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O Estrangeiro Camus .pdf



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Autor: 614

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O ESTRANGEIRO - ALBERT CAMUS

LIVROS DO BRASIL - COLECÇÃO MINIATURA
Pequenas jóias Literárias dos Maiores Autores

ALBERT CAMUS - O ESTRANGEIRO

Título Original: L'Étranger
Tradução de António Quadros

Edição: Livros do Brasil
Lisboa

PRIMEIRA PARTE

I
Hoje, a mãe morreu. Ou talvez ontem, não sei bem. Recebi um telegrama
do asilo: "Sua mãe falecida: Enterro amanhã. Sentidos pêsames". Isto não
quer dizer nada. Talvez tenha sido ontem.
O asilo de velhos fica em Marengo, a oitenta quilómetros de Argel. Tomo
o autocarro das duas horas e chego lá à tarde. Assim, posso passar a noite
a velar e estou de volta amanhã à noite.
Pedi dois dias de folga ao meu chefe e, com um pretexto destes, ele não
mos podia recusar. Mas não estava com um ar lá muito satisfeito. Cheguei
mesmo a dizer-lhe "A culpa não é minha". Não respondeu. Pensei então
que não devia ter dito estas palavras. A verdade: é que eu não tinha que
me desculpar: Ele é que tinha de me dar pêsames. Mas com certeza o
fará, depois de amanhã, quando me vir de luto. Por agora é um pouco
como se a mãe não tivesse morrido. Depois do enterro, pelo contrário,
será um caso arrumado e tudo passará a revestir-se de um ar mais oficial.
Tomei o autocarro às duas horas. Estava calor. Como de costume, almocei
no restaurante do Celeste. Estavam todos com muita pena de mim, e o
Celeste disse-me "Mãe, há só uma." Quando saí, acompanharam-me à
porta. Estava um pouco atordoado e tive que ir a casa do Manuel para lhe
pedir emprestados um fumo e uma gravata preta. O Manuel perdeu o tio,
há meia dúzia de meses.
Tive que correr para não perder o autocarro. Esta pressa, esta correria, e
talvez também os solavancos, o cheiro da gasolina, a luminosidade da
estrada e do céu, tudo isto contribuiu para que eu adormecesse no
caminho. Dormi quase todo o tempo. E quando acordei, estava apertado
de encontro a um soldado, que me sorriu e me perguntou se eu vinha de
longe. Disse que sim, para não ter que voltar a falar.
O asilo distava dois quilómetros da aldeia. Fui a pé. Quis ver
imediatamente a mãe. Mas a porteira disse-me que eu precisava, antes
disso, de falar com o director. Como estava com pessoas, esperei ainda

um pouco. Durante este tempo, o porteiro não parou de falar. Depois, o
director recebeu-me no seu gabinete. Um velhote, que tem a Legião de
honra. Fitou-me com uns olhos muito claros. Depois apertou-me a mão
durante tanto tempo, que já não sabia como havia de a tirar. Consultou
um processo e disse-me: "A senhora sua mãe entrou para aqui há três
anos. O senhor era o seu único amparo."
Julguei que me estava a fazer alguma censura e comecei a explicar-lhe,
Mas ele interrompeu-me: "Não tem nada que se justificar, meu filho.
Estive a ler o processo da sua mãe. O senhor não lhe podia suportar as
despesas. Ela precisava de uma enfermeira. O seu ordenado é modesto. E,
no fim de contas, aqui ela era feliz." Disse: "Sim, Sr. Director".
Acrescentou: "Sabe o senhor, aqui ela tinha amigos, pessoas da mesma
idade. Partilhava com eles motivos de interesse que são de um outro
tempo. O Senhor é novo, e ao pé de si, ela aborrecia-se com certeza."
Era verdade. Quando estava lá em casa a mãe passava o tempo a seguirme em silêncio com os olhos. Nos primeiros dias do asilo, chorava muitas
vezes: Mas era por causa do hábito. Ao fim de alguns meses, choraria se a
tirassem do asilo, ainda devido ao hábito. Foi um pouco por isto que, no
último ano quase não a fui visitar. E também porque a visita me tomava o
domingo todo sem contar o esforço para ir para o autocarro comprar os
bilhetes e fazer duas horas de viagem.
O director disse-me ainda mais coisas. Mas já quase não o ouvia. Em
seguida perguntou-me: "Julgo que agora, quer ir ver a sua mãe?"
Levantei-me sem dizer nada e acompanhei-o até à porta. Nas escadas,
explicou-me: "Levámo-la para a nossa morgue particular. Para não
impressionar os outros. Cada vez que algum morre, os outros ficam
nervosos durante dois ou três dias, o que torna o serviço difícil".
Atravessámos um pátio onde havia muitos velhos, conversando em
grupos, uns com os outros. Ao passarmos, calavam-se.
E atrás de nós as conversas recomeçavam. Dir-se-ia um papaguear
atordoado de periquitos. À porta de uma pequena construção, o director
deixou-me. "Deixo-o agora, senhor Meursault. Estou às ordens, no
escritório. Em princípio, o enterro estava marcado para as dez horas da
manhã. Pensámos que o Senhor podia assim passar a noite a velar.

Uma última coisa: parece que a sua mãe exprimiu várias vezes aos amigos
o desejo de ter um enterro religioso. Tomei à minha conta este encargo.
Mas queria pô-lo a par. Agradeci-lhe. Embora sem ser ateia, enquanto viva
a mãe nunca pensara na religião. Entrei: Era uma sala muito clara, caiada,
e coberta por uma vidraça. Mobilavam-na algumas cadeiras e cavaletes
em forma de X. Dois deles, ao meio da sala, suportavam um caixão
coberto.
Viam-se apenas parafusos brilhantes, mal enterrados, destacando-se da
madeira pintada de casca de noz. Perto do caixão estava uma enfermeira
árabe, de bata branca, com um lenço colorido na cabeça. Neste momento,
o porteiro entrou por detrás de mim. Devia ter corrido: Gaguejou.
"Fecharam-no, mas eu vou desaparafusá-lo, para que o senhor a possa
ver". Aproximava-se do caixão, quando eu o detive.
Disse-me: "Não quer?" Respondi: "Não". Calou-se e eu estava embaraçado
porque sentia que não devia ter dito isto. Ao fim de uns momentos, ele
olhou-me e perguntou: "Porquê?", mas sem um ar de censura, como se
pedisse uma informação. Eu disse: "Não sei". Então, retorcendo os
bigodes brancos, declarou sem olhar para mim: "Compreendo". O homem
tinha uns bonitos olhos azuis claros e uma pele um pouco avermelhada.
Deu-me uma cadeira e sentou-se também, um pouco atrás de mim. A
enfermeira levantou-se e dirigiu-se para a porta. Neste momento, o
porteiro disse-me: "O que ela tem é um cancro". Não percebi o que ele
dizia, até reparar que a enfermeira trazia por debaixo dos olhos uma
ligadura que dava a volta à cabeça. No sítio do nariz, não se via nenhuma
saliência. Apenas a brancura do penso, sobre a cara.
Depois dela sair, o porteiro falou: "Vou deixá-lo sozinho". Não sei bem
que gesto fiz, mas deixou-se ficar em pé, atrás de mim. Esta presença nas
minhas costas incomodava-me. A sala estava cheia de uma bonita luz de
fim de tarde. Dois besouros zumbiam, de encontro à vidraça. E eu sentiame invadido pelo sono. Disse ao porteiro, sem me voltar para ele: "Está cá
há muito tempo?" Ele respondeu imediatamente: "Cinco anos", como se
estivesse desde sempre à espera da minha pergunta. Em seguida, pôs-se a
falar sem parar. Muito se teria espantado se alguém lhe houvesse dito, no
seu tempo, que acabaria como porteiro de um asilo, em Marengo. Tinha
sessenta e quatro anos e era parisiense. Neste momento interrompi-o:
"Ah, o senhor não é daqui?" Depois lembrei-me de que, antes de me levar
ao director, estivera a falar da minha mãe.

Dissera-me que era preciso enterrá-la depressa, porque na planície fazia
muito calor, sobretudo nesta terra. Fora então que me confiara ser de
Paris e que dificilmente o esquecia. Em Paris fica-se com o morto, às vezes
três ou quatro dias. Aqui não há tempo, mal nos habituámos à ideia e
temos logo que correr atrás do carro funerário. A mulher dele dissera-lhe
então: "Cala-te, não são coisas que se digam ao senhor". O velho corara e
desculpara-se. Eu interviera para dizer: "Não, não..." Achava o que ele
estava a dizer verdadeiro e interessante.
Na pequena morgue ele confiou-me que entrara no asilo como indigente.
Como se sentia ainda válido, oferecera-se para o lugar de porteiro.
Observei que, no fim de contas, era também um pensionista. Disse-me
que não. Tinha já reparado na forma como se referia a «eles», aos
«outros», e mais raramente aos «velhos», falando de pensionistas, alguns
dos quais não eram mais velhos do que ele. Mas não era a mesma coisa,
evidentemente. Como era porteiro tinha direitos sobre os outros, em
certa medida.
A enfermeira entrou nesta altura. A tarde caíra muito depressa. Muito
depressa, a noite escurecera, por detrás da vidraça. O porteiro manejou o
interruptor e eu fiquei por momentos cego pelo aparecimento súbito da
luz. Convidou-me para ir jantar ao refeitório. Mas eu não tinha fome.
Ofereceu-se, então, para me trazer uma chávena de café com leite. Como
gosto muito de café com leite, aceitei, e ele voltou alguns instantes depois
com uma bandeja. Bebi. Tive então vontade de fumar. Mas hesitei, porque
não sabia se o podia fazer diante da mãe. Pensei, e concluí que isso não
tinha importância nenhuma. Ofereci um cigarro ao porteiro e fumámos os
dois.
A certa altura, disse-me: "Não sei se sabia, mas os amigos da senhora sua
mãe vêm também velar. É o costume. Tenho que ir buscar cadeiras e
café." Perguntei-lhe se não se poderia apagar uma das lâmpadas. O
reflexo da luz nas paredes brancas cansava-me. Respondeu-me que não
era possível. A instalação fora assim montada: ou tudo ou nada. A partir
daí, não lhe prestei muita atenção. Saiu, voltou, arrumou as cadeiras nos
seus lugares. Numa delas, empilhou as chávenas em volta de uma
cafeteira. Depois sentou-se em frente de mim, do outro lado da mãe. A
enfermeira estava ao fundo, de costas voltadas. Não via o que ela estava a
fazer. Mas, pelo movimento dos braços, parecia-me que fazia malha.

