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SOCIEDADE

CSS | 13 de Janeiro de 2017

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O Concelho do
Seixal durante a 2ª
Guerra Mundial
Apesar de manter a neutralidade, Portugal não ficou obviamente livre
das consequências da 2ª Guerra Mundial (1939-1945) na economia e na
opinião pública.
DR

Legenda: Foto da saída de operários da antiga fábrica da «Mundet»
do Seixal (meados do século XX)

A partir de 1941, a situação económica
agrava-se nos sectores agrícolas e
industriais do país, levando à subida
dos preços dos géneros alimentícios
de primeira necessidade. De modo a
combater este último problema, o governo
de Salazar começa por tomar medidas
drásticas e duras, como a fixação de
preços e a requisição forçada de géneros ao
sector privado, com o objectivo de evitar
o descontentamento nas classes baixas.
Como consequência, o governo decretou
a criação de Comissões Reguladoras
do Comércio Local para a fixação de
preços, sendo que no concelho do Seixal,
tal Comissão surgiria em Fevereiro de
1942. Apesar de tais medidas, durante a
vigência do conflito nos próximos 3 anos,
as queixas da população do concelho do
Seixal sobre a falta de géneros e de preços
inflacionados multiplicavam-se no jornal
que na época se publicava no concelho,
titulado «A Voz do Seixal» - estas queixas
relacionavam-se com a falta de géneros
como a batata, o azeite e a banha; em
Abril de 1945, o mesmo jornal noticiava a
falta de carne no concelho. A fiscalização
dos preços dos géneros de primeira
necessidade levaram ao levantamento
de 8 processos criminais, na sua maioria
pela prática de especulação de preços (a
venda de géneros por preço acima que
era fixada por lei) – pelo facto de estes
actos serem considerados crimes contra a
“Economia Nacional”, o julgamento e a
condenação ocorriam no Tribunal Militar
Especial (o mesmo tribunal responsável
pelo julgamento e condenação dos presos
políticos da ditadura do Estado Novo).
Em finais de Julho de 1943, face
às dificuldades económicas, ocorreram
greves operárias em várias fábricas do
concelho do Seixal – participaram nestas
greves os operários da fábrica «Sociedade
Portuguesa de Explosivos» em Corroios,
da fábrica da «Mundet» na Amora e na
fábrica da firma «Wicander» no Seixal.
Segundo as informações recolhidas pelas
autoridades face ao que sucedeu, estas
greves eram manifestações contra a falta de
géneros alimentícios e os baixos salários,
sendo que os grevistas reivindicavam o

aumento destes – como consequência,
houve casos de agressões e as fábricas
tiveram que ser ocupadas por forças
policiais e encerradas durante alguns
dias até à reabertura destas. Em relação
à fábrica da firma «Produtos Corticeiros
Portugueses Lda.» (localizada na Amora),
apesar de a documentação histórica não
nos descrever as movimentações dos
operários desta firma, esta no entanto
detalha que cerca de 200 operários que
trabalhavam nesta fábrica tinham sido
demitidos pela firma por terem parado
o trabalho no dia 27 de Julho. Segundo
os escritos de Álvaro Cunhal desta época,
terá sido durante estas greves do mês de
Julho de 1943 que o Partido Comunista
Português (activo clandestinamente) teria
estabelecido pela primeira vez ligações
com os operários do concelho.
Em relação à opinião pública
seixalense sobre a guerra, esta era
limitada ao jornal «A Voz do Seixal», o
único existente no concelho. Apesar de
a Censura se ter esforçado para que fosse
limitada na imprensa a discussão pública
de assuntos relacionados com a guerra,
este jornal era claramente a favor dos
«Aliados» (EUA e Reino Unido) – sem
fazendo, no entanto, qualquer referência
à «Frente Oriental», onde combatiam as
forças soviéticas. Em Outubro de 1943,
o jornal relembrava a velha aliança LusoBritânica estabelecida no ano de 1373 –
no entanto, este centrava os seus artigos
sobre o tema da guerra nomeadamente
com apelos à paz no mundo. Com o fim da
2ª Guerra Mundial na Europa (Maio de
1945 – o Império do Japão só se renderia
no mês de Setembro), tanto o jornal «A
Voz do Seixal» como o jornal clandestino
do Partido Comunista Português, o
«Avante!», relatam ter havido por todo
o concelho grande rejubilo pela vitória
dos «Aliados», havendo manifestações
populares acompanhadas pelas bandas
filarmónicas; segundo o «Avante!», no
dia 7 de Maio, cerca de 5 mil pessoas de
todo o concelho do Seixal participaram
em manifestações celebrando a derrota do
nazismo (a rendição oficial da Alemanha
só se deu no dia seguinte, a 8 de Maio).