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ENTREVISTA

CSS | 21 de Julho de 2017

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"A minha aprendizagem maior como
maestro tem sido com os músicos"
É natural da Amora e está à frente da Banda da Sociedade Filarmónica Democrática Timbre Seixalense há 16 anos. Jorge Azevedo, Maestro da banda
Sociedade Filarmónica Democrática Timbre Seixalense, aceitou o nosso convite para uma entrevista onde nos revela o seu percurso enquanto músico
e maestro, bem como o balanço que faz dos 16 anos de direcção da banda.
tanto da filarmónica na Amora como no
Seixal onde já estou há alguns anos, têm
sido eles que me têm ensinado também,
eu tenho ajudado a banda mas sinto que
os músicos me têm ajudado também a
crescer.
CSS: Dirige a banda da Sociedade
Filarmónica Democrática Timbre
Seixalense há 16 anos. Olhando para
trás, qual é o balanço que pode fazer?

Comércio do Seixal e Sesimbra: Antes
do maestro e do seu irmão, nenhum dos
vossos familiares era ligado à música,
como surgiu essa paixão?
Jorge Azevedo: A paixão pela música
aconteceu sempre desde muito pequenino,
na escola primária já era o cantor da
turma e sempre houve aquela intuição
para a música. Mais tarde a Filarmónica
Operária Amorense, - só havia duas
coisas na Amora, era a Filarmónica ou o
Amora Futebol Clube, e então nós fomos
para a música - a banda estava em fase
de construção, estava menos boa, e foi
aí que começámos eu e o meu irmão. E
depois atrás de nós veio uma tia minha,
mais velha, saiu no mesmo dia que nós
e tocava trombone, foi também a minha
irmã mais tarde, mais uma tia e assim
sucessivamente, depois foram os filhos
e foi a partir daí que nós começámos a
gostar efectivamente da música.
Depois tive um convite do maestro
António Gonçalves - é sempre bom referir,
nunca devemos esquecer as nossas origens
e as pessoas que nos ajudaram - que nos
indicou a mim e a mais alguns colegas
da minha idade que havia uma banda
militar que era onde ele fazia serviço no
exército, se nós estávamos interessados em
ir, nós acabámos por ir tentar e a partir
dos 17 anos de idade a coisa acontece
naturalmente. Fomos para a banda
militar e a partir daí começou a carreira
profissional.
CSS: Para um miúdo que vai com 17
anos para a tropa, para depois seguir
uma vida mais a sério na música, como
foi esse choque de realidades?
JA: Os tempos eram complicados,
não eram como hoje. Fazer a recruta
na serra da Carregueira em 1981 não
era propriamente “pêra doce”, era
complicado, muito complicado. Depois
tínhamos de estar ali ao lado dos homens
e como éramos miúdos e muito reparados
e muitas vezes até gozados por sermos tão
novos, queríamos estar sempre na linha
da frente, fazer sempre o melhor, isto a
nível militar. A nível da música foi um
choque pela positiva quando chegámos
à banda militar, estar habituado a uma
banda filarmónica com 30/40 músicos
e chegar a uma banda militar com 80
músicos é um choque pela positiva, há
coisas que nós reparamos que não estamos
habituados, estamos em casa a viver com

os pais e depois chegamos e o tratamento
é completamente diferente a nível militar,
a disciplina militar e a maneira como o
pessoal mais novo é tratado, mas foi
uma boa experiência e a partir daí foi só
seguir em frente e ir à procura de outros
horizontes. Fazer cursos, curso de Praças
que na altura era curso de Cabos, depois
mais tarde o curso de Sargentos, depois
o convite para a Orquestra Ligeira do
Exército que na altura não era por vaga,
era por escolha, e eu fiquei satisfeito, foi no
ano em que casei e estava na iminência de
ser colocado nos Açores como Sargento,
e fui escolhido para a Orquestra do
Exército onde fiz a minha carreira toda
praticamente.
CSS: E como passou de músico para
Maestro, como surgiu esse “amor”?
JA: Não é um propriamente um amor
porque foi uma coisa que aconteceu por
amizade. Um grande amigo, colega da
filarmónica e também colega militar que
com o falecimento do senhor António
Gonçalves aqui na banda da Amora,
foi ele que tomou conta dos destinos da
banda, ficou na direcção da banda, e
como militar também teve uma comissão
em Angola mais tarde e onde me pediu
para eu ficar a dirigir a banda até ele
voltar. Esse amigo é o Paulo Coelho, e ele
pediu-me na altura para eu ficar a dirigir a
banda até ele chegar e aconteceu por duas
vezes, aconteceu na altura em que ele foi
para Angola e aconteceu numa outra fase
em que foi fazer um curso às Caldas da
Rainha e eu fiz praticamente dois ou três
anos à frente da banda da Amora e é aí que
ganho aquele entusiasmo de lidar com a
música de uma maneira diferente, de não
estar a tocar mas estar a sentir e a fazer os
músicos tocarem aquilo que sentia. Isto ao
fim e ao cabo, um maestro da filarmónica
tem essa situação peculiar, porque
ouvimos uma peça tocada por várias
filarmónicas e nenhuma delas toca igual e
isso tem tudo a ver com a sensibilidade do
maestro. E foi aí que comecei a aprender
e aprendi, e aliás, ainda hoje a minha
aprendizagem maior como maestro tem
sido com os músicos, têm sido os músicos
que me têm ensinado tudo aquilo que
praticamente sei porque comecei como
maestro sendo autodidata, comecei com
conhecimentos musicais como todos os
músicos profissionais têm, mas depois tive
de aprofundar algumas coisas em termos
de direcção mas basicamente os músicas