A temperatura era agradável, o café confortara-me e pela porta aberta,
entrava um cheiro de noite e de flores. Creio que adormeci por alguns
instantes.
Acordei, porque alguém roçou por mim. Por ter fechado os olhos, a sala
pareceu-me ainda mais branca. Na minha frente não havia uma única
sombra e cada objecto, cada ângulo, todas as curvas se desenhavam com
uma pureza que me fazia mal aos olhos.
Foi nesse momento que entraram os amigos da minha mãe. Ao todo,
eram uns dez, e passavam em silêncio, nesta luz tão crua. Sentaram-se
sem que uma só cadeira rangesse. Eu via-os como nunca vira ninguém até
então e nem um pormenor das suas caras ou dos seus fatos me escapava.
Não os ouvia, no entanto, e custava-me a acreditar que tivessem
realidade. Quase todas as mulheres usavam um avental e o cordão que as
apertava na cintura, mais lhes realçava a barriga inchada. Nunca havia
notado que as barrigas das mulheres velhas eram tão grandes.
Os homens eram quase todos muito negros e traziam bengalas. O que me
impressionava nas suas fisionomias era que eu não lhes via os olhos, mas
unicamente uma luz sem brilho no meio de um ninho de rugas. Quando se
sentaram, a maioria deles olhou-me e abanou a cabeça
embaraçadamente, os beiços comidos pelas bocas desdentadas, sem que
tivesse percebido ao certo se me estavam a cumprimentar, ou se era
apenas um tique. Julgo que me , balançando as cabeças, em volta do
porteiro. Por instantes tive a impressão de que estavam ali para me julgar.
Pouco depois, uma das mulheres começou a chorar. Estava na segunda
fila, escondida pelas outras, e eu não a via muito bem. Chorava dando
pequenos gritos, regularmente: parecia-me que nunca mais pararia de
chorar. Dava a ideia que os outros não ouviam. Estavam encolhidos,
tristes e silenciosos. Olhavam o caixão, a bengala ou qualquer coisa, e não
tiravam os olhos desse único objecto. A mulher continuava a chorar. Eu
estava muito admirado porque não a conhecia. Gostaria de não a ouvir
mais. Não o ousava dizer, porém. O porteiro debruçou-se sobre ela, faloulhe, mas ela sacudiu a cabeça, disse qualquer coisa, e continuou a chorar
com a mesma regularidade. O porteiro veio então para o meu lado.
Sentou-se ao pé de mim. Ao fim de um longo momento, informou-me,
sem me olhar: "Era muito amiga da senhora sua mãe. Diz que era a única
amiga que tinha e que agora, fica sem ninguém".

Ficamos assim durante longos instantes. Os suspiros e soluços da mulher
iam-se fazendo mais raros. Por fim, calou-se.
Eu já não tinha sono, mas estava cansado e doíam-me os rins. Era o
silêncio de todas aquelas pessoas, que agora me era penoso. De tempos a
tempos, ouvia apenas um ruído estranho e não conseguia compreender
de que se tratava. Acabei por adivinhar que alguns dos velhos chupavam o
interior das bochechas, deixando escapar estes barulhos esquisitos.
Estavam tão absortos nos seus pensamentos, que nem davam por isso.
Tinha mesmo a impressão de que esta morta, ali deitada, nada significava
para eles. Mas creio agora que se tratava de uma impressão falsa.
Tomámos todos café, servido pelo porteiro. Em seguida, não sei mais
nada. A noite passou. Lembro-me de que, a certa altura, abri os olhos e
reparei que os velhos dormiam dobrados sobre si mesmos, com excepção
de um único que, de queixo encostado às costas das mãos, e com estas
agarradas à bengala, me olhava fixamente, como se estivesse à espera de
me ver acordar. Depois, voltei a adormecer. Acordei porque os rins me
doíam cada vez mais. O dia surgia pouco a pouco através da vidraça. Logo
a seguir, um dos velhos acordou e tossiu muito. Cuspia num grande lenço
de quadrados e cada um dos escarros era como que um arranque.
Acordou os outros e o porteiro disse-lhes que se deviam ir embora.
Levantaram-se.
Esta vigília incómoda tinha-lhes dado às caras uma cor de cinza. À saída, e
com grande espanto meu, vieram-me todos apertar a mão - como se esta
noite em que não havíamos trocado uma só palavra, tivesse aumentado a
nossa intimidade. Estava cansado. O porteiro levou-me ao quarto dele, e
pude lavar-me e pentear-me. Voltei a tomar café com leite, que era
óptimo. Quando saí, o dia estava completamente levantado.
Por cima das colinas que separam Marengo do mar, o céu estava cheio de
tonalidades de vermelho. E o vento, que passava por cima delas, trazia um
cheiro de sal. Era um bonito dia que se estava a preparar. Há muito tempo
que não vinha ao campo e teria tido imenso prazer em passear, se não
fosse a mãe. Mas pus-me à espera no pátio, debaixo de uma árvore.
Respirava o odor da terra fresca e já não tinha sono. Pensei nos colegas do
escritório. A esta hora levantavam-se para ir para o trabalho: para mim,
era sempre a hora mais difícil.

Pensei um pouco mais nestas coisas, mas um sino que tocava no interior
dos edifícios distraiu-me.
Houve uma confusão de movimentos por detrás das janelas, e depois tudo
se acalmou. O sol estava um pouco mais alto: principiava a aquecer-me os
pés. O porteiro atravessou o pátio e veio dizer que o director estava à
minha espera. Fui ao escritório deste. Mandou-me assinar vários
documentos. Reparei que estava vestido de preto, com calças de fantasia.
Pegou no telefone e dirigiu-me a palavra: "Os empregados da agência
funerária já cá estão. Vou-lhes dizer para fecharem o caixão. Quer ver a
sua mãe pela última vez?" Disse que não. Baixando a voz, deu uma ordem
pelo telefone: "Bigeac, diga aos homens que podem ir". Disse-me, em
seguida, que assistiria ao enterro.
Agradeci-lhe: Sentou-se por detrás da secretária e cruzou as pernas.
Informou-me que estaríamos sós, eu e ele, apenas com a presença da
enfermeira de serviço. Em princípio, os pensionistas não deviam assistir
aos enterros. Deixava-os apenas velar: "uma questão de humanidade",
observou. Mas excepcionalmente, dera autorização para seguir o préstito
a um velho amigo da minha mãe: "Tomás Perez". Aqui, o director sorriu.
Disse-me: "Não sei se compreende, é um sentimento um pouco infantil.
Mas ele e sua mãe andavam sempre juntos.
No asilo, metiam-se com eles e diziam ao Perez: "É a sua noiva". Ele ria.
Isto agradava-lhes. E o caso é que a morte da sua mãe afectou-o muito.
Achei melhor não Lhe recusar a autorização. Mas, a conselho do médico,
proibi-lhe a velada de ontem".
Ficamos calados durante bastante tempo. O director levantou-se e olhou
pela janela do escritório. A certa altura observou: "Já chegou o padre de
Marengo. Vem adiantado". Preveniu-me que são precisos pelo menos três
quartos de hora para chegar à igreja, que fica mesmo na aldeia.
Descemos.
Diante do edifício, estava o padre e dois acólitos. Um deles segurava um
turíbulo de incenso e o padre abaixava-se para regular o comprimento da
cadeia de prata. Quando chegámos, o padre levantou-se. Tratou-me por
"meu filho" e disse-me algumas palavras. Entrou e eu segui-o.
Vi de relance que os parafusos do caixão estavam apertados e que havia
na sala quatro homens vestidos de preto. Ao mesmo tempo, o director

disse-me que o carro estava à espera na estrada e ouvi o padre principiar
as suas orações.
A partir deste momento, foi tudo muito rápido. Os homens dirigiram-se
para o caixão. O padre, os dois acólitos, o director e eu, saímos. Diante da
porta, havia uma senhora que eu não conhecia: "o Sr. Meursault", disse o
director. Não escutei o nome da senhora e compreendi apenas que era
enfermeira delegada. Sem um sorriso, inclinou uma cara ossuda e
comprida. Depois, afastámo-nos para deixar passar o corpo. Seguimos os
homens e saímos do asilo. Diante da porta, estava um carro comprido e
reluzente. Ao pé do carro, estavam o mestre de cerimónias, homenzinho
vestido com um traje ridículo, e um velho com um ar embaraçado. Percebi
que era o Sr. Perez. Tinha um chapéu mole, de copa arredondada e abas
largas (tirou-o da cabeça quando o caixão atravessou a porta), um fato
cujas calças caíam sobre os sapatos e uma gravata preta, pequena demais,
para a sua camisa com um grande colarinho branco. Os beiços tremiamlhe, por debaixo de um nariz semeado de pontos negros. Os cabelos
brancos, bastante finos, deixavam-lhe passar umas curiosas orelhas
balouçantes e mal acabadas, cuja cor de um vermelho sanguíneo nesta
cara tão pálida, me impressionou.
O mestre de cerimónias indicou-nos os nossos lugares. O padre ia à frente
do carro. Em volta deste, os quatro homens. Atrás, o director e eu;
fechando o cortejo, a enfermeira delegada e o Sr. Perez.
O céu estava já cheio de sol. Começava a pesar sobre a terra e o calor
aumentava rapidamente: Não sei por que motivo esperámos tanto tempo
antes de principiarmos a andar. Tinha calor, com o meu fato escuro. O
velhinho que voltara a cobrir a cabeça, tirou outra vez o chapéu. Voltarame um pouco para o lado dele e olhava-o, quando o director o trouxe à
conversa. Disse-me que, muitas vezes, a minha mãe e o Sr. Perez iam
passear à noite até à aldeia, acompanhados por uma enfermeira. Eu
olhava os campos em meu redor. Através das linhas de ciprestes que
levavam às colinas perto do céu, desta terra ruiva e verde, destas casas
raras e bem desenhadas, eu compreendia a minha mãe. A noite, neste
sítio, devia ser como que um melancólico período de tréguas.
Hoje, o sol excessivo que fazia estremecer a paisagem, tornava-a
deprimente e inumana.

