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entrevista
CSS | 24 de Março de 2017
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"Um beijo
na Feira de Castro"
O concelho do Seixal é um concelho
de cultura musical e literária. Sendo
um alentejano da diáspora tem a
noção do seu contributo para esse
enriquecimento cultural?
Como a sua pergunta refere, o Alentejo
foi de facto o meu berço e o chão dos
primeiros passos. O grande Monte onde
nasci (freguesia de Lavre onde Saramago
escreveu – Levantado do Chão) era rota
da transumância de marchantes, malteses
e tribos ciganas que cantavam às portas
do Monte a troco de uma côdea de
pão. Os ranchos de rapazes e raparigas
alentejanos e ainda outras gentes que
vinham das Beiras para os trabalhos das
ceifas e mondas, deixavam no ar cantigas
que muito cedo aprendi. O meu pai
tocava armónio e aos serões, na nossa
casa, era frequente desarrumar a mesa
elástica e as quatro cadeiras para dar
espaço a bailes improvisados. Foi neste
ambiente que cresci e cresceu comigo o
gosto pela música. Respondendo agora
mais concretamente à sua pergunta, devo
dizer sem falsas modéstias, que algum
contributo terei dado ao longo de todos
estes anos para o enriquecimento da
cultura concelhia. Se esse contributo foi
suficientemente reconhecido, não sei nem
me preocupa muito. O que sinto é que
tenho recebido muita estima e simpatia,
talvez alguma admiração, por parte das
pessoas com quem tenho trabalhado,
como acontece com o meu projecto “Artes
do Barulho” na Universidade Sénior do
Seixal.
Os contactos que criou na
Margem Sul com alentejanos do Sul
e as recíprocas trocas de impressões,
enriqueceram este criativo CD?
DR
Devo dizer que não só enriqueceram,
como de alguma maneira marcaram a
forma como idealizei e estruturei este meu
trabalho: “Um beijo na Feira de Castro”.
Muito aprendi com os BaixoAlentejanos. Desde logo porque fiz tropa
em Beja no ano de sessenta e oito e tendo
algumas qualidades vocais, rapidamente
integrei os grupos espontâneos que
se juntavam nas casernas cantando à
alentejana. Mais tarde, já no Seixal,
sobretudo na “Tasca do Banha” na Cruz
de Pau, eu e outros alentejanos juntávamonos com frequência para cantar, trocar
experiências, aprender modas novas
uns com os outros, recordando as mais
antigas, sempre a matar as saudades e a
tentar descobrir se o canto morava dentro
de um copo de vinho, como digo numa
cantiga do Disco.
gaita-de-foles e várias percursões mercê
da experiência dos grupos por onde passei
e onde era preciso tocar ou dar um jeito
em vários instrumentos. Devo dizer no
entanto, que estou longe de me considerar
um bom instrumentista, até
porque a diversidade prejudica
o virtuosismo.
O cavaquinho é o
instrumento onde me sinto
mais à vontade e dos que mais
gosto de tocar.
Dentro de uma personalidade
tão multifacetada, em qual se
sente mais realizado? No letrista,
no compositor, no cantor ou
Este meu trabalho a solo é naturalmente predomina a homogeneidade?
o resultado de todas as minhas vivências,
enquanto tocador e cantador mas, não é
Bom, começo por dizer que as minhas
do Alto nem do Baixo Alentejo. Desde composições são simples e confesso que
logo, porque é um disco de cantigas de as faço de ouvido, sem ter em conta
autor e não um disco de cante tradicional. técnicas de composição, que de resto
não domino. Como letrista penso
Reconheço no entanto, que todos que os poemas que suportam as
os poemas respiram Alentejo, (foi minhas músicas terão conteúdos
propositado) e do ponto de vista das bastante apreciáveis, para quem
sonoridades não desdenha alguma raiz os quiser escutar com mais critério.
tradicional do Sul.
