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CSS | 7 de Outubro de 2016
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À descoberta da magia
do Zêzere e do Tejo EM canoa
Os rios e ribeiras deixam uma marca indelével na geografia de um qualquer continente, de um qualquer país, de uma qualquer
região. Estamos de acordo? Claro que sim! E são esses mesmos rios que nos mostram outras realidades, outras paisagens e outras
visões de um espaço temporal e físico quando navegados. E foi um pouco de tudo isto que fui à procura ao longo de uma ínfima
parte do segundo maior rio inteiramente português, o Zêzere, e do Tejo. E fi-lo da forma mais divertida e “selvagem”, de canoa.
Dividem e unem. Também sempre
foram fonte de sustento. Da terra e das
gentes. De gentes que com eles e através
dos tempos que se perdem no tempo desde
que a Terra é terra aprenderam a conviver,
acompanhando os seus ritmos de vida e da
própria vida. E desde sempre foram ponto
de encontro e de cruzamento de vidas.
Sim, falamos dos rios. Falamos também do
Zêzere e do Tejo.
Zêzere, esse rio que nasce na serra da
Estrela, tocando quase as estrelas quando
nasce, a 1900 metros de altitude, e desde
aí, ora calmamente, ora mais selvagem,
vai abrindo terras até se juntar, 200
quilómetros depois, ao Tejo, ali para os
lados de Constância.
Zêzere e Constância que fazem parte
daqueles lugares que pela sua simplicidade
Ou assim desejávamos que fossem.
Sim, existe esse rio que nervosamente vai
percorrendo caminhos tortuosos através de
espectaculares paisagens beirãs antes de
desaguar placidamente no Tejo, perto de
Constância.
E foi aqui, em Constância, que num
domingo resolvi tentar encontrar alguns
desses lugares encantados que caminhavam
pelo imaginário da nossa infância. Mas
também descobrir realidades da vida. A do
rio, das margens, das gentes…
Mas eu e mais alguns amigos tínhamos
algo mais para fazer. O nosso objectivo era
colocar em prática esse desejo de descer
uma parte do Zêzere, essa parte que tem
Constância como guardiã. Era deixarmonos levar pelas águas desse rio nascido nas
encostas da Serra da Estrela. Mas também
parecem
mágicos,
convidando
a
“embarcar” numa viagem que nos faz
recuar à nossa infância entre sonhos,
aventuras e lendas que muitas vezes, nesse
tempo de infância, pareciam realidades.
pelas águas do Tejo. Era gozar os prazeres
oferecidos por essa fonte de vida e de lazer
entre belas paisagens.
E às primeiras tudo passou a ser apreciar
o cenário que envolve o Zêzere, o seguir
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rio abaixo entre brincadeiras passadas
de canoa para canoa no meio de um
caudal que também ele se deixava levar
tranquilamente entre margens verdes. Por
vezes escondendo o que terá sido uma
azenha, uma ou outra pequena embarcação
de pescadores que se dedicam à apanha
da fataça e da lampreia cuidadosamente
protegidas sob um choupo do sol que
nos fazia desejar que a canoa se virasse e
assim, nas águas transparentes do Zêzere,
pudesse-mos refrescar o corpo.
Também pelo caminho, entre um remar
mais forte e um deixar levar pela corrente,
mas sempre em águas benevolentes para
as canoas e para quem pela primeira
vez vivia esta sensação, se olhou para o
casario que ficava para trás e que desenha
Constância, a “Vila Poema” e terra mãe
de Camões. Enquanto do lado esquerdo,
um pouco mais à frente, era o casario da
Praia do Ribatejo, local de férias da elite
lisboeta do século XIX, que se mostrava
orgulhosamente.
Aqui, já os olhos estavam virados para
esse verde intenso que cobria as encostas
que parecem mergulhar nas águas do rio.
Até que se fixaram naquela curva à direita
onde o Zêzere se encontra com Tejo. Ah,
que sensação boa…
Sim, ali estava o Tejo, esse mesmo rio
que muitas vezes é meu companheiro na
grande cidade. O mesmo Tejo que aqui
é de calmarias, sem traços de rápidos,
fazendo que cada remo colocado na água
fosse também ele de puro relax. Sim, aqui o
Tejo estende-se numa estonteante placidez.
Um Tejo que tranquilamente escorregava
entre uma ou outra praia fluvial, num
convite a um breve desembarcar e a
momentos de boa disposição entre
mergulhos e brincadeiras que o corpo
aquecido pelo sol agradecia.
Mas havia que continuar o pachorrento
remar, pois que ao longe, entre o céu e as
águas do Tejo já se vislumbrava aquele que
é sem dúvida um dos pontos altos desta
“navegação”, o castelo de Almourol, um
testemunho encantador de um pedaço
da nossa História que se ergue numa ilha
que parece flutuar no meio do Tejo. Havia
que continuar a deixar a alma em êxtase
perante os melódicos gorjeios de pássaros
semi-ocultos no arvoredo, deixar o olhar
perder-se no meio dos devaneios da Mãe
Natureza.
E foi aqui, refrescando o corpo
ainda quente dos raios de sol que nos
acompanhou durante toda esta aventura
que deitei um último olhar para este
bocado do Tejo. Também onde deitei às
águas uma pampilho amarelo. Talvez com
a esperança que um dia destes a veja passar
em mais um final de tarde em que o Tejo
me abraça enquanto olha docemente a sua
amada Lisboa. Ou simplesmente e nada
mais do que um gesto de esperança!