Iniciámos o caminho. Reparei então que o Sr. Perez coxeava ligeiramente.
Pouco a pouco, o carro ia mais depressa e o velho perdia terreno: Um dos
homens que rodeava o carro também se deixou ultrapassar e seguia agora
ao meu nível. Eu estava admirado pela rapidez com que o sol subia no
horizonte. Dei por que o ar era há muito cruzado pelo canto dos insectos e
pelos estalidos das ervas. O suor caía-me pela cara abaixo.
Como não trazia chapéu, limpava-me com um lenço. O empregado da
agência disse-me então qualquer coisa que não ouvi. Enquanto, com a
mão esquerda, limpava a testa com um lenço, com a mão direita
levantava a pala do boné. Disse-lhe: "O quê?" Ele repetiu, apontando para
o céu: "Está forte". Eu disse: "Sim". Pouco depois, perguntou-me: "É a sua
mãe, quem ali vai?" Voltei a dizer: "Sim". "Era muito velha?" Respondi:
"Assim, assim", porque não sabia ao certo quantos anos tinha. O homem
calou-se. Voltei-me e vi o velho Perez uns cinquenta metros atrás de nós.
Com o chapéu na mão, apressava-se o mais que podia: Olhei também para
o director. Andava com muita dignidade, sem gestos inúteis. Algumas
gotas de suor escorriam-lhe pela testa, mas não as enxugava.
Parecia-me que o cortejo ia um pouco mais depressa. Em volta de mim,
era sempre a mesma paisagem luminosa, inundada de sol. O brilho do céu
era insustentável. Em dado momento, passámos por um troço de estrada
que havia sido arranjado há pouco. O sol derretia o alcatrão. Os pés
enterravam-se, deixando aberta a carne luzidia do alcatrão. Por cima do
carro, o chapéu do cocheiro, de couro escuro, parecia ter sido moldado na
mesma lama negra. Sentia-me um pouco perdido entre o céu azul e
branco e a monotonia destas cores, negro pegajoso do alcatrão aberto,
negro baço dos fatos, negro lacado do carro. Tudo isto, o sol, o cheiro de
borracha e de óleo do automóvel, o do verniz e o do incenso, o cansaço de
uma noite de insónia, me perturbava o olhar e as ideias. Voltei-me uma
vez mais: o velho Perez apareceu-me muito ao longe, perdido numa
nuvem de calor, e depois não o tornei a ver. Procurei-o com o olhar e vi
que abandonara a estrada e metera pelos campos dentro. Reparei que, na
minha frente, a estrada virava para um lado. Compreendi que o Perez,
conhecendo a terra, cortava a direito para nos apanhar. Na curva,
conseguira juntar-se connosco.
Em seguida voltámos a perdê-lo. Tomou ainda vários atalhos através dos
campos. Quanto a mim, sentia o sangue latejar-me nas fontes.

Depois tudo se passou com tanta rapidez, tanta certeza, tanta
naturalidade, que já não me lembro de nada. Uma coisa, apenas: à
entrada da aldeia, a enfermeira delegada falou-me.
Possuía uma voz singular, que não acertava com a cara, uma voz trémula e
melodiosa. Disse-me: "Se vamos muito devagar, arriscamo-nos a uma
insolação. Mas se vamos muito depressa, transpiramos e na igreja
apanhamos calor e frio". Tinha razão. Era um beco sem saída. Conservei
ainda algumas imagens deste dia: por exemplo, a cara do Perez quando,
pela última vez, se juntou connosco próximo da aldeia. Grossas lágrimas
de enervamento e de tristeza corriam-lhe pela cara abaixo. Mas, por causa
das rugas, não caíam. Dividiam-se, juntavam-se e formavam uma máscara
de água nessa cara arruinada. Houve ainda a igreja e os aldeões nos
passeios, os gerânios vermelhos nos jazigos do cemitério, o desmaio do
Perez (dir-se-ia um boneco partido), a terra cor de sangue que atiravam
para cima do caixão da mãe, a carne branca das raízes que se lhes
juntavam, ainda mais gente, vozes, a aldeia, a espera diante de um café, o
incessante roncar do motor, e a minha alegria quando o autocarro entrou
no ninho de luzes de Argel e que pensei que me ia deitar e dormir durante
doze horas.

II
Ao acordar, compreendi por que motivo o meu chefe mostrara um ar
aborrecido quando lhe pedi os dois dias de licença: hoje era sábado. tinhao, por assim dizer, esquecido, mas ao levantar-me, esta ideia viera-me à
cabeça. O chefe, muito naturalmente, pensou que eu disporia assim de
quatro dias de feriado contando com o domingo, e isso não Lhe podia dar
prazer de espécie nenhuma. Mas por um lado não é culpa minha, se o
enterro foi ontem em vez de ser hoje, e por outro lado, teria tido de
qualquer maneira o sábado e o domingo livres. Isto não me impede, é
claro, de compreender.
Custou-me a levantar, pois estava cansado do dia de ontem. Enquanto
fazia a barba, perguntei a mim mesmo o que iria fazer e decidi ir tomar um
banho de mar. Tomei um eléctrico e dirigi-me para o estabelecimento de
banhos do porto. Uma vez aí, mergulhei para a água. Havia muitos rapazes
e raparigas. Encontrei na água a Maria Cardona, uma antiga dactilógrafa
do escritório, que eu desejara em tempos. Ela também, julgo eu. Mas
despediu-se pouco depois e não tivemos tempo.
Ajudei-a a subir para uma bóia e, neste movimento, toquei-lhe nos seios.
Estava eu ainda na água, e já ela se estendia na bóia de barriga para o ar.
Voltou-se para mim. Tinha os cabelos a caírem-lhe para os olhos e sorria.
Subi para o lado dela. Estava um dia óptimo e, como de brincadeira, deixei
cair a cabeça para trás, e descansei-a em cima dela. Não disse nada e eu
deixei-me ficar assim: Tinha o céu inteiro nos olhos, e o céu estava azul e
dourado. Debaixo da cabeça, sentia o corpo de Maria latejar suavemente.
Ficámos muito tempo na bóia, meio adormecidos. Quando o sol se tornou
forte de mais, ela mergulhou e eu também. Agarrei-a, passei-lhe um braço
em volta da cintura e nadámos os dois juntos. Ela ria muito.
No cais, enquanto nos secávamos, disse-me: "Estou mais queimada do
que você". Perguntei-lhe se queria vir comigo à noite ao cinema. Voltou a
rir e disse que tinha vontade de ver um filme com o Fernandel. Depois de
vestidos, ficou admirada de me ver com uma gravata preta e perguntoume se eu estava de luto. Disse-lhe que a minha mãe tinha morrido. Como
queria saber há quanto tempo, respondi-lhe: "Morreu ontem". Esboçou

um movimento de recuo, mas não fez nenhuma observação. Tive vontade
de lhe dizer que a culpa não fora minha, mas detive-me porque me
pareceu já ter dito isso mesmo ao meu chefe. Isto nada queria dizer. De
qualquer modo, fica-se sempre com um ar um pouco culpado.
À noite, Maria esquecera-se de tudo. O filme tinha momentos engraçados
e outros realmente idiotas. Encostava a minha perna à dela. Acariciava-lhe
os seios. Para o fim do espectáculo beijei-a, mas mal. À saída, veio a minha
casa.
Quando acordei fora-se já embora. Explicara-me que tinha de ir visitar
uma tia. Pensei que era domingo, o que me aborreceu: não gosto dos
Domingos. Então voltei-me na cama, procurei na almofada o cheiro de sal
que os cabelos de Maria ali tinham deixado e dormi até às dez horas:
Fumei depois alguns cigarros, sem me levantar, até ao meio-dia. Não
queria ir como de costume almoçar ao Celeste porque me fariam com
certeza perguntas e eu detesto que me façam perguntas. Cozi eu próprio
uns ovos e comi-os assim mesmo, sem pão porque já não havia nenhum e
porque não queria descer para o ir comprar.
Depois do almoço aborreci-me um pouco, e vagueei pela casa. Quando a
mãe cá estava, era cómoda. Agora é grande demais para mim e tive que
transportar a mesa da sala de jantar para o quarto.
Vivo apenas nesta divisão, rodeado pelas cadeiras de palha um pouco
gastas, pelo armário cujo espelho está amarelecido, pela cómoda e pela
cama encerada. Mais tarde, para fazer alguma coisa, peguei num velho
jornal e pus-me a ler. Recortei um anúncio de sais de Kruschen e colei-o
num velho caderno onde guardo as coisas que me divertem nos jornais.
Lavei também as mãos e, por fim, fui para a varanda.
O meu quarto dá para a rua principal do bairro. A tarde estava bonita. No
entanto, o pavimento estava pastoso, as pessoas eram poucas e, para
mais, iam com pressa. Passavam primeiro famílias de passeio, dois miúdos
de fato à marujo, com calções até ao joelho, um pouco embaraçados nos
seus trajes de ver-a-Deus, uma rapariguinha com um grande laçarote corde-rosa e sapatos pretos envernizados. Atrás deles, uma mãe enorme,
com um vestido de seda castanho, e o pai, um homenzinho franzino que
eu conheço de vista. Trazia um chapéu de palha, um lacinho e uma
bengala na mão. Vendo-o com a mulher, percebi porque é que, no bairro,
se dizia que era uma pessoa distinta. Um pouco mais tarde, passaram

