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ENTREVISTA

CSS | 07 de Julho de 2017

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MÁRIO BARRADAS
O HOMEM DOS SETE oFÍCIOS
Nascido em Lisboa e criado no Seixal, Mário Barradas é aquilo que se pode chamar de um homem dos sete ofícios: é professor do ensino básico, músico,
cantor e pertence ainda à direção da Sociedade Filarmónica União Seixalense, “Os Prussianos”. Por tudo isto e muito mais, o "Comércio" decidiu conhecer e dar a conhecer uma pouco melhor esta personagem já conhecida da cidade do Seixal.
E a música cantada,
como surge na tua vida?
Conta-nos um pouco do
que tens feito nessa área.

Como surgiu o teu amor pela música?
Pelo que me foi contado, assim que
comecei a falar, pedi um tambor como
prenda de Natal e sempre me lembro
de parar a ver ou ouvir uma banda ou
uma orquestra, mesmo quando dava na
televisão.
Onde iniciaste os teus estudos
musicais?
Comecei na Escola de Música Matias
Lucas, na União Seixalense. Naquela
época, o ensino da formação musical
nas Filarmónicas era muito rigoroso e
na União não era excepção: os métodos
Freitas Gazul e o Fontaine tinham de
estar na ponta da língua para começarmos
com a aprendizagem do instrumento
musical e, posteriormente, a entrada para
a Banda Filarmónica. Tive como primeiro
professor de trompete o Marco Rosa,
que ainda hoje toca comigo na Banda.
Quando cheguei à Banda, sabia apenas
tocar o Hino da Sociedade (que é bastante
complicado) e uma outra peça. Fiquei a
olhar para a estante com a complexidade
das obras que a Banda tocava naquela
altura: o Guilherme Tell, a Gazza Ladra
e a Aída - todas elas aberturas de óperas.
Aos 13 anos começo a aprender música
de forma oficial. Ingresso na Academia
de Música e Belas Artes Luísa Tódi e,
mais tarde, continuo no Conservatório
Regional de Setúbal a aprendizagem de
trompete com o professor José Augusto
Carneiro. Ali percebi de imediato que
as Filarmónicas são grandes escolas de
música, dando-nos uma prática excelente
quer a nível rítmico e melódico, como de
postura perante a música e conjunto de
músicos.

Estudava no 5º grau (de
oito) do Curso Oficial de
Trompete no Conservatório
Regional de Setúbal quando
tive a sorte de ter como
professora de coro a maestrina
Filipa Palhares. Ela dirigia
o coro com uma dedicação
e
alegria
contagiantes.
Cantávamos tudo e mais
alguma coisa! Um dia ela
pediu-me para fazer parte do Coro de
Câmara, também dirigido por ela. Aqui
íamos cantar um pouco por todo o distrito
e a Lisboa. Num dos ensaios comentou
que estavam abertas inscrições para o
Conservatório Nacional de Lisboa, onde
eu podia ir fazer exame para admissão a
Canto. Sem nunca ter cantado fora do
ambiente de um grupo coral, decidi ir
fazer exame. Fui à secretaria escolher a
peça (qual delas a mais difícil) e na semana
seguinte fui a exame. Quando lá cheguei,
fiquei espantado com a quantidade de
candidatos. Encaminharam-me para
uma das salas de piano do Conservatório
e disseram-me que poderia estudar se
assim o entendesse. Eu olhei à minha
volta e pensei que barracada que vou
dar no meio de tanta gente com boa voz!
Entrei na sala de exame, enorme, forrada
a tapetes de Arraiolos, com um grande
piano de cauda e a pianista mais quatro
professores examinadores. Claro que o
meu sistema nervoso não estava calmo!
Fiz exame, corrigi algumas vezes o que
tinha apresentado e mandaram-me sair.
Voltei ao Conservatório Nacional para
ver o resultado e tinha sido aprovado,
tendo a melhor nota de entrada - um
dezoito! Fui aluno de professores
ilustres, como Filomena Amaro (canto),
Eurico Carrapatoso (Análise e Técnicas
de Composição), Cristina Cardoso e
Gabriela Canavilhas (prática ao teclado),
Bárbara Schilling Tengarrinha (Alemão),
Marcello Sacco (Italiano); Tiago Marques
(coro), Helena Lima (Acústica e História
da Música), entre outros. Comecei em
simultâneo a ter aulas em casa da saudosa
professora e cantora Cristina de Castro, em
Campo de Ourique, sendo o último aluno
dela. Aqui, conheci o Paulo de Carvalho,

