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entrevista

CSS | 19 de Janeiro de 2018

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“Encontrámos esta forma de dar às
crianças algo diferente”
As "Prendas Penduradas" são uma iniciativa criada pelo Grupo Motard Paladinos cujo principal intuito é o de trazer um pouco
de alegria para as crianças menos favorecidas do Seixal e Arrentela. Desde 2016 que a iniciativa é realizada e o “Comércio”
conversou com três dos membros do grupo José Luís Martins, António Miguel e Paulo – cujos roadnames são Gru, Anarca e Sem Gota
– para nos falarem de como correu a iniciativa no Natal de 2017 e do que mais têm preparado para 2018.
do Facebook para combinarmos um dia e hora
para fazermos a recolha.
Gru: Podem também fazer por mail, há
sempre alguém que responda porque há várias
pessoas com acesso ao mesmo.
Sem Gota: Mas a maior parte é mesmo pelo
Facebook. Diria que cerca de 80% é por lá.

No passado dia 25 de Dezembro fizeram
mais uma edição da iniciativa "Prendas
Penduradas", que começaram a fazer no
ano de 2016…
Anarca: O ano passado pendurámos cerca
de 350 prendas. Este ano foram 452. Fora os
bairros sociais que também receberam algumas prendas, foram cerca de 400 para a Quinta da Princesa e para o Bairro da Jamaica.
Além de roupa.
Em relação à edição de 2016 e em comparação com a de 2017, notaram mais gente
nas ruas?
Anarca: Notámos mais gente na rua, até
porque em 2016 começámos muito cedo,
começámos era 6h30 da manhã a pendurá-las. Esta edição começámos mais tarde, eram
cerca das 7h30/7h45, já havia muita gente a
circular. E vamos optar para o próximo ano
fazermos um pouco mais tarde.
Isto porque o ano passado correu um pouco mal porque houve aproveitadores que passaram pela via pública do Seixal e encheram
carros com as prendas. Este ano havia mais
gente nas ruas e já tiveram mais vergonha de
o fazer, e para o ano a ver se começamos mais
tarde para haver mais gente na rua.
Não que nos queiramos mostrar porque
somos nós que o fazemos, mas pelo menos
que não desaparecessem tantas prendas, porque houve mesmo alguns aproveitadores que
encheram os carros e levaram umas 30 ou 40
prendas enquanto outros não conseguiram lá
chegar a tempo e horas.
Fizeram em que locais da marginal?
Anarca: Fizemos desde do Barco ao Chafariz da Arrentela, perto do edifício da Junta
de Freguesia.
Porquê esta iniciativa, como decidiram
avançar com ela?
Anarca: Deu-nos na cabeça (risos). Basicamente foi isso. Nós tentamos sempre fazer
coisas que ninguém faz por aqui, gostamos de
pensar um pouco fora da caixa, e pensámos
“porque não?”. Encontrámos esta forma de dar
às crianças algo diferente, poderem acordar de
manhã e saberem que há ali prendas penduradas e chatearem os pais para poderem sair da
cama naquele dia.
Sem Gota: Tivemos mesmo uma criança
cuja mãe chegou perto de nós e disse-nos “ele
não me deixou dormir a noite toda”. O miúdo
só dizia “eles já lá estão, eles já lá estão” e a
mãe teve de ir com eles às árvores para tirar
uma prenda. E houve ainda outras pessoas que
foram lá de pijama.
Este ano fizemos diferente como o Anarca
estava a dizer. O ano passado fomos “roubados”.
Este ano o ladrão estava lá de novo mas este ano
a gente apanhámo-lo e já não se safou porque

tínhamos pessoas pela Baía toda. Em 2016, e
como não víamos maldade, decidimos tomar
o pequeno-almoço numa pastelaria da Amora, eram por aí umas 7h30. Quando acabámos
viemos embora, e quando chegámos à marginal foi uma grande balde de água fria porque
não havia nada pendurado nas árvores, nada de
nada. Este ano já não, decidimos ir mais tarde e
ficar lá e pendurámos e ficámos com as motas a
fazer a marginal toda e apanhámos uns dois ou
três que estavam a tentar levar as prendas todas.
Anarca: A nossa ideia não é a de nos mostrarmos, não estamos aqui para ser agraciados. Muitas vezes publicamos fotografias do
que fazemos para as pessoas saberem as doações que fizeram, para o caminho que foram,

porque as pessoas têm todo o direito de saber
para o que foi. Não é para levarmos palmadinhas nas costas, por isso é que em 2016
fomos tomar o pequeno-almoço descansados,
agora já não o fazemos para não acontecer o
mesmo.
Como é que têm acesso a esses brinquedos que penduram nas árvores?
Anarca: Todos os brinquedos que entregámos este ano nos bairros sociais foram angariados por nós ao longo do ano. Foram recuperados
e limpos por nós para depois entregarmos às
crianças. A Cruz Vermelha também nos ajudou
com alguns brinquedos. E basicamente através
do trabalho voluntário do pessoal.
Sem Gota: Já estamos a começar a trabalhar para a próximo edição, no final de 2018.
Anarca: Ao longo do ano também fazemos
algumas entregas. Fazemos bastantes entregas
de roupa, fazemos também de brinquedos,
como por exemplo no Dia da Criança, que o
ano passado fizemos no Parque do Serrado,
na Amora. Mas tentamos sempre guardar um
bocadinho ao longo do ano para que no final
do mesmo possamos ter brinquedos suficientes para ir a bairros sociais e pendurar na Baía.
Quem quiser contribuir como pode fazer?
Anarca: Basta virem ter connosco, geralmente estamos na nossa sede à 6.ª Feira (no
Mercado Municipal do Seixal, Lojas 8 e 9).
Senão entrem em contacto com a nossa página