rapazes do bairro, cabelos penteados com fixador, gravata vermelha,
casaco muito cintado, com uma algibeira bordada e sapatos de ponta
quadrada. Pensei que iam a um dos cinemas da baixa. Por isso é que
partiam tão cedo, rindo tanto e correndo para o eléctrico. Depois deles, a
rua ficou pouco a pouco deserta. Os espectáculos, julgo eu, tinham
principiado em toda a parte. Só se viam na rua os comerciantes e os gatos.
O céu estava puro, mas sem brilho, por cima das árvores ao longo da rua.
No passeio da frente, o vendedor de tabaco tirou uma cadeira, instalou-a
diante da porta e pôs-se a cavalo nela, com os dois braços nas costas. Os
eléctricos, há pouco cheios, iam quase vazios. No pequeno café "Pierrot"
ao lado da tabacaria, o criado varria a serradura na sala deserta. Era
realmente domingo. Peguei na minha cadeira e coloquei-a como a do
vendedor de tabaco porque me pareceu muito mais cómodo. Fumei dois
cigarros, entrei para ir buscar um bocado de chocolate e voltei para o
comer à janela. Pouco depois o céu escureceu e julguei que íamos ter uma
chuvada de Verão. Pouco a pouco, no entanto, o céu foi-se descobrindo.
Mas a passagem das nuvens deixara na rua como que uma promessa de
chuva que a tornara mais sombria. Fiquei ali muito tempo, a olhar para o
céu. Às cinco horas, os eléctricos chegaram ruidosamente. Traziam do
estádio cachos de espectadores pendurados nos degraus e nas pegas das
portas. Os eléctricos seguintes transportavam os jogadores, que reconheci
pelas malinhas que traziam na mão. Gritavam e cantavam aos berros que
o seu clube era o melhor. Muitos deles fizeram-me sinais. Um deles,
gritou-me mesmo: "Demos cabo deles!" E, sacudindo a cabeça, eu disse:
"Sim, sim". A partir deste momento, os automóveis começaram a afluir. O
dia mudou ainda um pouco. Por cima dos tectos, o céu tornou-se
avermelhado e, com o nascer da noite, as ruas ganharam animação. Os
mesmos transeuntes foram voltando pouco a pouco. Reconheci o senhor
distinto no meio dos outros. As crianças choravam ou deixavam-se
arrastar: Quase imediatamente, os cinemas do bairro despejaram para a
rua uma onda de espectadores. Entre eles, os rapazes de há pouco tinham
gestos mais decididos do que o costume e eu calculei que haviam visto um
filme de aventuras. Os que regressavam dos cinemas da cidade chegaram
um pouco mais tarde. Pareciam mais sérios. Ainda riam, mas de tempos a
tempos. Tinham um ar cansado e pensativo. Deixaram-se ficar na rua,
dando de um lado para o outro no passeio do lado de lá. As raparigas do
bairro, de cabelos soltos, passeavam de braço dado. Os rapazes passavam
por elas e dirigiam-lhes gracejos, elas riam-se e voltavam a cabeça para o
lado. Algumas, minhas conhecidas, acenaram-me com a mão.

Os candeeiros da rua acenderam-se bruscamente e empalideceram as
primeiras estrelas que subiam na noite. Senti os olhos fatigados, de tanto
olhar os passeios, com o seu carregamento de homens e de luzes. As
lâmpadas tornaram os pavimentos luzidios, e os eléctricos, a intervalos
regulares, lançaram os seus reflexos sobre uns cabelos brilhantes, um
sorriso ou uma pulseira de prata. Pouco depois, os eléctricos fizeram-se
mais raros, a noite escureceu por sobre as árvores e os candeeiros, e o
bairro esvaziou-se insensivelmente, até à altura em que o primeiro gato
atravessou lentamente a rua outra vez deserta. Pensei então que era
preciso jantar. Doía-me um bocadinho o pescoço por ter ficado tanto
tempo apoiado sobre as costas da cadeira. Fui à rua comprar pão e
pastéis, cozinhei eu mesmo o que tinha em casa e comi em pé. Quis fumar
outro cigarro à janela, mas o ar tinha refrescado e eu estava com um
pouco de frio. Fechei os vidros e, à volta, vi no espelho um bocado da
mesa onde a lâmpada de álcool estava junto a uns pedaços de pão. Pensei
que passara mais um domingo, que a mãe já fora a enterrar, que ia
regressar ao meu trabalho e que, no fim de contas, continuava tudo na
mesma.

III
Hoje trabalhei muito, no escritório. O chefe foi amável. Perguntou-me se
eu não estava cansado e quis saber a idade da mãe. Para não me enganar,
respondi "Uns sessenta e tal", e, não sei porquê, ficou com um ar aliviado,
um ar de "assunto arrumado". Havia imensas cartas a responder,
amontoadas sobre a minha secretária e tive que lhes dar seguimento.
Antes de deixar o escritório para ir almoçar, lavei as mãos. Ao meio-dia,
gosto sempre de o fazer, à tarde, não tanto, porque a toalha rolante já
está muito húmida: serviu durante todo o dia. Uma vez fiz esta mesma
observação ao chefe. Respondeu-me que era aborrecido, mas que se
tratava de um pormenor sem importância. Saí um pouco mais tarde, ao
meio-dia e meia hora, com o Manuel, que trabalha na expedição. O
escritório dá para o mar e perdemos alguns instantes a olhar para os
barcos de carga, no porto ardente de sol. Neste momento passou um
camião, fazendo um enorme barulho de correntes e de explosões. O
Manuel perguntou-me "se aproveitávamos" e eu comecei a correr. O
camião ultrapassou-nos e lançámo-nos a toda a velocidade atrás dele.
Sentia-me inundado de poeira e de ruído. Não via nada e sentia apenas
este impulso desordenado da corrida, no meio de guindastes e de
máquinas, de mastros que dançavam no horizonte e de cascos de navios.
Fui o primeiro a agarrar-me e atirei-me num salto. Depois, ajudei o
Manuel a sentar-se. Estávamos sem fôlego, o camião ia aos saltos no
pavimento irregular do cais, por entre a poeira e o sol. O Manuel ria-se a
bandeiras despregadas. Chegámos todos suados ao restaurante do
Celeste, que lá estava como sempre, com a sua barriga gorda, o seu
avental e os seus bigodes brancos. Perguntou-me "se eu me sentia bem".
Disse-lhe que sim e que estava com fome. Comi muito depressa e tomei
um café. Depois voltei para casa, dormi um bocado porque bebera vinho
demais e, ao acordar, tive vontade de fumar.
Fazia-se tarde e corri para apanhar um eléctrico. Trabalhei toda a tarde.
Fazia muito calor no escritório e à tarde, à saída, gostei de passear
lentamente ao longo do cais. O céu estava verde e eu sentia-me contente.
Mas apesar disso fui directamente para casa, pois queria cozer umas
batatas. Ao subir, na escada escura, choquei com o velho Salamano, meu
vizinho de andar. Ia com o cão. Há oito anos que não se largam. O rafeiro

tem uma doença de pele que lhe fez cair todo o pêlo e que o cobre de
manchas e de crostas. À força de viver com ele, os dois sozinhos num
pequeno quarto, o velho Salamano acabou por ficar parecido com o cão.
Quanto ao cão, tomou do dono uma espécie de ar curvado, focinho para a
frente e pescoço estendido. Parecem da mesma raça, e no entanto
detestam-se. Duas vezes por dia, às onze e às seis horas, o velho leva o
cão a passear. Fazem há oito anos o mesmo itinerário. Seguem ao longo
da rua de Lyon, o cão a puxar pelo homem até o fazer tropeçar. Põe-se
então a bater no bicho e a insultá-lo. O cão roja-se cheio de medo e deixase arrastar. Nesse momento é o velho quem tem que puxar. Quando o cão
se esquece, põe-se outra vez a puxar e é outra vez espancado e insultado.
Ficam então os dois no passeio e olham-se, o cão com terror, o homem
com ódio. É assim todos os dias. Quando o cão quer fazer as suas
necessidades, o velho não lhe dá tempo e arrasta-o: Se por acaso o cão
"faz" no quarto, também lhe bate. Isto dura há oito anos. O Celeste diz
que "é uma pena", mas no fundo ninguém pode saber. Quando encontrei
o Salamano nas escadas, ia a insultar o cão: "Bandido! Cão nojento!" Eu
disse: "Boas noites", mas o velho continuava a insultá-lo: Perguntei-lhe o
que é que o cão tinha feito. Não me respondeu. Dizia apenas: "Bandido!
Cão nojento!". Percebi que, debruçado sobre o animal, estava a arranjar
qualquer coisa na coleira. Falei mais alto. Então, sem se voltar para trás,
respondeu-me com uma espécie de raiva reprimida: "Está sempre aqui!".
Depois foi-se embora puxando pelo cão, que chorava e se deixava
arrastar.
Neste instante preciso, entrou o meu segundo vizinho de andar. No bairro,
corre o boato que vive à custa das mulheres. Mas quando lhe perguntam
qual é o emprego que tem, responde que é "lojista". Em geral, não gostam
dele. Mas fala muitas vezes comigo e às vezes entra em minha casa,
porque sou dos poucos que o escutam. Acho que diz coisas com muito
interesse. Aliás, não tenho nenhum motivo para não lhe falar. Chama-se
Raimundo Sintès. É baixo, com uns ombros largos e um nariz de pugilista.
Anda sempre vestido muito correctamente. Também ele diz, ao falar do
Salamano: "uma pena!" Perguntou-me se aquilo não me incomodava e eu
respondi-lhe que não. Subimos e eu ia deixá-lo, quando me disse: "Tenho
lá em casa vinho e chouriço. Não quer vir petiscá-lo comigo?" Pensei que
isso me evitaria ter que fazer o jantar e aceitei. A casa dele compõe-se
apenas de um quarto e de uma cozinha sem janela. Por cima da cama,
vêem-se um anjo de estuque, branco e cor-de-rosa, retratos de campeões
e duas ou três fotografias de mulheres nuas. O quarto estava sujo. e a
cama por fazer. Primeiro, acendeu a lâmpada de petróleo, depois colocou

