora visitasse regularmente a coletividade
e continuasse a compor para a banda, como a
marcha "Centenário" para os festejos da União
em 1971. Mais tarde, dirige a banda onde
começou a sua vida musical, no Montijo, tendo
falecido em Lisboa, na sua casa da Avenida
João XXI, deixando todo o seu legado hoje
conhecido nas duas filarmónicas que dirigiu,
contando a União Seixalense com cerca de 50
obras escritas por si, entre originais, cópias e
arranjos.

Mário Barradas