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entrevista
CSS | 24 de Novembro de 2017
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creperia e cervejaria - baco
Há cerca de três meses, dois irmãos decidiram invadir o Seixal com um estabelecimento que nos quer ver a engordar… de
felicidade. Assim foi criada a creperia e cervejaria Baco. O “Comércio” esteve à conversa com um dos irmãos, Marcelo Morais,
que nos falou de como surgiu o projecto com o irmão Luís Morais e qual o futuro para o Baco.
Como surgiu a ideia de criarem este
espaço de convívio?
Basicamente tudo começou à volta de três
anos, eu ainda estava nos Sabores Torrados,
antigo estabelecimento onde trabalhava.
Sempre se gerou a ideia dos doces, sempre
gostei muito de gostar as pessoas pelo paladar
e tanto com doces como com bebidas. Tive
várias oportunidades na vida, não só a oportunidade de ter trabalhado nos Sabores Torrados mas também de ter aprendido muito,
foi lá que aprendi basicamente tudo o que sei
sobre restauração.
Depois tive a oportunidade de aperfeiçoar
tudo aquilo que fui aprendendo. Trabalhei na
Herdade da Aroeira, trabalhei em bares, servi
em discotecas e sempre vivi muito a restauração. Entretanto depois fui trabalhar com
o Mauro Airosa, uma pessoa que me ajudou
muito, ensinou-me aquilo que eu não sabia.
Eu sabia trabalhar em hotelaria mas não
conhecia as bases. Quando digo que ele me
ajudou, refiro-me às pessoas com quem ele me
deu a oportunidade de trabalhar. Ensinaram-me a base dos cocktails, da comida e da preparação, as ligações que ele me ajudou a criar
e que surgiram. Decidi dar um passo em frente e achava que para isso não podia continuar
a trabalhar como empregado, tinha de dar a
volta e crescer.
Tive uma oportunidade que me foi dada
pela minha irmã, ir para Inglaterra, estar lá
um ano a trabalhar, juntar o dinheiro que
necessitava e depois voltar e abrir uma coisa para mim. Arrisquei, fui para Inglaterra,
estive lá à volta de oito meses. Durante esse
tempo surgiu a grande ideia de avançar. Foi
o meu irmão que decidiu entrar comigo neste projecto, foi a pessoa que realmente estruturou tudo. Viu, fez isto e aquilo, encontrou
o espaço, conseguiu iniciar todas as obras,
e eu de Inglaterra enviava algumas ideias,
começámos a pesquisar desde a estrutura.
Procuramos as pessoas que eu conheci, pessoas como o Quim, que me ajudou a construir isto, o Toscano, que criou toda a parte
estética e alguns pormenores. Entre ele e o
Quim surgiram ideias espectaculares. E que
com a nossa ajuda, do Rui, que é basicamente
o meu braço direito, conseguimos criar aqui
um conceito engraçado. Eu sempre quis criar
um estabelecimento que fosse excêntrico, as
pessoas virem e beberem uns copos, comerem
uns doces, ter um bocado de adrenalina que
é aquele momento da semana, imagina, vir
comer uma guloseima porque se formos a ver
aqui na zona do Seixal não havia nada, e as
pessoas não tinham muito isto. Hoje em dia
as pessoas podem vir aqui, podem vir comer
que era meu. E isso são coisas interessantes
porque não estava à espera de tanta afluência, pensava que ia ser um espaço pequeno,
meu, com uma pequena afluência em que o
pessoal vinha e sentava-se. De repente às 6.ªs,
Sábados e Domingos tenho o Baco sempre
cheio, cheio, cheio. Às vezes há muito tempo
de espera, mas acho que toda a gente gosta e
sai satisfeita pelo tamanho das coisas e pelo
sabor.
Tanto eu como o meu irmão conseguimos
dar a volta e fazer o que desejávamos, batalhámos bastante, deu certo e sempre com a ajuda
da nossa família não é? Se não fosse esse apoio,
nunca íamos ter o Baco. Nos meses das obras
andámos aqui e de vez em quando parávamos
os dois, discutíamos ideias porque não sabíamos como ia ser “porque o dinheiro estava a
acabar e depois como era”, depois de repente
arranjávamos solução e era “’bora, mais um
passo à frente”, sempre com o apoio dos amigos
e família. Foi engraçado e vejo hoje, passados
quase um ano de iniciarmos esta batalha, e há
três meses abertos, está a correr muito bem,
temos feito de tudo para melhorar as condições
da casa e fazermos umas alterações, pouco a
pouco mudando a carta, criando mais coisas, ir
corrigindo alguns erros que todos cometemos e
damos a volta.
um crepe, um waffle, uma tosta, e nessa parte surgiu o apoio de um amigo meu, o Vítor,
Vitinho para nós, ele é que construiu a carta
toda. Ele é que agarrou, olhou para a carta,
viu as ideias que nós tínhamos e ele ajudou-me a criar todos estes doces, as bases, as receitas e a preparação.