na mão direita uma ligadura pouco limpa. Perguntei-lhe o que é que tinha
na mão. Respondeu-me que jogara à pancada na rua com um tipo que se
metera com ele. - "Não sei se sabe, senhor Meursault, disse, não é que eu
seja mau, o que sou é nervoso. O outro disse-me: "Se és homem, desce do
eléctrico". Respondi-lhe: "Vá, sossega, tem calma". Disse-me que eu não
era um homem. Então desci e disse-lhe: "É melhor que te cales, ou partote a cara". Respondeu-me: "Sempre queria ver". Então dei-lhe um soco.
Caiu. Quando eu o ia a ajudar a levantar, começou do chão a dar-me
pontapés. Então dei-lhe uma joelhada e dois "bicanços". Tinha a cara
cheia de sangue. Perguntei-lhe se queria mais. Disse que não." Entretanto,
Sintès ia enrolando a ligadura. Eu estava sentado na cama. Disse-me:
"Como vê, não fui eu que comecei. Ele é que quis". Reconheci que era
verdade. Declarou-me então que, justamente, queria pedir-me um
conselho a propósito deste assunto, que eu sim, era um homem, que
conhecia a vida, que podia ajudá-lo e que, em seguida, ficaria meu amigo.
Não respondi e ele perguntou-me se eu queria ser amigo dele. Repliquei
que tanto me fazia: ele ficou com um ar contente. Tirou o chouriço de um
armário, assou-o no fogão, e pôs em cima da mesa copos, pratos, talheres
e duas garrafas de vinho. Tudo isto sem dizer uma palavra. Depois
instalámo-nos. Enquanto comia, começou a contar-me a história toda. Ao
princípio, hesitava um bocadinho. "Conheci uma senhora... Essa senhora...
era minha... amante, por assim dizer..." O homem com quem lutara era
irmão dessa mulher. Disse-me que a tivera por sua conta. Não respondi
nada, mas ele sentiu-se na necessidade de acrescentar imediatamente
que sabia muito bem os boatos que corriam no bairro, mas que só
respondia perante a sua consciência, e que tinha a profissão de lojista.
"Voltando ao assunto, disse ele, a certa altura percebi que qualquer coisa
não jogava certo". Dava-lhe dinheiro suficiente para viver. Pagava-lhe
mesmo o quarto e ainda vinte francos por dia para alimentação.
"Trezentos francos para o quarto, seiscentos francos para a comida, um
par de meias de vez em quando, eram bem uns mil francos por mês." E
Sua Excelência não trabalhava!
Mas dizia-me que era pouco, que o que eu lhe dava não era suficiente. E
no entanto, eu dizia-lhe: "Porque é que não arranjas um trabalho, nem
que seja por meio-dia? Já me aliviavas um bocado. Este mês comprei-te
um vestido, dou-te vinte francos por dia, pago-te a renda e tu, passas as
tardes a tomar café com as amigas. Dás-lhes o café e o açúcar. Portei-me
bem contigo e tu não me pagas na mesma moeda". Mas ela não
trabalhava, dizia que não era capaz e foi assim que percebi que me andava
a enganar." Contou-me que lhe encontrara dentro da carteira um bilhete

de lotaria e que ela não soubera explicar como arranjara dinheiro para o
comprar. Mais tarde, encontrara-lhe uma senha de casa de penhores,
provando que empenhara duas pulseiras. Até aí, ignorara a existência
dessas pulseiras. "Percebi perfeitamente que aqui andava gato. Então
abandonei-a. Mas primeiro cheguei-lhe. E disse-lhe meia dúzia de
verdades. Disse-lhe que o que ela queria, era divertir-se. E disse-lhe
também, Sr. Meursault: "Não vês que todos têm inveja da felicidade que
te dou? Ainda acabarás por ter saudades da felicidade que tinhas..."
Espancara-a até a deixar cheia de sangue. Antes disso, não lhe batia. "Ou
por outra batia-lhe, mas ternamente, por assim dizer. Chorava um
bocadinho. Eu fechava as persianas e o caso terminava como sempre. Mas
agora, foi a sério. E quanto a mim, ainda não a castiguei bastante".
Explicou-me nesta altura que era por isto que precisava de um conselho.
Calou-se para regular a torcida do candeeiro. Eu continuava a ouvi-lo.
Bebera quase um litro de vinho e sentia muito calor nas fontes. Como os
meus se haviam acabado, fumava os cigarros do Raimundo. Passavam na
rua os últimos eléctricos, levando com eles os ruídos agora longínquos do
bairro. Raimundo continuou a falar. O que o aborrecia, "era ainda sentir
necessidade física dela". Mas queria castigá-la. Primeiro pensara levá-la
para um hotel e chamar a polícia de costumes para provocar um
escândalo e ser-lhe passada uma carta de profissional. Depois, dirigira-se a
uns amigos que pertenciam a um meio duvidoso. Estes não tinham tido
nenhuma ideia. E, como me sublinhava Raimundo, valia realmente a pena
serem desse meio, para nem ideias terem! Dissera-lhes isso mesmo e eles
tinham-lhe então proposto "marcá-la". Mas não era ainda o que ele
queria. Precisava de pensar muito. Mas antes, queria perguntar-me uma
coisa. De resto, antes de mo perguntar, queria saber o que eu pensava
desta história toda. Respondi que não pensava nada, mas que era muito
interessante. Perguntou-me se eu achava que ela o tinha enganado. A
mim, parecia-me bem que sim. Se achava que ele a devia castigar e o que
faria eu, se estivesse no seu lugar. Disse-lhe que nunca se podia saber,
mas compreendia que ele a quisesse castigar. Bebi ainda um pouco de
vinho. Ele acendeu um cigarro e contou-me a ideia que tinha em mente.
Queria escrever-lhe uma carta "dando uma no cravo e outra na
ferradura". Depois quando ela voltasse, teria relações com ela, como
habitualmente e, "mesmo no fim", cuspir-lhe-ia na cara, e pô-la-ia na rua.
Achei que, efectivamente, seria um bom castigo. Em seguida disse-me que
não se sentia capaz de escrever a carta e que pensara em mim para a
redigir. Como eu não dizia nada, perguntou-me se me importava de o
fazer agora mesmo e eu respondi que não.

Depois de beber um copo de vinho, Raimundo levantou-se. Afastou os
pratos e os restos de chouriço frio que tínhamos deixado. Limpou
cuidadosamente a toalha encerada da mesa. Tirou de uma gaveta da mesa
de cabeceira uma folha de papel quadriculado, um sobrescrito amarelo,
uma pequena caneta vermelha e um tinteiro quadrado de tinta roxa.
Quando me disse o nome da mulher, percebi que era Moura. Escrevi a
carta. Escrevi-a um pouco ao acaso, mas apliquei-me o mais possível para
contentar Raimundo, pois não tinha razão nenhuma para não o contentar.
Depois li a carta em voz alta. Escutou-me a fumar, acenando com a
cabeça, e em seguida pediu-me para a reler. Disse: "Já calculava que tu
conhecias bem a vida". Não percebi a princípio que me estava a tratar por
tu. Só dei por isso, quando me declarou: "Agora, ficas meu amigo".
Repetiu a frase e eu respondi: "Está bem".
Era-me indiferente ser ou não amigo dele e, como isso parecia dar-lhe
gosto... Fechou o sobrescrito e acabámos o vinho que ainda havia. Depois
ficámos uns momentos a fumar, sem dizer uma palavra. Lá fora tudo
estava calmo e ouvimos o ruído de um automóvel que passava. Eu disse:
"É tarde". Raimundo era da mesma opinião. Observou que o tempo
passava depressa e, em certo sentido, era verdade. Estava com sono, mas
custava-me levantar-me. Devia estar com um ar cansado, porque o
Raimundo me disse que devia ter mão em mim. Ao princípio, não
compreendi. Explicou-me então que soubera da morte da minha mãe, mas
que era uma coisa que, mais dia, menos dia, tinha que acontecer. Era essa,
também, a minha opinião.
Levantei-me e Raimundo deu-me um forte aperto de mão, dizendo que
entre homens, compreendíamo-nos sempre. Ao sair de casa dele fechei a
porta e fiquei uns instantes às escuras, no patamar. A casa estava calma e
das profundezas da gaiola das escadas, subia um sopro húmido e obscuro.
Ouvia apenas o sangue latejando-me nos ouvidos e deixei-me ali ficar,
imóvel. Mas no quarto do velho Salamano, o cão gemeu surdamente. No
coração desta casa cheia de sonos, o queixume subiu lentamente, como
uma flor nascida do silêncio.