Têm também um pequeno espaço no
Mercado Municipal do Seixal onde as pessoas podem recolher e entregar roupa.
Anarca: Infelizmente ainda não conseguimos ter uma base maior aberta a 100%, temos
aqui este pequeno espaço, que quando o Mercado está aberto as pessoas podem vir recolher
roupas…
Sem Gota: Recolher e pôr roupas.
Gru: Isto está a “autoalimentar-se” sozinho.
Nós começámos a meter alguns brinquedos e
roupas e na primeira semana desapareceu tudo.
Sem Gota: Na primeira, segunda, terceira,
quarta (risos)... Porque é assim, o Seixal em si
é pobre. Temos muitas pessoas de idade que
não se mostram, são pobres mas precisam e
não dizem nada a ninguém. De passagem por
aqui, vêm que não está ninguém, agarram no
casaco, metem debaixo do braço e levam, mas
precisam! A gente vê que as pessoas precisam.
Anarca: Temos muita pobreza encapotada,
por assim dizer.
Gru: Por exemplo, nós colocamos roupa

aqui, vimos cá dois ou três dias depois, vemos
o que há e reparamos que há coisas que não
fomos nós que aqui metemos. Já conversámos
com pessoas do Mercado que nos dizem que já
viram pessoas a trazer coisas para cá. Algumas
pessoas deixam cá sacos com roupa para nós
depois vermos o que pode ser aproveitado.
Anarca: Porque nós fazemos a triagem e
vemos o que pode ser entregue.
Sem Gota: Não entregamos nada que esteja roto ou sujo ou estragado. Entregamos para
os outros aquilo que escolhíamos como se fosse para nós. Porque quando recebemos sacos
de roupa, se formos logo entregar sem ver o
que está lá dentro, se vem lá uma peça suja,
nunca mais aceitam nada de ti, deixa de haver
confiança. Quando chegámos aos bairros

parece uma festa. Para começar ficam todos
contentes por aparecermos. Depois são ordeiros, não faltam ao respeito a ninguém, fazem
filas, não há nada de mau.
Anarca: Podemos dizer que somos muito
bem vistos nos bairros sociais aqui da zona:
Quinta da Princesa, Santa Marta de Corroios
e Bairro da Jamaica. Nunca tivemos qualquer
tipo de problemas, inclusive deixamos os capacetes nas motos e se tivermos de deixar as chaves, elas ficam lá guardadas.
Sem Gota: E o mais engraçado é que os
miúdos vêm-nos na rua e dizem “mãe, olha
um Paladino”. É gratificante para nós, porque
despendemos tempo da nossa vida e com a
nossa família, mas um dia mais tarde todos
nós somos conhecidos por fazer o bem.
Anarca: E para mudar também um pouco as mentalidades. Os motards não são feios,
porcos e maus, só somos feios neste caso (risos).
As outras associações já vos procuram
para parcerias solidárias?
Anarca: Algumas sim mas ainda está muito envergonhados.
Sem Gota: Funciona mais ao contrário,
nós procurámos mais do que nos procuram a
nós. Nós pedimos autorização para fazermos
um evento onde vamos angariar algo para a
associação.
Anarca: Pedem-nos mais no âmbito de
aparecermos lá, fazer presença por causa dos
miúdos quererem estar perto das motas e estar
perto com elas.
Têm também um evento preparado para
Janeiro, nomeadamente para a entrega de
roupas e brinquedos no Bairro da Santa
Marta.
Anarca: Vamos fazer a triagem da toda
roupa que temos no Mercado. Temos ainda
duas prateleiras cheias de brinquedos para
levar para lá. E convivemos com as pessoas,
claro! Não chegamos lá, deixamos as coisas e
vimos embora, nada disso.
Sem Gota: O que fazemos normalmente
é montarmos umas bancadas onde metemos
a roupa toda exposta, as pessoas chegam lá e
escolhem, os brinquedos também escolhem.
Depois há pessoas que levam duas peças, outras
levam uma caixa, outras não levem nada porque não gostam mas há sempre pessoas que
levam.
Anarca: Gostávamos ainda de agradecer
à União das Juntas de Freguesia do Seixal,
Arrentela e Aldeia de Paio Pires e à Câmara
Municipal do Seixal por todo o apoio que nos
deram com a cedência do espaço no Mercado
Municipal do Seixal para nos organizarmos,
e à Cruz Vermelha pelos brinquedos que nos
doaram.
João Domingues