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Saúde
CSS | 19 de Janeiro de 2018
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Filomena Branco
Higienista Oral
ACES Almada-Seixal
LÓDÃO
Fitoterapia
Miguel Boieiro
Vamos pôr Almada e Seixal
com um sorriso saudável
Na cavidade oral, existem centenas
de estirpes de bactérias, responsáveis
pelo aparecimento das doenças orais,
influenciam a ocorrência de infeções
e afetam a saúde geral. Está comprovado cientificamente, que indivíduos
com doenças periodontais duplicam
o risco de desenvolver doenças coronárias e cardiovasculares, doenças
hepáticas e renais e distúrbios alimentares.
O Núcleo de Saúde Oral do ACES
Almada Seixal integra 6 Higienistas
Orais que gerem as orientações e as
actividades do Programa Nacional
de Promoção de Saúde Oral, junto da
população dos Concelhos de Almada
e do Seixal. Efetua-se uma intervenção precoce, que se inicia durante a
gravidez e se desenvolve ao longo da
infância, através da Saúde Infantil
e Juvenil e das actividades em Meio
Escolar. O objetivo é melhorar a saúde oral e geral da população destes 2
Concelhos, para isso, contribui o empenho e atitude proactiva do Núcleo de
Saúde Oral, da articulação interdisciplinar e interprofissional centrada no
utente.
Na última avaliação efectuada em
2016, pelo núcleo de Saúde Oral deste
ACES, os resultados alcançados de 69%
e 63% de crianças livres de cárie aos 6
anos e um Índice CPO-D de 0,44 e 0,55
aos 12 anos nos concelhos de Almada e
do Seixal respectivamente, traduzem
ganhos em saúde bastante positivos,
comparativamente com os dados do
III Estudo Nacional de Prevalência
das Doenças Orais. Assim, as estratégias de intervenção adotadas têm-se
revelado bastante efetivas nos resultados obtidos.
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Na página 26 da 21ª edição do notável
romance “A Sibila”, Agustina Bessa-Luís
escreve que Lisa “parando sob as latadas de
morangueiro, extasiando-se com o perfume
dos cachos que a tentavam muito e faziam
gratificar um garoto para que trepasse nos
lódãos, a colher para ela os rácimos empoeirados”. Depois de matutar um pouco, concluí que a personagem do citado
romance talvez almejasse os cachos de
uvas que se encontravam empoleirados nas
árvores. Não se estranhe a confusão entre
empoeirados e empoleirados porque consta-se que Agustina escreve numa penada e
tem por costume nunca rever o que redige. Aguardo a melhor interpretação dos
doutos para esta frase que me inspirou
a cronicar sobre o lódão. Para onde me
havia de dar!
Na realidade, os lódãos são árvores
bem altas e só com bastante vento as
ramagens poderão recolher poeira. Podemos vê-los em plena cidade de Lisboa, na
Alameda Afonso Henriques, nas imediações do Castelo de São Jorge e noutros
meios urbanos, como árvore ornamental que fornece excelente sombra. Que
o digam os praticantes de chi-kung da
Sociedade Portuguesa de Naturalogia que
resolveram praticar a atividade no relvado
da Alameda. Aí foi a sombra dos lódãos
a proporcionar o desejado lenitivo face à
canícula que, na altura, se fazia sentir.
O lódão, também conhecido por
lódão-bastardo ou ginjinha-do-rei é cientificamente designado por Celtis australis
L e pertence à família botânica das Ulmaceae ou, modernamente, das Cannabaceae. O termo australis nada tem a ver
com Austrália como inadvertidamente
se possa imaginar.
Esta palavra latina refere-se a “sul”
que, no mundo
romano era a região
do
mediterrâneo
(sul da Europa, norte de África ou Ásia
Menor), donde o
nosso lódão é nativo. Por sua vez, celtis, provém do grego
e designa genericamente “árvore”.
Aproveita-se para
referir que, em cerca de quatro dezenas do género celtis,
pesquisados há pelo
menos 16 que possuem edibilidade. Mas já lá vamos!
O lódão é uma árvore robusta de
copa ampla que pode atingir 40 metros
de altura. A sua longevidade média é de
200 anos mas conhecem-se casos em que
pode chegar aos 8 séculos. O seu tronco
é vertical, liso, praticamente sem fissuras,
de cor acinzentada. As folhas são simples, alternas, pecioladas, ovado-lanceoladas, acuminadas, serradas e rugosas. As
pequenas flores, pouco expressivas, verde-amareladas, solitárias, pentâmeras e
hermafroditas são polinizadas principalmente por ação do vento. Os frutos, que
amadurecem no fim do verão, são drupas
pedunculadas com cerca de 1 cm de diâmetro. Começam por ser verdes e depois
tornam-se negro-acastanhadas quando
maduras, sendo adoradas pelos pássaros.
As raízes são profundas e ramificadas.
O lódão resiste bem à seca, ao calor e à
poluição urbana, apreciando terrenos drenados mas detestando zonas sombrias e
geadas. É praticamente indiferente ao pH
dos solos, medrando em terrenos alcalinos, neutros ou ácidos. Devido a estas
características é hoje utilizado, quase
exclusivamente, como árvore ornamental
e de alinhamento.
Todavia, o lódão possui outras valências já esquecidas da moderna civilização
consumista que hoje nos rege. Em primeiro lugar, os frutos são comestíveis e de
sabor adocicado, embora de polpa reduzida. Eles eram, nos tempos antigos, usados
para a elaboração de apetecíveis compotas, ou marmeladas como, erradamente,
dizem os ingleses.
Tanto as folhas como os frutos são ricos
em flavonóides, taninos e mucilagens,
possuindo propriedades adstringentes,
lenitivas, antidiarreicas e anti-hemorroidais. Para esses efeitos, usa-se (usava-se)
a decocção das folhas e dos frutos para
debelar amenorreias, hemorragias menstruais, diarreias e cólicas.
A madeira do lódão é leve mas elástica
e flexível. Torna-se ideal para o fabrico
de objetos torneados, instrumentos musicais, rodas de charretes, ferramentas de
lavoura e artesanato.
Da casca e sobretudo das raízes obtinha-se, outrora, um corante amarelo de
grande valia para tingir as sedas.
Convém referir que o crescimento do
lódão é relativamente rápido se o compararmos com o de outras espécies arbóreas de grande longevidade. A reprodução
pode ser efetuada através das sementes,
tendo-se em atenção que a sua dormência não vai além de cinco anos. Pode, no
entanto, efetuar-se a propagação através
de estacaria.
Finalmente, não logrei certificar-me se
o lódão possui algum óleo essencial aproveitável. Apenas detetei nos “Elementos
da Flora Aromática” de Aloísio Fernandes
Costa a existência de um “primo” designado por Celtis durandii, espontâneo em
Angola e São Tomé e Príncipe que proporciona a obtenção de um óleo chamado
escatol. Mas essa é outra história!