IV
Trabalhei muito, durante toda a semana. Raimundo veio visitar-me,
dizendo que mandara a carta. Fui duas vezes ao cinema com o Manuel,
que nem sempre compreende lá muito bem o que se passa na tela.
Preciso de lhe ir explicando o filme. Ontem foi sábado e, como ficara
combinado, a Maria veio a minha casa. Desejei-a intensamente, porque
trazia um vestido às riscas brancas e encarnadas e sandálias de couro.
Adivinhavam-se-lhe os seios duros e o queimado do sol dava-lhe uma cara
de flor.
Tomámos um autocarro e fomos para uma praia cercada de rochedos e
com canteiros de rosas do lado da terra, a alguns quilómetros de Argel. O
sol às quatro horas não estava quente demais, mas a água estava morna,
com pequenas ondas longas e preguiçosas. Maria ensinou-me um jogo.
Era preciso, nadando, beber à cresta das ondas, acumular toda a espuma
na boca e, pondo-nos em seguida de costas, projectá-la para o céu. Isto
fazia uma espécie de renda espumosa que desaparecia no ar ou, como
uma chuva quente, nos caía na cara. Mas ao fim de algum tempo, tinha a
boca a arder devido ao sal. Maria veio então ter comigo e colou-se a mim,
na água. Beijámo-nos. A língua dela refrescava-me os beiços e rolámos
durante alguns momentos nas vagas.
Quando nos vestimos na praia, Maria olhava-me com olhos brilhantes.
Voltei a beijá-la. A partir daí, não falámos mais. Apertei-a contra mim e só
queríamos apanhar depressa um autocarro, ir para minha casa e
deitarmo-nos na minha cama. Deixei a janela aberta, e era bom, sentir
aquela noite de verão escorregar ao longo dos nossos corpos morenos.
Esta manhã, Maria ficou comigo e combinámos almoçar juntos. Desci à
rua para ir comprar carne. Ao voltar, ouvi uma voz de mulher no quarto de
Raimundo. Pouco depois, o velho Salamano ralhou com o cão, ouvimos
um barulho de botas e de patas nos degraus de madeira da escada e
depois: "Bandido, cão nojento", saíram para a rua. Contei-lhe a história do
velho e ela riu-se. Vestira um dos meus pijamas e estava de mangas
arregaçadas. Quando se riu, voltei a sentir desejo por ela. Instantes
depois, perguntou-me se eu a amava. Respondi-lhe que não queria dizer
nada, mas que me parecia que não: Ficou com um ar triste. Mas, ao

preparar o almoço, e sem que viesse a propósito, voltou a rir-se de tal
forma, que a beijei outra vez. Foi neste momento que rebentou a
discussão em casa do Raimundo. Ouviu-se primeiro uma voz estridente de
mulher e depois a de Raimundo, dizendo: "Enganaste-me, enganaste-me.
Agora é que eu te vou ensinar..." Uns ruídos surdos e a mulher pôs-se a
berrar, mas de uma maneira tão horrível, que o átrio se encheu de gente.
A mulher continuava a gritar e Raimundo continuava a bater-lhe. Maria
disse-me que era terrível e eu não respondi.
Pediu-me para ir chamar um polícia, mas eu respondi-lhe que não gostava
dos polícias. Mas o meu vizinho do segundo andar, que é canalizador,
encarregou-se de ir buscar um. Este bateu à porta de Raimundo e não se
ouviu mais nada. Bateu com mais força e, ao fim de alguns instantes, a
mulher chorou e Raimundo abriu. Tinha um cigarro na boca e um ar
melífluo. A mulher precipitou-se para a porta e declarou ao polícia que
Raimundo lhe tinha batido. "O teu nome", disse o polícia. Raimundo
respondeu-lhe. "Tira o cigarro da boca enquanto me estás a falar", disse o
polícia. Raimundo hesitou, olhou para mim e ficou com o cigarro na boca.
Neste momento, o polícia deu-lhe uma bofetada com toda a força, em
plena cara. O cigarro foi cair alguns metros mais adiante. Raimundo
mudou de expressão, mas não disse nada, até que perguntou com uma
voz humilde se podia ir apanhar o cigarro. O agente declarou que sim e
acrescentou: "Mas ficas a saber que um polícia, não é nenhum fantoche".
Entretanto a rapariga chorava, repetindo: "Ele bateu-me, é um malandro".
"Sr. Guarda, perguntou, Raimundo então, é da lei, chamar malandro a um
homem?" Mas o polícia mandou-lhe que "calasse o bico".
Raimundo voltou-se para a mulher e disse: "Não perdes pela demora,
pequena, está descansada." O polícia disse-lhe que se calasse, que a
mulher tinha que se ir embora e que ele ficasse no quarto até receber
convocação do comissariado. Acrescentou que Raimundo devia ter
vergonha de estar bêbedo ao ponto de todo ele tremer. Raimundo
explicou: "Não estou bêbedo, Sr. guarda. Mas diante de si, não posso
deixar de tremer". Fechou a porta e todos se foram embora. Maria e eu
acabámos de preparar o nosso almoço. Como ela não estava com fome,
comi quase tudo. Saiu à uma hora e ainda dormi um bocado.
Pelas três horas bateram à porta e Raimundo entrou. Deixei-me ficar
deitado. Sentou-se na borda da cama. Ficou uns instantes sem falar e eu
perguntei-lhe como é que o caso se tinha passado. Contou-me que fizera o
que fora planeado, mas que ela lhe dera uma bofetada e que então

começara a bater-lhe. Quanto ao resto, eu tinha-o visto com os meus
próprios olhos. Disse-lhe que me parecia que, agora que ela estava
castigada, já podia estar contente. Era também a opinião dele, e observou
ainda que, por mais que a polícia fizesse, já ninguém lhe tirava a pancada
que recebera. Acrescentou que conhecia os polícias e sabia perfeitamente
como se deve lidar com eles. Perguntou-me então se eu julgara que ele ia
responder à bofetada do polícia. Respondi-lhe que não julgara
absolutamente nada e que, aliás, não gostava dos polícias. Raimundo
pareceu ficar muito contente. Perguntou-me se queria sair com ele.
Levantei-me e comecei-me a pentear. Disse que era preciso que eu
servisse de testemunha. A mim, tanto se me dava, mas não sabia o que
havia de dizer. Na opinião de Raimundo, bastava declarar que a mulher o
enganara. Aceitei ser testemunha.
Saímos e Raimundo ofereceu-me um copo de aguardente. Depois quis
jogar uma partida de bilhar e ganhou-me por pouco. A seguir, queria ir a
um bordel, mas eu disse que não, porque não tinha vontade. Então
voltámos lentamente para casa e ele voltou a dizer até que ponto se
sentia contente por ter conseguido castigar a amante. Achei-o muito
simpático comigo e pensei que era um momento bem agradável.
Distingui ao longe, na soleira da porta, o velho Salamano com um ar
agitado. Quando nos aproximámos, reparei que não estava com o cão.
Olhava para todos os lados, dava voltas sobre si mesmo, tentava penetrar
com os olhos na escuridão do corredor, resmungava palavras sem nexo e
recomeçava a observar a rua com os seus pequenos olhos avermelhados.
Quando Raimundo lhe perguntou o que se passava, não respondeu logo a
seguir. Ouvi-o vagamente murmurar: "Bandido, cão nojento", e continuou
a agitar-se. Perguntei-lhe onde estava o cão. Respondeu-me bruscamente
que se fora embora. E depois, de repente, pôs-se a falar muito: "Levei-o
como de costume ao Campo das Manobras. Em volta das barracas da
feira, havia muita gente. Parei um bocado para olhar «o Rei da Evasão». E
quando me quis ir embora, não o vi. Há muito tempo que lhe queria
comprar uma coleira mais pequena. Mas nunca pensei que esse cão
nojento fugisse desta maneira". Raimundo explicou-lhe então que o cão
possivelmente se perdera e que havia de voltar. Citou-lhe vários exemplos
de cães que tinham percorrido dezenas de quilómetros para encontrar os
donos. Apesar disso, o velho estava cada vez mais agitado. "Vão apanhálo, com certeza. Ainda, se alguém o recolhesse... Mas não! Com aquelas
feridas, enoja toda a gente. A carroça leva-o, tenho a certeza". Eu disselhe então que se dirigisse à Câmara e que lho devolviam, caso pagasse o

imposto. Perguntou-me se este imposto era muito caro: Eu não sabia.
Neste momento, encolerizou-se: "Dar dinheiro por aquele cão nojento?!
Ele que rebente para aí!" E pôs-se a insultá-lo. Raimundo riu e entrou em
casa. Segui-o, e despedimo-nos à porta dos nossos quartos. Pouco depois
ouvi os passos do velho e bateram à porta. Fui abrir e ele ficou uns
instantes a olhar para mim. Disse: - "Desculpe, desculpe". Convidei-o a
entrar, mas ele não quis. Olhava para as pontas dos pés e tremiam-lhe as
mãos. Olhando para o lado, perguntou: "Não o vão apanhar, pois não, Sr.
Meursault? Vão-mo dar outra vez, não vão? O que vai ser de mim?! O que
vai ser de mim?!" Disse-lhe que os cães ficavam durante três dias na
câmara à disposição dos donos e que, depois disso, lhes davam o destino
que melhor lhes parecia. Olhou para mim sem dizer uma palavra. Depois,
disse: "Boas noites". Fechou a porta e ouvi-o andar de um lado para o
outro. A cama dele rangeu. E, pelo estranho barulho que me chegava
através da parede, compreendi que estava a chorar. Não sei porquê,
pensei na minha mãe. Mas no dia seguinte, precisava de me levantar
cedo. Não tinha fome e deitei-me sem jantar.

