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ENTREVISTA
CSS | 20 de Outubro de 2017
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NÓS, MÚSICOS DE JAZZ
TEMOS DE SER COMO OS SUPER-HERÓIS
QUANDO ESTAMOS EM PALCO
Ricardo Toscano dispensa apresentações. É actualmente um dos melhores músicos
de Jazz de Portugal e tem apenas 24 anos, mais do que uma promessa, é já uma
certeza.Nascido e criado na cidade de Amora, o músico actuou ontem no SeixalJazz
Clube, palco que volta a pisar hoje e amanhã.
Quando é que começaste na música?
Comecei aos 8 anos a tocar clarinete na
banda filarmónica da Sociedade Filarmónica
Operária Amorense. E hoje olha, é isto! (risos)
Começaste aos 8 anos mas tiveste algum
avanço em casa…
Tive um avanço grande em casa. O meu pai
é músico e tenho uma família de músicos. A
minha mãe também tocou quando era mais
nova e depois, quando comecei a tocar na
banda ela voltou a tocar pela piada. Cresci a
ouvir Jazz, e a ouvir música por causa do meu pai.
O teu pai influenciou-te de alguma forma
a tocares algum instrumento?
Então não?! O facto de ele ser saxofonista
fez com que eu crescesse rodeado desses
instrumentos em casa. Mas eu ao início não
comecei a tocar saxofone porque era muito
grande e aos oito anos tocar saxofone não é
“evidente”, e então comecei no clarinete onde
até fiz um percurso mais ou menos engraçado.
Estava a pensar, acho que não podia ter sido
melhor, acho que comecei da maneira certa.
Achas que a evolução do clarinete para o
saxofone acaba por ser natural?
Acaba por ser natural porque cá dentro já
sabia que isso ia acabar por acontecer, não
me perguntes como mas eu já sabia. Eu
idolatrava o meu pai e aquilo que ele fazia
era aquilo que me fascinava “quero fazer isto,
quero fazer isto!” Só o ouvia a tocar saxofone.
Mas eu também sabia que o estilo de música
que eu ouvia, o estilo de música pelo qual
era mesmo apaixonado, faz mais sentido
com um saxofone. Não quer dizer que o
clarinete não possa entrar lá, claro que pode.
Foi uma transição, ou seja, se formos ver a
nível de percentagem, tocava 90% clarinete e
10% saxofone e hoje em dia é exactamente o
contrário. O processo de transição por acaso
foi muito engraçado, eu tocava todos os dias os
dois instrumentos, isto já foi mais tarde, mas
foi importante na mesma porque o clarinete
ensinou-me muitas coisas que eu acho que se
começasse no saxofone escapavam, ou então
tinha de fazer escola clássica, que é uma coisa
que não dá. Não há saxofonistas de Jazz que
soem mesmo a Jazz se tiverem feito escola
clássica, só conheço um e é espanhol, mas
digo clássico a sério. Mesmo assim ele soa a
Jazz, “parte a loiça toda”, mas consigo ver que
teve a escola clássica, é uma relação física com
o instrumento.
És um dos músicos mais conhecidos de
Jazz em Portugal, a tua base é filarmónica.
Achas que essa base ainda tem influência
na forma como tocas?
A filarmónica ajudou-me numa coisa,
ensinou-me a ler bem, a ler bem a música.
Acho que há coisas que aprendemos nas
filarmónicas que só se aprendem nas
filarmónicas. Por exemplo, quando somos
putos, 8 ou 9 anos, ou até mais novos,
ganhamos uma noção e uma preocupação
de estar a tocar com a malta à tua volta
que só se aprendem numa situação dessas.
Se começares no conservatório aos 8 ou 9
anos, só ias tocar com alguém algum tempo
depois, independentemente do teu nível. O
facto de estares a tocar com pessoas, e estares
preocupado com o facto de estares colado ou
não, e colado num bom sentido, ou seja, da
música soar uniforme, soar bem e afinado,
manter o tempo e isso tudo, isso é uma coisa
que só se aprende na filarmónica. Claro que
se aprendem em mais sítios, não é? Mas eu
acho que isso foi muito importante para mim
desde cedo, e a leitura, o convívio, a verdade
é que a filarmónica é acima de tudo um sítio
que faz com que os jovens queiram estar lá,
porque a malta diverte-se a tocar. Tu vais lá
para tocar mas também vais lá para estar com
a malta que é algo muito importante desde
cedo, porque a música e o convívio estão tudo
ligados, porque quando estou a tocar com os
meus amigos, estou a conviver ao mesmo
tempo com eles, estamos a tocar mas estamos
a conviver, estamos a trocar energias, é isso
que se faz numa filarmónica só que numa
escala diferente. Aliás, não é numa escala
diferente, é uma abordagem diferente mas
creio que o princípio é o mesmo.
