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SOCIEDADE
CSS | 8 de Março de 2017
4
Histórias Associativas*(4)
poesia
Actuação do Coro
de Lopes Graça levou
Regime a fechar a Timbre”
Fernando
Fitas
José Mantas
QUADRAS DEDICADAS AOS
“VELHOS” MARINHEIROS
DE QUEM O AUTOR
SE ORGULHA PERTENCER.
I
Noutros tempos quando havia
Navios no “quadro” amarrados
Por todo o lugar se via
Um marinheiro fardado.
II
E à noite pelas vielas
Na cidade, em todo o lado
O marinheiro ia ás tabernas
A ouvir cantar o fado.
III
Intendente, Benformoso
Martin Moniz, Campainhas
O fado mulheres e copos
E os rapazes da Marinha
iv
O marinheiro percorria
Toda essa velha Lisboa
Bairro Alto, Mouraria
Alfama e Madragoa.
V
Noite alta regressa ao lar
Já cansado e sem dinheiro
Rumo á Rua do Arsenal
À casa do Marinheiro.
vi
Lenços brancos a acenar
No cais, é a despedida
Lá vão para o alto mar
Até Macau ou à India.
VII
Esses briosos rapazes
Na farda faziam gala
O botão d’ Ancora, o Alcaxe
Já ninguém vê, ninguém fala.
(Continuação)
Para Emílio Rebelo, “esse foi, apenas, mais
um dos muitos episódios que levaram os
responsáveis da ditadura a observarem com
desconfiança todas as iniciativas de âmbito
cultural que aqui se realizavam, chegando ao
ponto de mandarem encerrar a colectividade
num dos dias imediatos à realização de um
recital do Coro dos Amadores de Música de
Lisboa.
Tudo, porque este interpretou uma canção
com poema de José Gomes Ferreira, intitulada
‘Papoilas Vermelhas’ e no final da actuação
o público quis acompanhar os elementos
do coro até à paragem das camionetas para
Cacilhas, situada no outro extremo da vila,
cantando, ao longo do trajecto, a referida
canção.
Nesse espectáculo,” diz, “participou ainda
a actriz Maria Barroso que disse poemas de
vários autores, cuja obra - de grande valor
literário - era vista pelos titulares do regime
obscurantista que nos governava, como mera
expressão de propaganda oposicionista.
Eram tempos difíceis, esses,” acrescenta,
“porque toda e qualquer realização levada
(continua…)
Fotos: Artur Marques (Atchixa)
*Excertos de “Histórias Associativas- Memórias da Nossa
Memória – 1º Volume AsFilarmónicas”. Edição Câmara
Municipal do Seixal.-2001.
ROSTOS DO SEIXAL
Manuel Martins Gomes
Júnior, vulgo
"O Rei do Lixo" (1860 - 1943)
VIII
Hoje resta a saudade
Desses tempos que não voltam
O avançar da idade
É o fim dos que sonham…
José Mantas
Aposentado
a cabo pela sociedade, quer se tratasse de
exposições, conferências, espectáculos ou
colóquios, obtinham logo a chancela de acções
contra o denominada estado novo, por força
de nela se respirar um clima democrático,
em respeito pela sua própria designação,
até porque o seu nome oficial é:Sociedade
Filarmónica Democrática Timbre Seixalense.
Alvo igualmente de apertada vigilância da
PIDE,” rememora Emílio Rebelo, como quem
folheia um invulgar livro de memórias, “foi
uma exposição sobre a obra de Alves Redol, que
algum tempo depois da sua morte decidimos
levar a efeito. Esta mostra, que incluiu um
ciclo de debates sobre o autor de ‘Gaibéus’
e uma pequena feira na qual predominavam
os títulos do consagrado escritor, acarretounos algumas chatices, posto que durante o
período em que a mencionada exposição aqui
permaneceu, várias vezes fomos chamados
para dar satisfações acerca das pessoas que
participavam no ciclo de colóquios ou, tão só,
a eles vinha assistir.
Uma dessas pessoas sobre as quais fomos
inquiridos, era o malogrado médico José
Malheiros, dentista no Laranjeiro e cabeça de
lista da oposição democrática do distrito, nas
eleições de 1969.
“Neste caso,” ironiza Emílio Rebelo, “a
inquirição resultou do facto do conceituado
clinico,- cuja presença, passava despercebida
se para ela não tivéssemos sido alertados pelos
agentes presentes na sala- haver adquirido um
significativo conjunto de livros.
Outra história picaresca”, conta ainda Emílio
Rebelo, “ prendeu-se com aplicação de uma
multa de cinco contos, por termos convidado
Yevtushénko a dar uma conferência nas
nossas instalações. O argumento, então,
utilizado, para a penalização, foi o de que a
sociedade apenas disponha de autorização
para bailes e jogos lícitos, como sejam cartas,
damas e dominó. Não sendo uma conferência
poética enquadrável em nenhum deles, antes
remetendo para a elevação cultural dos
associados, a penalização encontrada foi a
multa.”
Mas de memórias outras ainda, se tece o
seu depoimento. Entre elas, a mágoa que
o invadiu quando assistiu à demolição
do coreto, para cuja construção o seu avô
contribuiu decisivamente.“ Foi uma decisão
arbitrária”, assevera, “ sem qualquer respeito
pelos sentimentos dos habitantes do Seixal,
tomada, em 1966, por um sujeito do Barreiro
que durante alguns anos presidiu à Câmara.”
Natural da freguesia de Santo António
da Charneca - concelho do Barreiro, ficou
popularmente conhecido como o "Rei do Lixo"
e trabalhou como empregado de uma mercearia
em Lisboa, fazendo algum dinheiro para voltar
às suas raízes, onde comprou o moinho de água
frente à Quinta de São Vicente e posteriormente a
quinta que o envolvia, trabalhando na agricultura
e emprestando dinheiro aos proprietários vizinhos
para cultivarem a ceara. Porém, houve anos maus,
os quais Manuel Júnior não perdoou as dívidas,
tomando assim uma decisão radical: anexou as
parcelas dos devedores à sua, formando uma
quinta com mais de trezentos hectares. Devido a
seu profundo antideísmo, batizou-a de Quinta do
Inferno. Estabeleceu um contrato com um grande
negociante e exportador de carnes, alugou-lhe
o espaço para porcos e participou no negócio de
exportação de carnes. Pouco tempo depois o seu
sócio morreu e Manuel assumiu o controlo dos
negócios e passando a ser negociante de carnes.
Devido à sua intuição nata para os negócios e
ao seu caráter empreendedor, atingiu o auge
assegurando o controlo da recolha dos lixos em
Lisboa transportando-os para Coina nos seus cinco
barcos (a que deu os nomes de Mafarrico, Lúcifer,
Belzebu, Demónio e Satanás) e servindo de
alimento aos porcos. Apesar de ser profundamente
ateu, era muito dedicado à sua região, onde protegeu
os pobres, financiou coletividades, construiu a
primeira escola de ensino primário na freguesia e
fundou a Companhia Agrícola Nacional.
Em 1910 após a revolução republicana mandou
construir o palácio de Coina, investindo aí muito
dinheiro e construindo uma torre para avistar
as propriedades no Seixal, tais como a Quinta
da Trindade. Contudo, o palácio nunca foi
habitado e Manuel Martins Gomes Júnior morreu
circunstâncias estranhas e a causa da sua morte
nunca viria a ser apurada. Deixou um enorme
legado de propriedades e 143 mil contos que doou
à Misericórdia.
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Mário Barradas
