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Saúde

CSS | 22 de Dezembro de 2017

10

Teresa Bogas
Assistente Técnica
Unidade de Saúde Pública
HIGEIA|ACES Almada-Seixal

ESPINAFRE-DA-NOVA-ZELÂNDIA
Fitoterapia

Miguel Boieiro

potássio, cálcio, magnésio, fósforo e ferro. O único senão à utilização desregrada deste “falso espinafre” é a existência
de ácidos oxálicos, sobretudo quando a
planta já está envelhecida. Por isso, é conveniente rejeitá-la quando se encontra em
frutificação.

Os idosos e o isolamento
A velhice não é sinónimo de solidão
ou isolamento. Segundo dados do
INE, a nível nacional cerca de 21% da
população é idosa (65 anos ou mais),
enquanto nos concelhos de Almada e
Seixal estes valores são de 23% e 19%,
respetivamente.
A solidão nos idosos e o abandono
familiar obriga a uma reflexão sobre
as diferentes causas que levam a esta
problemática. O abandono, bem como
as consequências da ausência de apoio
familiar podem ser motivadas não só
por questões de natureza económica,
mas também pela distância geográfica
a que se encontram de familiares,
quebrando a cadeia de afectos
essencial a continuidade de vivência e
de expectativa de realização dos seus
projetos de vida.
Na província os idosos podem ter
maiores dificuldades de acesso aos
cuidados de saúde comparativamente
à cidade, mas têm quase sempre
apoio de alguns familiares ou de
amigos com quem desde sempre
conviveram, visitando a sua casa se
estiverem acamados ou ajudando-os
nas deslocações básicas. Da mesma
forma, os Centros de Dia na província
fazem deslocações às casas dos idosos
mais frequentemente, havendo um
seguimento mais próximo e maior
auxilio nas suas necessidades. Nas
cidades existe falta de diálogo entre
vizinhos e indiferença quanto ao bemestar dos mesmos.
O isolamento dos idosos é uma
realidade a nível nacional sendo
importante a promoção de um
envelhecimento ativo e saudável
e da solidariedade entre gerações,
fomentando o convívio, a ocupação
dos tempos livres e a procura de novas
amizades.

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Acabei de ler o excelente trabalho da
minha amiga Maria-Manuel Valagão,
ilustre Investigadora do Instituto Nacional de Recursos Biológicos, denominado
“A sopa em Portugal e as sopas de plantas silvestres alimentares”. Trata-se de um
tratado notável que relata, sobre múltiplas
facetas, o percurso histórico, etnográfico e
até mesmo filosófico de toda a elaboração
culinária, resultado da ebulição em água,
durante um certo tempo de vários componentes, e que geralmente se come à colher. O
estudo, frisa a importância alimentar das
sopas, caldos e papas e os seus benefícios
para a saúde das populações, quer sejam
abastadas, quer de fracos recursos.
Há naturalmente variadíssimas versões
desde as leves sopas de vegetais, à canja
(palavra que em concani, idioma falado
em Goa, significa apenas sopa de arroz),
ao caldo verde (com ou sem rodela de
chouriço), até às famosas sopas da pedra,
sopas caramelas e sopas de corno. Não
cabe nesta croniqueta explicar como elas
se fazem, mas sempre direi que as pedras e
as pontas dos chavelhos têm de ser de boa
qualidade para que as sopas resultem. Isto
mesmo, dizem os gastrónomos entendidos. Por mim, aproveito para recordar
minudências da minha infância em que
o prato único que, todos os dias, tínhamos ao jantar era a sopa de feijão. Num
dia adicionava-se arroz, no outro massa
e no outro pão de dezassete esfarelado,
acompanhado de hortaliças, abóbora
porqueira, um naco de toucinho fresco e
um pedacinho de chouriço só para dar o

gosto.
Tudo isto vem a propósito de uma
referência que encontrei no trabalho da
Maria-Manuel sobre o uso de espinafres
Tetragonia tetragonoides para confecionar
sopas no Alentejo e, vai daí, lembrei-me
de discorrer sobre essa plantinha.
Em Portugal ela é conhecida como
espinafre-da-nova-zelândia, em alusão ao
país donde se julga ser proveniente, mas
encontra-se completamente naturalizada, sendo mesmo considerada nalgumas
regiões uma planta invasora. O seu nome
científico tem a ver com a configuração
curiosa do fruto em forma de quadrilátero. Em França a planta é conhecida por
tétragone, designação que considero mais
feliz, dado que, botanicamente, pertence
à família das aizoáceas e nada tem nada a
ver com o espinafre – Spinacia oleracea –
da família das amarantáceas.
Do aspeto do fruto, já estamos conversados. As folhas, a parte que nos interessa para preparar a sopa de legumes, são
triangulares, carnudas, papilosas, pecioladas e de cor verde brilhante. A ramagem
é prostrada, cobrindo o solo em razoável
extensão, dado que com grande facilidade
alastra por terrenos abertos. As flores são
pequenas, discretas, solitárias nas axilas
das folhas e de cor amarelo-esverdeado.
O valor proteico da planta é fraco, mas
em compensação, é rica em vitaminas do
complexo B, vitamina C, provitamina A,

O espinafre-da-nova-zelândia gosta
do calor e da humidade, dando-se bem
numa alargada faixa de climas temperados. Não é atreito a moléstias, resiste às
investidas dos insetos predadores e possui
características halófitas, ou seja desenvolve-se em terrenos medianamente salinos.
Lembro-me de que a primeira vez que vi
este vegetal em grande quantidade foi
junto à praia do Baleal (Peniche), já lá vão
umas quatro décadas. Aí, e nessa altura,
a planta era espontânea, apresentando
uma excelente reprodução. Tal também
acontece no meu quintal, visto que a água
que obtenho do furo sofre a influência
da cunha salina proveniente do estuário
do Tejo. Todos os anos tenho abundante
produção sem fazer qualquer sementeira.
Quanto às virtudes terapêuticas do
espinafre-da-nova-zelândia,
aponta-se
que o capitão Cook, famoso navegador
dos mares austrais, a utilizou largamente
para combater o escorbuto que atormentava a tripulação do navio Endeavour.
Contudo, é na gastronomia que este
vegetal se mostra relevante. Consulte-se,
por exemplo, a obra “Plantes potagères”
da editora Gründ, onde o tétragone aparece com grande destaque. Na verdade, a
sua primordial utilidade é na preparação
de esparregados e de suculentas sopas de
vegetais, misturada com outras hortaliças. Fica especialmente bem numa sopa
ou estufado com grão-de-bico. Experimentem!