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Saúde

CSS | 10 de Novembro de 2017

10

Médico Interno Saúde Pública
Unidade de Saúde Pública
HIGEIA|ACES Almada-Seixal

Fitoterapia

Miguel Boieiro

Sexualidade
A sexualidade é uma dimensão
essencial do ser humano e não se limita ao ato sexual. As especificidades
individuais e culturais, o erotismo, o
envolvimento emocional, o prazer e a
reprodução definem a nossa sexualidade, sendo única de indivíduo para
indivíduo.
Quando se fala de sexualidade
existe ainda alguma desinformação
dos termos relacionados que passo a
esclarecer:
Sexo biológico – o sexo genital, que
pressupõe capacidades reprodutivas.
Identidade de género – sentimento
de ser do género feminino (senhora) ou
do género masculino (homem) independentemente da anatomia.
Expressão de género – diz respeito
aos comportamentos, forma de vestir,
forma de apresentação, aspeto físico,
gostos e atitudes.
Orientação sexual – refere-se ao
que cada pessoa pensa e sente sobre
si própria e sobre a sua afetividade e
sexualidade e por quem se sente atraído
afetiva e sexualmente.
Todos nós somos diferentes e todas
orientações sexuais bem como a
expressão e a orientação sexual devem
ser respeitados, sendo esta igualdade
defendida pelo artigo 13º da Constituição Portuguesa.
A educação sexual e a educação para
os afetos e para a gestão emocional,
começam na infância e é construído
ao longo dos anos. Torna-se crucial
promover um ambiente de respeito e
igualdade, que todos possam desenvolver a sua identidade sexual, tal como
ela é.

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Uma das tertúlias mensais, sabiamente
coordenadas na Associação dos Cozinheiros Profissionais de Portugal (ACPP) pelo
professor e gastrónomo Virgílio Gomes,
versou sobre o figo, alimento de subsistência e hoje apreciado produto “gourmet”. Não cabe a este humilde cronista,
aqui e agora, tecer encómios sobre as
excelências dos oradores. De resto, seria
estultícia alastrar-me num tema que já se
encontra bastante explanado por insignes
sapientes. Assim, limitar-me-ei a contar
histórias pessoais em breves pinceladas
para suscitar a curiosidade dos leitores.
Na terra onde nasci e cresci eram parcos os recursos alimentares. Só no fim da
primavera se tirava a barriga de misérias
quando apareciam as frutas temporãs.
No tempo dos figos não havia fome. Em
duas courelas arrendadas tínhamos figo
branco, figo borracho, figo moscatel,
figo da ciência e figo rebanqui (atenção
que os nomes populares divergem de terra para terra). As nossas figueiras eram
altas e ramalhudas e as pernadas pendentes chegavam ao chão. Os primeiros
figos, os lampos, eram vendidos à dúzia
que integrava 13 unidades e não 12. As
principais clientes eram as “gafanhotas” e
as “ratinhas”, mulheres oriundas das beiras, que vinham sazonalmente trabalhar
para as secas do bacalhau. Depois quando
o preço baixava vendiam-se em canastras
bem amoiadas, para encher os maceiros
dos porcos do Alberto Silva. Estas tarefas entregues à criançada desafogavam
frouxamente o orçamento familiar dando assim jus ao popular ditado: “o trabalho do menino é pouco mas quem não o
aproveita é louco”. Na década de 50 do
passado século, uma dúzia de figos temporãos valiam por volta de 1 escudo, mas
os destinados às malhadas dos porcos não
passavam de 10 ou 20 centavos o quilo.
Os figos são das frutas que mais apre-

cio. Fazia refeições
completas com pão e
figos. Os mais apetitosos eram comidos
de manhãzinha junto
à árvore, ainda orvalhados da frescura
da noite. Já adulto
quando fui morar
para outra localidade
sentia a falta dos figos
da minha terra e até
sonhava com eles.
Vamos agora à parte científica. A Ficus
caria encontra-se classificada na família das Moraceae. O género Ficus agrupa
mais de mil espécies e tem a particularidade de florir internamente num recetáculo fechado (sicónio) apenas com um
orifício por onde entra uma pequena vespa (Blastophaga psnes) para proporcionar
a polinização (caprificação). O processo
é assaz complexo porque a polinização é
cruzada e alguns bichinhos acabam por
morrer dentro do sicónio.
Se querem saber mais, recomendo o
excelente livro “Algarve Mediterrânico,
tradição, produtos e cozinhas” de Maria
Manuel Valagão, Vasco Célio e Bertílio
Gomes (Edição Tinta-da-China). É uma
maravilha!
Temos vindo a falar do Ficus caria,
abundante na Ásia Menor e em toda a
bacia mediterrânica, mas não se espantem
se vos disser que há mais 40 Ficus que dão
frutos comestíveis. Isso mesmo se pode
constatar na “Fruticultura Tropical”
de J. E. Mendes Ferrão, obra editada em
três volumes pelo Instituto de Investigação Científica Tropical. Curiosamente, o
segundo volume, onde se descriminam as
várias espécies de figos tropicais possui na
respetiva capa a reprodução da fotografia
“As mangas no mercado local em 1995,
cedida pelo meu amigo Engº Fernando
Rego que tive o prazer de conhecer pessoalmente em Pangim quando há anos
visitei Goa.
DR

João Vieira Martins

Figueira
Há dias, em plena Avenida dos Oceanos, no Parque das Nações, encontrei
a Ficus religiosa provida de minúsculos
figuinhos. Ela é uma das figueiras tropicais mais famosas não só pela sua beleza
ornamental mas também porque é árvore
sagrada dos hindus e budistas. Diz a lenda que foi à sua sombra que Buda alcançou o nirvana.
Voltemos à nossa Ficus carica, árvore
que atinge dez metros, de grandes folhas
alternas, palmatilobadas, rugosas e caducas (parece que foi com essas folhas que
Adão e Eva taparam as suas vergonhas
quando foram expulsos do paraíso – mas
não seria no inverno porque nessa estação
as figueiras estão despidas e em completa
letargia).
As infrutescências (afinal o figo é um
pseudo fruto) são riquíssimas em açúcares
complexos (glucose, sacarose e frutose),
cálcio, magnésio, fósforo, potássio, provitamina A, vitaminas B, C e K, fibras
solúveis, taninos e substâncias oxidantes.
O figo é um alimento energético e
alcalinizante de polpa suave e doce, regulador da digestão, laxante, expetorante,
desinflamante do aparelho respiratório
(tosse, catarro …), estimulante do poder
de concentração e beneficiante da flora
intestinal.
Os frutos são frágeis e facilmente perecíveis, mas se forem bem secos constituem uma reserva duradoira importante
(100 g de figos passados contêm cerca de
250 calorias).
As folhas possuem um látex irritante
que permite erradicar as verrugas e outrora servia para coalhar o leite destinado às
queijarias.
Os figos, frescos ou secos, têm lugar
privilegiado na elaboração de sofisticados
pratos, uma vez que combinam bem com
muitos alimentos. Inúmeras receitas estão
ao dispor dos interessados nas ementas de
consagrados “Chefs”. Chamo a especial
atenção para a gastronomia da Turquia
onde o figo é rei, visto que a sua produção
anual (a maior do mundo) ronda as 300
mil toneladas.
Para terminar, não se esqueçam de visitar o Museu da Cidade da Horta (Faial)
onde o acervo do artesanato em miolo de
figueira, é único em todo o mundo e contribui para alargar a versatilidade desta
árvore descrita e consagrada em todas as
grandes religiões.