V
Raimundo telefonou-me para o escritório. Disse-me que um amigo dele, a
quem falara de mim, me convidava para passar o domingo numa casa que
tinha perto de Argel. Respondi que gostaria de ir, mas que já combinara
passar o domingo com uma amiga. Raimundo declarou imediatamente
que também a convidava. A mulher do amigo ficaria, até, muito contente
por não ser a única no meio de um grupo de homens. Quis desligar
imediatamente, pois sei que o chefe não gosta que estejamos ao telefone.
Mas Raimundo pediu-me para esperar e disse que me poderia ter
transmitido o convite à noite, mas me queria avisar de outra coisa. Fora
seguido durante todo o dia por um grupo de Árabes entre os quais estava
o irmão da sua antiga amante. "Se os vires esta noite perto da nossa casa,
avisa-me". Respondi que estava combinado.
Pouco depois o chefe mandou-me chamar e fiquei aborrecido porque
pensei que me ia dizer para telefonar menos e trabalhar mais. Não era
nada disso. Declarou que me ia falar num projecto ainda muito vago.
Queria apenas saber a minha opinião sobre o assunto. Tencionava instalar
um escritório em Paris, para tratar directamente com as grandes
companhias e perguntou-me se eu estava disposto a ir. Poderia assim
viver em Paris e viajar durante parte do ano. "Você ainda é novo e creio
que essa vida lhe agradaria". Disse que sim, mas que no fundo me era
indiferente. Perguntou-me depois se eu não gostava de uma mudança de
vida. Respondi que nunca se muda de vida, que em todos os casos, todas
as vidas se equivaliam e que a minha, aqui, não me desagradava. Mostrou
um ar descontente, disse que eu respondia sempre à margem das
questões, e que não tinha ambição, o que para os negócios era
desastroso. Voltei para o meu trabalho. Teria preferido não o
descontentar, mas não via razão nenhuma para modificar a minha vida.
Pensando bem, não era infeliz. Quando era estudante, alimentara muitas
ambições desse género. Mas quando abandonei os estudos, compreendi
muito depressa que essas coisas não tinham verdadeira importância.
Maria veio buscar-me à noite e perguntou-me se eu queria casar com ela.
Respondi que tanto me fazia, mas que se ela de facto queria casar, estava
bem. Quis então saber se eu gostava dela. Respondi, como aliás

respondera já uma vez, que isso nada queria dizer, mas que julgava não a
amar. "Nesse caso, porquê casar comigo?", disse ela. Respondi que isso
não tinha importância e que, se ela quisesse, nos podíamos casar. Era ela,
aliás, quem o perguntava, e eu contentava-me em dizer que sim. Maria
observou então que o casamento era uma coisa muito séria. Respondi:
"Não". Maria calou-se durante uns instantes e olhou-me em silêncio.
Depois, falou. Queria simplesmente saber se, vinda de outra mulher com a
qual estivesse relacionado do mesmo modo, eu teria aceite uma proposta
semelhante. Respondi: "Possivelmente". Perguntou então de si para si se
gostaria de mim, mas, sobre esse ponto, como poderia eu saber alguma
coisa? Depois de mais uns instantes de silêncio, murmurou que eu era
uma pessoa estranha, que gostava de mim se calhar por isso mesmo, mas
que um dia, pelos mesmos motivos, era capaz de passar aos sentimentos
contrários. Como eu me calasse, por não ter nada a acrescentar, tomoume o braço a sorrir e declarou que queria casar comigo. Respondi que sim,
logo que ela quisesse. Falei-lhe então na proposta do chefe e Maria disseme que gostaria de conhecer Paris. Contei-lhe que lá vivera durante algum
tempo e ela perguntou-me como era a cidade. Respondi: "suja. Há
pombas e pátios escuros. As pessoas têm a pele muito branca".
Depois passeámos, escolhendo as grandes ruas. As mulheres eram bonitas
e perguntei a Maria se ela achava o mesmo. Disse que sim, e que me
compreendia. Depois calámo-nos. Queria no entanto que ela ficasse
comigo e disse-lhe que poderíamos jantar juntos no Celeste. Maria
replicou que gostaria muito, mas tinha que fazer. Estávamos ao pé da
minha casa e eu disse-lhe adeus. Ela olhou para mim: "Não queres saber o
que é que tenho que fazer?" Eu queria, mas não me lembrara de lho
perguntar e era por isso que estava com um ar de censura. Diante do meu
ar embaraçado, voltou então a rir e, para me estender a boca, teve para
mim um movimento de todo o corpo. Jantei no restaurante do Celeste.
Começara já a comer, quando entrou uma mulherzinha esquisita e veio
perguntar se podia sentar-se à minha mesa. Porque não havia de poder?
Fazia gestos bruscos e tinha uns olhos brilhantes, inseridos numa pequena
cara de maçã. Tirou o casaco, sentou-se e consultou febrilmente a lista.
Chamou o Celeste e pediu imediatamente os pratos que queria, com uma
voz ao mesmo tempo precisa e precipitada. Enquanto esperava os
acepipes, abriu a carteira, tirou um pequeno quadrado de papel e um
lápis, fez a conta ao que tinha que pagar, e depois tirou do porta-moedas,
acrescentando-lhe a gorjeta, a quantia exacta. Colocou-a diante dela.
Nesse momento levaram-lhe os acepipes, que engoliu a toda a velocidade.
Enquanto esperava o prato seguinte tirou ainda da carteira um lápis azul e

uma revista que dava os programas radiofónicos da semana. Com o maior
cuidado, sublinhou um a um quase todos os programas. Como a revista
tinha umas doze páginas, continuou este trabalho metodicamente
durante toda a refeição. Já eu acabara de comer, e ainda ela estava a
sublinhar, sempre com a mesma aplicação. Depois levantou-se, vestiu o
casaco com os mesmos gestos precisos de autómato e saiu. Como não
tinha nada que fazer, também saí e segui-a durante uns momentos.
Colocou-se à beira do passeio e, com uma segurança e uma rapidez
incríveis, seguia o seu caminho sem se desviar e sem olhar para os lados.
Acabei por perdê-la de vista e por voltar para trás. Achei que era uma
mulher estranha, mas depressa a esqueci.
À porta de casa, encontrei o velho Salamano. Disse-lhe para entrar e ele
informou-me que o cão se perdera, pois não estava na Câmara. Os
empregados haviam-lhe dito que fora, talvez, atropelado. Perguntara se
não era possível sabê-lo nos comissariados da polícia. Tinham-lhe
respondido que eles não tomavam nota de coisas como essas, pois
aconteciam todos os dias. Disse ao velho Salamano que podia arranjar
outro cão, mas ele respondeu-me com toda a razão aliás, que estava
habituado àquele.
Eu estava estendido na cama e Salamano sentara-se numa cadeira em
frente da mesa. Estava voltado para mim e tinha as mãos em cima dos
joelhos. Conservara o velho chapéu na cabeça: Sob o bigode amarelecido,
mastigava frases que depois não acabava. Maçava-me um bocado, mas
como não tinha nada que fazer e não estava com sono, não me importei.
Para dizer alguma coisa, fiz-lhe perguntas sobre o cão. Disse-me que o
arranjara depois da morte da mulher. Casara-se bastante tarde. Na sua
mocidade, tivera vontade de entrar para o teatro: na tropa, representara
em várias récitas militares. Mas acabara por entrar para os caminhos-deferro e não estava arrependido, pois agora davam-lhe uma pequena
reforma. Não fora feliz com a mulher, mas, por fim, habituara-se a ela.
Quando esta morrera, sentira-se muito só: Pedira então a um colega do
escritório para lhe dar um cão, e fora-lhe oferecido este, quase recémnascido. Tivera que o alimentar a biberão. Mas como o cão vive menos do
que o homem, tinham acabado por envelhecer juntos. "Tinha mau feitio,
Disse Salamano. De tempos a tempos zangávamo-nos. Mas apesar disso,
era um bom cão". Disse que o cão devia ser de boa raça, e Salamano ficou
com um ar contente. "E para mais, acrescentou, não o conheceu antes da
doença. Não havia pêlo mais bonito do que o dele". Todas as noites e
todas as manhãs, desde que o cão aparecera com aquela doença de pele,

Salamano punha-lhe pomada. Mas na sua opinião, a verdadeira doença
que o cão tinha era a velhice, e a velhice não cura. Nesse momento
bocejei, e o velho anunciou que se ia embora. Disse-lhe que podia ficar e
que estava aborrecido com o que lhe acontecera ao cão: agradeceu-me.
Disse-me que a minha mãe gostara muito do cão. Ao falar dela, chamava-a
"a sua pobre mãe". Emitiu a suposição que eu devia sentir-me bem infeliz
desde que a minha mãe morrera. Não respondi. Disse-me então, muito
depressa e com um ar embaraçado, que no bairro me tinham criticado por
a ter mandado para o asilo, mas ele conhecia-me e sabia que eu gostava
muito da minha mãe. Respondi, não sei ainda porquê, que ignorava até
agora que fosse criticado por causa disso, mas que o asilo se me afigurara
uma coisa muito natural, pois não tinha recursos para a manter comigo.
"Além disso, acrescentei ainda, há muito tempo que não tínhamos nada
que dizer um ao outro e que ela se aborrecia sozinha. "Sim, disse-me ele,
e no asilo, ao menos, arranjam-se amigos". Depois, despediu-se. Queria
dormir. A sua vida agora mudara completamente, e não sabia muito bem
o que havia de fazer. Pela primeira vez desde que nos conhecíamos,
estendeu-me a mão num gesto envergonhado e eu senti-lhe as escamas
da pele. Teve um sorriso breve e, antes de sair, disse: "Espero que os cães
não ladrem esta noite. Julgo sempre que é o meu".

VI
No domingo, custou-me tanto a acordar, que foi preciso a Maria chamarme e sacudir-me. Não comemos, porque queríamos tomar cedo o banho
de mar. Sentia-me completamente vazio e doía-me um pouco a cabeça. O
meu cigarro tinha um gosto amargo. Maria fez troça de mim porque dizia
que eu estava com uma "cara de enterro". Pusera um vestido branco e
soltara os cabelos. Disse-lhe que estava bonita e ela riu de
contentamento. Ao sair, batemos à porta do Raimundo. Respondeu-nos
que já vinha. Na rua, porque estava cansado e também porque não
tínhamos aberto as persianas, o dia, já cheio de sol, bateu-me como uma
verdadeira bofetada. Maria saltava de prazer e não parava de repetir que
estava óptimo. Senti-me melhor e reparei que estava com fome. Disse-o a
Maria, que me mostrou o seu saco de praia, onde pusera os nossos dois
fatos de banho e uma toalha. Não havia nada a fazer, senão esperar, e
ouvimos Raimundo fechar a porta. Trazia umas calças azuis e uma camisa
branca, de mangas curtas. Mas pusera na cabeça um chapéu de palha, de
que Maria se riu muito, e sob os pêlos negros, tinha os braços muito
brancos. Isto enojava-me um bocadinho. Ao descer, assobiava e tinha um
ar muito contente. Disse-me: "Olá, pá", e tratou Maria por "Menina".
Na véspera tínhamos ido ao comissariado e eu testemunhara que a
mulher o "enganara". Saiu-se com um aviso e uma reprimenda. Não
verificaram a minha informação. Diante da porta, falámos com Raimundo
deste caso, e depois decidimo-nos a tomar o autocarro. A praia não era
longe, mas assim iríamos mais depressa. Raimundo achava que o amigo
ficaria contente por chegarmos tão cedo. Íamos partir quando Raimundo,
de súbito, me fez um sinal para olhar em frente de mim. Reparei num
grupo de Árabes encostados a um quiosque de tabacos. Olhavam-nos em
silêncio, mas à maneira deles, como se fôssemos árvores mortas ou
simplesmente pedras. Raimundo disse-me que "o tipo" era o segundo a
contar da esquerda, e fez um ar preocupado. Acrescentou que, no
entanto, o caso era agora história antiga. Maria não compreendia muito
bem, e perguntou-nos o que se passava. Disse-lhe que eram uns Árabes,
ressentidos contra Raimundo. Maria quis que nos fôssemos embora
imediatamente. Raimundo endireitou-se e riu, dizendo para nos
despacharmos.