Também penso que da simbiose entre
estes dois factores, resultam cantigas bem
conseguidas, tendo em conta os ecos que
Que idade tinha quando tocou o me vão chegando.
primeiro instrumento e em qual deles
se sente mais à vontade?
Para acabar de responder à sua
questão... Não me considero cantor,
Com sete ou oito anos já tocava configura um tipo de “artista” com o qual
harmónica bocal (vulgo gaita de beiços) não me identifico. Prefiro considerar-me
a caminho da escola. Depois de muito um cantador, porque é mais popular,
insistir, o meu pai comprou-me uma está mais de acordo com a área musical
“honner” na feira, que era a marca mais onde me movimento e onde ao gosto de
consagrada na altura. Reproduzia com cantar as cantigas tradicionais, alio o
facilidade as modas e cantigas que ía gosto de cantar aquelas que eu próprio
ouvindo aos mais velhos ou nos bailes.
vou compondo.
Hoje toco um pouco de guitarra,
cavaquinho, concertina, flautas artesanais,
DR
António Pontes nasceu no Lavre concelho de Montemor-o-Novo e desde muito cedo dedicou-se à música. Professor do Ensino Secundário
aposentado, editou recentemente um CD que tem por título "Um beijo na Feira de Castro".
O que mais o satisfaz: ser o líder
do grupo musical ou incutir nos seus
alunos quer jovens ou seniores, o gosto
pela criatividade?
Não sou um professor de música
naquilo que geralmente se entende como
tal. Sou antes, um criador de projectos
ligados a essa área, em que naturalmente
a música está presente sem resultar numa
aprendizagem de teoria e práticas musicais
de base que, de todo não saberia ensinar.
Dito isto, gosto de liderar os projectos
que idealizo e ponho em prática
procurando naturalmente desenvolver as
aprendizagens dos meus alunos, tendo em
vista todas as competências.
Baseando-se nestas questões como
se define?
Defino-me um criativo, um amador
apaixonado pela música, que não fazendo
dela um modo de vida, a utiliza como
uma ferramenta de aprendizagem, de
convívio, de partilha, de exercício cultural
e de liberdade.
A Feira de Castro é mítica para nós,
alentejanos. Para além das coisas boas
que lá compramos há aquele ruralismo
que nos deixa a alma lavada. Também se
sentiu elevado por essa mística?
A Feira de Castro é uma feira
centenária, cheia de tradições e cultura,
local de encontro anual, cantigas à viola
campaniça entre um mundo de outra
coisas, que reflectia ou ainda reflecte o
sentir e os costumes das gentes do baixoalentejo. Ao longo dos anos fui ouvindo
várias histórias desta feira mítica como
disse. A cantiga “Um beijo na Feira de
Castro” foi inspirada num tempo passado
em que um maltês procura encontrar uma
moçoila por quem se apaixonou num
baile de mastro e lhe prometera um beijo
se o encontrasse na Feira. Pareceu-me ter
força suficiente para dar o nome ao CD,
porque é uma cantiga bonita, que fala
de um romance e que melhor sítio para
concretizar um encontro de amor, que a
Feira de Castro no coração da charneca
alentejana. Gostaria de acrescentar que
o sucesso deste CD, também se deve aos
músicos de primeira água com quem
trabalhei, como sejam: João Soares nas
guitarras, Guilherme Cruz no oboé, Jorge
Miguel nos arranjos e teclados, Vitor
Cruz no bandolim e Guilherme Banza
na guitarra portuguesa. Deixo a todos
um abraço de agradecimento bem como
aos muitos amigos que me ajudaram no
projecto.
Para terminar, dizer que o CD “Um
Beijo na Feira de Castro” ainda não está
à venda no circuito comercial pelo que
a sua aquisição pode ser feita através do
tm – 963004649 ou através do email –
antoniopontez@sapo.pt
Maria Vitória Afonso