Ao juntar todas estas pessoas que conheComo chegaram ao nome de Baco para
cemos ao longo deste tempo, e com a ajuda o estabelecimento?
do meu irmão, consegui fazer uma coisa aqui.
O Baco é aquilo que eu sempre senti em
Algo que tinha já há muitos anos planeado e mim. Eu trabalhava nos Sabores Torrados e
que era o que eu queria ter mas não deu, nun- lá sempre fui visto como uma pessoa de muica surgia, não havia a oportunidade porque tos excessos (risos). Bebia shots com o pessoal
também nunca ia atrás dela, porque a minha e estava sempre na brincadeira. A origem do
ideia era “vou trabalhar para os outros e um nome Baco vem do Deus do Vinho, Deus dos
dia vou crescer” mas sem ter dado o passo, excessos, Deus das grandes festas. Era aquilo
sem ter ido para Inglaterra, sem ter o apoio que eu era, extrovertido, brincalhão, as pessodo meu irmão eu não conseguia. E visto que as chegavam e iam beber umas sangrias e nós
o meu irmão me deu o apoio, juntámos todos estávamos lá sempre em grandes festas. E foi
os nossos trocos, e até ao final batalhámos, daí que surgiu o nome.
batalhámos e batalhámos. E é engraçado, que
O porquê da creperia e cervejaria. A crepeno dia da abertura foi uma cena mesmo… é ria era o que eu queria dar de doce, cervejaria
engraçado dizer isto mas ao mesmo tempo era um conceito mais “adulto”. Não queria
não tem piada nenhuma,
criar um conceito virado só
mas no dia da abertura nós
“Não é só para miúdos, para a minha geração, em
só tínhamos 30 euros na
que só o pessoal mais novo é
não é só para os mais
conta. Nós abrimos isto
que vinha comer uns crepes.
mesmo com a ideia de que se velhos, é para toda a gente” A parte da cervejaria indiquei
não abrirmos hoje, amanhã
como pessoas que podem vir
já não conseguimos. Se tivesse passado mais experimentar algumas cervejas diferentes,
um dia ou dois, já não conseguíamos abrir, para além das tradicionais portuguesas, mas
já tínhamos a necessidade de ter alguém a que dê para todos e que digam assim “ali
ajudar-nos. E não precisámos de ninguém. não é um estabelecimento só para miúdos,
Batalhámos até ao final. Era a situação de que vou lá com a minha família”. Olham para
num mês tínhamos e no mês a seguir já está- isto como um estabelecimento onde podem
vamos a pensar como íamos resolver. Eu por estar à vontade, conviver, partilhar emoções,
exemplo vendi o meu carro, vim de Inglaterra desde os sabores às brincadeiras dos shots de
com todos os trocos que tinha, o meu irmão tequila por exemplo. Estamos a partilhar com
deu tudo o que tinha, conseguiu o emprésti- pessoas que vêem a carta, que lêem a carta e
mo e nós no final de tudo conseguimos dar a nota-se que é jovem. É uma carta que dá para
volta e conseguimos abrir.
toda a gente mas é como se diz “está na moda”
E depois lá está, tudo aquilo que fizemos neste momento, são as limonadas, os mojitos.
foi um acto de, não digo loucura declarada- Dá para toda a gente saborear. Não é só para
mente, mas foi um bocado, conseguimos criar miúdos, não é só para os mais velhos, é para
aqui um conceito em que as pessoas cada vez toda a gente.
que cá vêm, mal ou bem, conseguimos sempre que saiam satisfeitas, não só pelo atendiSei que há algumas ideias para expandir
mento, porque temos pessoas espectaculares a marca. Podes levantar um pouco o véu
aqui a trabalhar, como também pela confec- sobre isso?