Tens 24 anos. Tens um Quarteto, tens um
Trio, já tocaste com o Sexteto de Jazz de
Lisboa, tocaste constantemente n’O Bom,
o Mau e o Vilão, no Hot Club, também já
tiveste em Espanha e na Grécia. O que te
falta?
Falta muita coisa, falta muita coisa! Falta
andar em tour com a minha banda, falta o
meu primeiro disco sair, falta aprender a tocar
melhor, faltam muitos anos. Falta viajar mais,
tocar com outros músicos. Tenho conhecido
muitos músicos diferentes de outros países, e
de outras culturas jazzísticas de outros países.
Preciso de mudar-me para Nova Iorque, não
é ir lá, ir lá vou no final do mês, preciso de
mudar-me para lá.
Porquê?
Porque o género de música que eu gosto
e que eu quero fazer, está lá. É lá que vou
sair à noite e ver pessoas a tocar a música
que eu gosto e que me façam sentir mesmo
“apertado”, sentir assim “fogo, sou um cepo
perto destes gajos…”. E aqui não estou a
dizer que isso não aconteça. Não acontece
é no estilo de música que eu quero tocar. E
não desfazendo a nossa cena musical,temos
uma cena jazzística de um nível muito muito
alto, isso eu posso dizer. Trabalhei em muitos
sítios e posso dizer que estamos num nível
alto.
Essa constante necessidade de aprendizagem,
de adquirir novos conhecimentos, de
contactares com outras culturas jazzísticas,
achas que pode ser algo negativo para o teu
futuro musical…
Negativo? Como?
Ou seja, como queres sempre melhorar,
podes ficar eternamente insatisfeito, ou
achas que é exactamente o contrário, o
facto de quereres ser cada vez melhor,
achas que te vai levar a um patamar cada
vez mais alto?
Completamente! E ao mesmo tempo quando
quero explorar essas coisas todas, explorar
esses sítios e aprender, só faz com que me
conheça melhor a mim próprio e faz com
que não esteja preocupado em tocar mais
para agradar, para não ir nesse caminho fácil
de ficar na minha zona de conforto e essas
coisas todas. Isto que estou a dizer nem é
assim nada de especial, só acho é que nesta
fase em que estou, sou jovem, está tudo bem,
sei que toco bem, sei que a minha banda
é fixe, sei que tenho bastantes concertos,
toco com muita gente… Mas de repente,
vou por um disco em casa, no carro ou em
qualquer lado, um disco qualquer dum gajo
que eu adoro, e que eu tenho a noção da
distância que há entre mim e a pessoa que
eu estou a ouvir, uma distância que pode
ser hipotética ou não, mas a verdade é que
existe essa distância. Sobretudo nas fases da
vida, não é? Eu sou um jovem e essas pessoas
normalmente são mais velhas mas há uma
distância, há uma distância nem que seja de
procura ou de buscar espiritual ou artística,
que nos distancia, e então é isso que quero
fazer. Não quero chegar lá, a nível de igualar
ninguém, mas quero fazer o melhor que tiver
para fazer e eu sinto que estou mesmo no
início. É mesmo isso, não estou a falar para
vender a minha campanha.Nós, músicos
de jazz, temos de ser como os super-heróis
quando estamos em palco. Temos de lidar
com tudo o que está a acontecer ao mesmo
tempo. Mas, tal como todos os super-heróis,
não nos podemos esquecer da máscara,e é a
máscara que nos tapa o ego.
Há uns anos numa entrevista falaste de
que gostavas de tocar com RoyHaynes, um
dos dinossauros do Jazz. Vais para Nova
Iorque, gostavas de estar com ele?
Então não?! Claro! Dava-lhe um ano da
minha vida para passar um dia com ele.