JA: O balanço ao fim dos 16 anos
se não fosse positivo eu já não estava
lá (risos). Porque era sinal que alguma
coisa estava mal. E tenho que dizer que
quando fui para a Timbre Seixalense não
imaginava sequer ser convidado para a
Timbre Seixalense. Tinha tocado lá no
tempo em que a Timbre era uma banda
fora do comum pela sua qualidade e eu
ainda muito novo lidei com o Maestro
que era o senhor Tenente-Coronel Idílio
Fernandes, um dos melhores maestros
militares que nós tivemos de sempre nas
bandas militares, que era o Maestro da
Timbre Seixalense e onde aprendi muito,
tanto na Orquestra Ligeira do Seixal
como na banda da Timbre Seixalense.
Aprendi muito e nunca estava nos meus
horizontes dirigir a banda da Timbre,
a Timbre era uma banda de referência
não só no nosso concelho mas do país, e
então nem sequer os músicos que vinham
de fora eram qualquer músico que tocava
na Timbre, tinha de ser músico com
referência, não podia ser um qualquer. E
há uma situação menos agradável, que de
vez em quando acontece nas filarmónicas,
onde houve a saída de alguns músicos
em rota de colisão com a direcção onde
a banda teve uma baixa de nível muito
grande, e eu que ainda estava a dirigir
a banda da Amora, recebi um convite
para ir falar com a direcção para ver se
estava interessado. E tendo em conta o
grupo que tinha, que era um grupo muito
reduzido de gente muito nova, e dada a
capacidade técnica que havia na altura
que era muito fraca, porque toda a gente
estava a aprender música há muito pouco
tempo, e a banda era composta por poucos
elementos e muito novos, e foi uma luta. E
até hoje, quem acompanha o concelho e as
bandas filarmónicas, sabe que a banda da
Timbre foi a banda que talvez teve a maior
evolução nos últimos anos em termos

quantitativos e em termos de qualidade.
Porque a banda neste momento já toca
algum reportório bastante ousado, onde
os músicos se esforçam bastante e onde
há uma qualidade técnica muito boa
porque alguns músicos começaram como
eu comecei, nas filarmónicas, maior parte
deles são excelentes profissionais, e nunca
abandonaram a banda que é isso que traz
mais-valia, é contar com os que vão aos
ensaios que são aqueles que transitam da
escola e têm que ir para evoluírem e mais
tarde também têm carreira, e depois com
os outros que já fizeram esse trajecto e que
continuam a contribuir para a banda, e aí a
valorização da banda passa por aí também,
temos gente nova, mas temos gente mais
velha já com muita qualidade musical a
nível nacional mas que não abandona a
sua casa mãe e isso é muito importante,
daí também haver a evolução musical que
a banda está a ter neste momento.
CSS: Qual é o próximo passo?
JA: O próximo passo é enriquecer mais
a escola de música com a ajuda da direção.
A Sociedade Filarmónica Democrática
Timbre Seixalense é a única colectividade
do concelho que ensina música
gratuitamente, talvez seja a filarmónica
neste momento que tem os professores
com mais currículo, tem professores
para todos os instrumentos que fazem
parte da banda com muito valor, e a
aposta maior vai ser mesmo na escola de
música, com a ajuda da direcção e com
a divulgação que iremos fazer porque a
escola continua. Neste momento, também
fruto - e aqui tenho de fazer uma ressalva
porque há muitas pessoas que dizem
que não sou politicamente correcto mas
neste momento tenho de o ser - fruto um
bocado da Câmara Municipal do Seixal
neste ano que nos tem ajudado a nível de
instrumentos ajudou-nos neste último ano
e no ano passado, neste momento já temos
alguns instrumentos “em caixa”, ou seja,
temos músicos que transitaram da banda
para a escola fruto dos instrumentos que a
Câmara nos deu e que nos faziam falta e
neste momento já temos um leque grande
de instrumentos para distribuir aos
músicos novos que possam aparecer para
aprender na escola de música da Timbre.