ção da comida e pelo gosto. Os crepes são
De momento tenho um projecto de cabebons, os waffles são bons, as tostas são deli- ça mas que preferia mantê-lo em segredo
ciosas, as bebidas são espectaculares e con- como fiz com o Baco. Vai ser basicamente
seguimos fazer com que se criasse aqui um uma expansão ao Baco. A ideia seria mais ou
conceito dinâmico em que as pessoas olham menos o mesmo conceito ou serviço que o
para isto não como sendo do Marcelo ou do Baco tem, mas de forma mais “normal”, sair
Luís, olham para o Baco. O Baco é a creperia da parte dos crepes e passar para a parte de
do Seixal. E já falam de nós em Lisboa, no restauração.
Algarve… tenho amigas do Algarve que me
Acho que é importante viver um bocadinho
mandaram mensagem gostaram e não sabia a restauração ou os bons apetites, uma refeição
e não só crepes e tostas. Vai surgindo uma ideia
com um amigo, e se isto avançar, e não digo
que seja para breve, mas máximo dos máximos
um ano e nós havemos de avançar. Vai ser um
projecto interessante. Está a criar-se. Mas não
vou abrir mais o jogo para manter a expectativa
como fiz com o Baco (risos).
Porque escolheram um sítio na antiga
freguesia do Seixal?
A ideia nunca foi o Seixal, sempre foi a
Amora. Eu via-me muito a viver na Amora e
acho que para mim, a zona centro da Amora
seria um grande alvo. Interessante foi o meu
irmão, ele é que foi o olho, o visionário para
esta zona. Eu estava em Inglaterra, não sabia
de espaços, e ele sabia mais ou menos onde eu
o queria, dizia-lhe e ele andava aqui a dar voltas e voltas e quem escolheu o espaço, quem
foi atrás, quem fez a negociação foi ele e pá…
a primeira vez que ele me mandou uma foto,
eu disse-lhe logo “epá, não faças isso, aí não.
Isso é um restaurante chinês, não vamos fazer
aí”. Disse-lhe para ver mais sítios mas respondeu-me que já tinha combinado com o dono.
Eu insisti com o meu irmão “não sejas assim,
vai procurar mais sítios” e ele disse sempre
que não (risos). Insistiu, aceitou o espaço, fez
o negócio e pronto.
Quando entrei pela primeira vez e vi o
tamanho do espaço e comecei a gerar todas as
minhas ideias a ver aquilo tudo que andei a
cativar à procura de espaços que vi em Inglaterra e em Portugal também, em que fui tirando ideia aqui e ali, olhando e criando, e olhei e
disse assim “isto é o que a gente precisa”. É um
espaço amplo, não precisa de ter muitas mesas
só as essenciais, ter um bar cocktail, uma cozinha não muito grande, isto na altura porque
hoje já é pequena para nós (risos) mas na altura não precisava de ser muito grande. E é isto
nós vamos conseguir. Quando tudo começou
a gerar, quando o Quim e o Toscano entraram
aqui e começaram a ajudar nas coisas, e outras
pessoas que ainda não referi que também me
ajudaram, o Quim , que foi a pessoa que nos
ajudou na parte do logo, e o Joel que foi o
designer, é uma pessoa também muito importante, foi ele que criou o logo. Eu em Inglaterra em discussões com ele e de lá ia lançando
as minhas ideias e o meu irmão só dizia “tu
pára de ter ideias, cada dia que acordas vens
com uma ideia nova” (risos). E isto ia-se fazendo e quando cheguei aqui, na altura só tínhamos uma parede de madeira quase completa,
começámos a avançar com tudo, fui à procura
de mais pessoas. Comecei a mexer-me mais
porque também conhecia muita gente, o meu
irmão era militar e eu vivia nisto, o meu irmão
não tinha bem essa percepção. Assim que cheguei a Portugal, no dia 23 de Abril, arranquei
de surpresa de lá com a ideia que tinha mesmo
que vir, para abrirmos no Verão para aproveitar e estava quase completo era num instante... mas não foi. Ainda foram três meses, sete
do meu irmão, basicamente os quatro que
teve sozinho foi a fazer algumas coisas com o
Quim, e de repente quando cheguei é que se
começou a gerar tudo. A ver se as coisas serviam, fui à procura de mesas, de cadeiras, mais
ideias, ferros, e conseguimos tirar isto que se
vê. E esses três meses até à abertura foram o
pânico. Quando abrimos foi o pânico total e
agora começo a estabilizar, começo a perceber
que foi uma grande jogada, foi muito bem
feito, tem sempre pontos a melhorar claro, é
como tudo. Gostava de inserir mais variedade
na carta para as pessoas começarem a provar
coisas novas, gostava de dar umas novidades,
estão algumas para breve, mas gostava de dar
muitas mais.
João Domingues