O RoyHaynes. Há uma foto histórica do
RoyHaynes a tocar com o Charlie Parker,
com o Monk – ndr: TheloniousMonk - e com
o Mingus – ndr: Charles Mingus –. Essa foto
diz muita coisa. Ele é o único que ainda está
vivo. RoyHaynes também pelo seu estilo a
tocar, envelheceu muito bem a tocar, ou seja,
artisticamente, não foi pelo caminho fácil,
uma pessoa que sempre procurou, sempre
foi honesta a tocar, e tocou com o Coltrane–
ndr: John Coltrane – também, era o baterista
que substituía o Elvin – ndr: Elvin Jones
– quando o Elvin não podia no quarteto
do Coltrane. Essas coisas todas, o facto de
conseguir tocar vários estilos diferentes, a
maneira dele tocar, adaptava-se muito bem
às circunstâncias. Aqueles discos que eles têm
com o ChickCorea nos anos 60… é incrível!
É outra abordagem mas ao mesmo tempo é
uma grande violência, sei lá… É RoyHaynes.
Fugindo agora um pouco da música,
vamos falar de uma outra paixão tua que é
o desporto. Jogaste ténis de mesa e futebol
federado.Agora és praticante de boxe.
Como chegaste ao boxe?
Há um amigo meu que é trombonista e
é mestre de Taekwondo e então disse-me
“devias experimentar o boxe, vais adorar”. E
eu na altura disse para mim “a verdade é que
gostava de estar em forma” só que jogava à
bola uma vez ou duas por semana e isso não
dá com nada, porque o pessoal vai curtir com
os amigos e depois no fim bebe uns copos
(risos). É algo típico. Então fui experimentar
as aulas de boxe. Ao início, durante cerca de
um ano, só uma ou duas vezes por semana,
também não conseguia mais e os horários era
meio estranhos. De repente, esse treinador
de boxe abriu a sua própria academia, então
desde aí comecei a ir todos os dias, já dava para
fazer treinos praticamente a qualquer hora e
é para onde vou a seguir (risos). Desenvolvi
uma paixão muito grande pelo desporto,
adoro o desporto, adoro os princípios, adoro
o facto de ser algo super técnico, mesmo
super técnico e muito artística, e isso estimula
outras partes do meu cérebro. E também
faz com que esteja em contacto com o meu
corpo, estou na minha melhor forma física
de sempre, nunca me senti tão em harmonia
com o meu corpo como me sinto agora. É
um desporto espectacular, é bom para o ego.
Essa harmonia com o teu corpo reflecte-se
na música?
Eu acho que sim porque como tenho mais
domínio do meu corpo, consigo gravitar
melhor. Sinto isso, que o boxe me esteja a
tocar, tipo ritmo, cadência, sei lá. Por acaso
houve um baterista americano, que não me
disse a mim mas disse a um outro rapaz
que depois me disse a mim. Estava num
workshop e esse baterista era assistente e
disse assim “meu, aquele gajo toca como se
fosse um pugilista” e ele respondeu “mas ele
pratica” e o americano disse novamente “’tás
a ver? Eu sabia”. Este baterista tinha tocado
com o Miles e com o Shorter – n.d.r Miles
Davis e Wayne Shorter – e depois acabamos
por tocar juntos e foi alta cena (risos).
Voltando de novo à música. SeixalJazz
está a aproximar-se e vais tocar três dias,
desta vez não no palco principal, mas sim
no sítio que não diria mais mítico mas que
tem uma maior interacção com o público,
que é o SeixalJazz Clube na Mundet. O
que o público pode esperar?
Swing, muito swing. Vamos tocar standards,
com alguns arranjos, mas vai ser uma coisa
relaxada mas ao mesmo tempo não vou estar
a tocar a minha música original, o espírito do
Jazz vai estar presente em cada tema, em cada
nota. Acho que a circunstância pede isso, não
quero estar num clube de Jazz com coisas
muito complexas, vamos swingar e groovar
e os músicos com quem vou estar a tocar
são incríveis, são eles o Nelson Cascais no
contrabaixo que toda a gente conhece, e um
baterista sérvio que chegou há pouco tempo
a Portugal, o NemanjaDelic, um craque. E
é isso, vamos tocar straight ahead e vamos
partir aquilo tudo (risos).
João Domingues