Luís Represas, Nuno Guerreiro, Adelaide
Ferreira, Marta Hugon e o José Raposo.
Meses antes da Cristina de Castro falecer,
ela idealizava um espectáculo no Teatro
de São Carlos (onde cantou com a Maria
Callas) com os alunos e colegas de trabalho
de toda uma vida, nunca chegando a
acontecer. Um dia, a minha irmã foi
comigo a casa dela e também cantou. Era
uma diversão constante aquela casa tão
cheia de história e recordações. A partir
daqui surgiram convites para actuações e
concertos, acontecendo o primeiro grande
espectáculo por convite do Dr. António
Santos - presidente da Junta de Freguesia
do Seixal, nas Festas Populares de São
Pedro, cantando temas escritos por Ary
dos Santos e com uma orquestra composta
por músicos da União Seixalense, Timbre
Seixalense e Operária Amorense, numa
noite inesquecível onde a dedicação e

amizade ajudou a levar o espectáculo a
bom porto.
Participaste nas Festas Populares de
São Pedro com um grupo de amigos.
Conta-nos essa experiência.
Este ano voltei, novamente a convite
do amigo e presidente da junta António
Santos.
Escolhi
quatro
músicos,
excelentes profissionais que tenho por
sorte serem também eles meus amigos e
optei por interpretar algumas canções que
venceram o Festival RTP da Canção e/ou
que representaram Portugal do Festival
Eurovisão da Canção, desde o seu início.
Fizemos duas semanas de trabalho intenso
e o resultado foi excelente. Demos voz a
canções mais esquecidas como Onde Vais
Rio Que Eu Canto, que Sérgio Borges
interpretou em 1970 ou O Meu Coração
Não Tem Cor, levada à Eurovisão por
Lúcia Moniz em 1996 e que era a melhor
classificação de sempre antes do Amar
Pelos Dois de Salvador Sobral, que
também interpretei ou o ícone do Festival
da Canção - Desfolhada Portuguesa que
Simone de Oliveira cantou em 1969 e que
escolhi para encerrar o espectáculo. É um
gosto cantar, muito mais na nossa terra,
vendo o Largo da Igreja cheio para nos
aplaudir. Foi um momento muito bom
para partilhar com os músicos que me
acompanhavam.

Como chegaste à área do ensino?
Como a minha vida sempre foi a
música, concorri com a graduação de
conservatório e comecei a leccionar na
Escola Básica dos Foros de Amora em
2006. Depois iniciei um percurso de
vários anos na Escola Básica da Aldeia
de Paio Pires, onde trabalhávamos todos
em cooperação constante e a dinamização
coordenada pela professora Maria Luís
Velez era ímpar. Fizemos Marchas
Populares de São Pedro, Arraiais, Feiras,
Festas e o mote era sempre a Aldeia!
Mais que colegas de trabalho, fiz amigos.
Actualmente, lecciono no Agrupamento
de Escolas Mouzinho da Silveira, na
Baixa da Banheira (Moita), onde a música
é também muito valorizada, havendo uma
Tuna Académica, onde toda a comunidade
escolar é convidada a participar.

Licenciei-me na Escola Superior de
Educação (ESE) Jean Piaget em Educação
Musical e frequentei o mestrado na ESE
do Instituto Politécnico Setúbal. Na
licenciatura, tive como docente na cadeira
de Direcção de Orquestra o professor
Manuel Rebelo que, a seu convite, me
integrou no coro da Procuradoria-Geral
da República. Dou ainda aulas de canto
e técnica vocal no Barreiro e na União
Seixalense.
O que te realiza mais nesta área?
Melhor que saber algo, é partilhar e
a partilha faz-se com o ensino. É muito
gratificante ver o gosto dos alunos a
aprender e depois a reproduzir. Sempre
gostei de ensinar e juntar a malta para
partilhar conhecimento. Em tempos
organizei na União Seixalense um grupo
musical com alunos da escola de música
- os Algazarra e Companhia. Fizemos
imenso sucesso e ainda hoje falam
naqueles tempos. Componho também
marchas populares para as escolas e escrevi
algumas marchas da União Seixalense
para as Festas Populares de São Pedro
e ainda hoje as pessoas se lembram e
cantam. É este o melhor pagamento para
quando criamos ou ensinamos algo novo.