Fomos para a paragem dos autocarros, que ficava um pouco mais longe, e
Raimundo anunciou que os Árabes não nos haviam seguido. Voltei-me
para trás. Continuavam no mesmo lugar e olhavam com a mesma
indiferença o sítio que acabávamos de deixar. Tomámos o autocarro.
Raimundo, que parecia aliviado, não parava de gracejar em intenção de
Maria. Senti que esta lhe agradava, mas vi - que ela não lhe respondia
quase nunca. De tempos a tempos, Maria olhava-me e ria. Descemos
numa paragem dos arredores de Argel. A praia não ficava longe. Mas foi
preciso atravessar um pequeno planalto que domina o mar e que desce
em seguida para a praia. Estava coberto de pedras amareladas e de
abróteas brancas, sob o azul já duro do céu. Maria divertia-se a espalhar
as pétalas destas flores, batendo-lhes com o saco de praia. Marchámos
entre filas de pequenas vivendas com cercas verdes ou brancas, algumas
escondidas, com as suas varandas, entre os tamarizes, e outras, nuas e
despojadas, no meio das pedras. Antes de chegar à borda do planalto,
podia-se já ver o mar imóvel e, mais longo, um cabo maciço e sonolento
na água clara. Subiu até nós, no ar calmo, um ligeiro barulho de motor. E
vimos, muito longe, uma pequena canoa que avançava
imperceptivelmente no mar brilhante. Maria agarrou em alguns estilhaços
de rocha. Da encosta que descia para o mar, vimos que já estavam vários
banhistas na praia.
O amigo de Raimundo morava numa casita de madeira, no extremo da
praia. A casa encostava-se à rocha e as traves que a sustinham à frente,
mergulhavam já na água. Raimundo apresentou-nos. O amigo - chamavase Masson. Era um tipo alto, entroncado, com ombros largos, e a mulher
dele era baixa, gorda e simpática, com um sotaque parisiense. Disse
imediatamente para nos pormos à vontade e que tinha para o almoço uns
peixes fritos que ele mesmo pescara de manhã. Disse-lhe que achava a
casa muito bonita, e ele informou-me que passava ali o sábado, o
domingo, e todos os feriados. "Com a minha mulher, é claro",
acrescentou. Justamente, esta e Maria riam-se de qualquer coisa. Pela
primeira vez, pensei seriamente que me ia casar.
Masson queria tomar banho, mas a mulher e Raimundo não queriam ir.
Descemos os três e Maria atirou-se logo à água. Masson e eu, esperámos
ainda um pouco. Masson falava muito devagar e notei que tinha o
costume de completar tudo quanto dizia por um "e direi mesmo mais",
mesmo quando, no fundo, nada acrescentava ao sentido da frase. A
propósito de Maria, disse: "estupenda e, direi mesmo mais, encantadora".
Depois, deixei de prestar atenção a este tique, pois ocupava-me agora em

sentir que o sol me sabia bem. A areia começava-me a aquecer, sob os
pés. Retardei mais um bocado a vontade que tinha de ir para a água, mas
acabei por dizer a Masson: "Vamos?" Mergulhei. Ele, entrou lentamente
na água, e só mergulhou quando perdeu o pé. Nadava de bruços, bastante
mal, de modo que o deixei para trás para ir ter com Maria. A água estava
fria e era bom nadar. Afastei-me com Maria e sentíamo-nos os dois de
acordo nos nossos gestos e no nosso contentamento. Ao largo, pusemonos a boiar de costas e, na minha cara voltada para o céu, o sol afastava os
últimos véus de água que me escorriam para a boca. Vimos que Masson
regressara à praia e se estendera ao sol. De longe, parecia enorme. Maria
quis que nadássemos juntos. Coloquei-me por detrás dela, segurando-a
pela cintura e ela avançava à força de braços, enquanto eu a ajudava
batendo os pés. O pequeno barulho da água batida seguiu-nos ao longo
da manhã, até que me senti cansado. Deixei então Maria e voltei para a
praia, nadando compassadamente e respirando bem: Uma vez na praia,
estendi-me de barriga para baixo ao pé de Masson e descansei a cara na
areia. Disse-lhe que "era bom" e ele tinha a mesma opinião. Depois, Maria
veio ter connosco, Voltei-me para a ver. Estava viscosa da água salgada e
tinha os cabelos caídos para trás. Estendeu-se encostada a mim e os dois
calores, o do corpo dela e o do sol, adormeceram-me um pouco.
Maria sacudiu-me e disse-me que Masson já fora para casa e era preciso ir
almoçar. Levantei-me imediatamente porque tinha fome, mas Maria
disse-me que não voltara a beijá-la desde manhã. Era verdade, e também
eu tinha vontade de a beijar. "Vem para a água", disse-me ela. Corremos e
deixámo-nos cair nas primeiras ondas, Fizemos algumas braçadas e ela
encostou-se a mim. Senti as pernas dela em volta das minhas e desejei-a.
Quando voltámos, já Masson nos chamava. Disse que estava cheio de
fome e o dono da casa declarou logo à mulher que eu lhe agradava: O pão
era bom e devorei a minha porção de peixe. Depois, havia carne e batatas
fritas. Comíamos sem falar. Masson bebia muito vinho e servia-me sem
parar. Ao café, tinha a cabeça um pouco pesada e fumei muito. Masson,
Raimundo e eu, encarámos a hipótese de passar o mês de Agosto na praia,
dividindo as despesas: Maria perguntou de repente: "Sabem que horas
são? São onze e meia". Estávamos todos admirados, mas Masson disse
que se tinha comido muito cedo, o que era natural, pois a hora do almoço
era a hora em que se tinha fome. Não sei por que motivo Maria se riu
tanto com isto. Julgo que bebera demais. Masson perguntou-me então se
queria ir dar com ele um passeio pela praia. "A minha mulher dorme
sempre a sesta depois de almoço. Eu, não gosto disso. Preciso de andar.
Digo-lhe sempre que é melhor para a saúde. Mas no fim de contas, está

no seu direito". Maria declarou que ficava, para ajudar a dona da casa a
lavar a loiça. Esta disse que, para isso, era preciso pôr os homens na rua.
Descemos os três. O sol caía quase a pique sobre a praia e o seu brilho no
mar era insustentável. Já não estava ninguém na praia. Nas casas ao longo
do planalto e que olhavam para o mar, ouvia-se o barulho de pratos e de
talheres. Mal se respirava, neste calor de pedra que subia do chão. Para
principiar, Raimundo e Masson falaram de coisas e pessoas que eu
ignorava. Percebi que se conheciam há muito tempo e que, a certa altura,
tinham mesmo vivido juntos. Dirigimo-nos para a água e andámos à beira
do mar. Às vezes, uma onda mais comprida do que as outras, vinha
molhar-nos os sapatos de borracha. Não pensava em nada, porque estava
meio adormecido com todo este sol na minha cabeça descoberta. A certa
altura, Raimundo disse a Masson qualquer coisa que não consegui ouvir
muito bem. Mas distingui ao mesmo tempo, no fim da praia e muito longe
de nós, dois Árabes vestidos de azul, que vinham na nossa direcção. Olhei
para Raimundo, que me disse: "É ele". Continuámos a andar. Masson
perguntou como é que eles nos podiam ter seguido até aqui. Pensei que
nos tinham visto tomar o autocarro com um saco de praia, mas não disse
nada. Os Árabes avançavam lentamente e estavam já muito mais perto.
Não modificámos o nosso andamento, mas Raimundo disse: "Se houver
pancada, tu, Masson, ficas com o segundo. Eu, encarrego-me do meu tipo.
Tu, Meursault, se vier outro Árabe, é para ti". Respondi: "Está bem", e
Masson meteu as mãos nas algibeiras. A areia a ferver parecia-me agora
vermelha. Avançámos no mesmo passo para os Árabes. A distância entre
nós foi diminuindo pouco a pouco: Quando não estávamos senão a alguns
passos uns dos outros, os Árabes detiveram-se. Masson e eu começámos a
andar mais devagar. Raimundo foi direito ao "seu tipo". Não percebi muito
bem o que lhe disse, mas o outro fez menção de lhe dar uma cabeçada.
Raimundo deu então o primeiro soco e logo a seguir chamou Masson.
Masson dirigiu-se ao que lhe fora destinado e deu-lhe dois socos com toda
a força. O outro caiu no mar, de barriga para baixo, a cara dentro de água
e ficou assim alguns segundos, perto da cabeça dele, rebentavam à
superfície bolhas de ar. Durante este tempo, Raimundo continuou a lutar
e o outro tinha a cara cheia de sangue. Raimundo voltou-se para mim e
disse: "Vais ver o que ele vai apanhar!" Gritei-lhe: "Atenção, o tipo tem
uma navalha!" mas Raimundo tinha já o braço aberto e um golpe na boca.
Masson deu um salto para a frente. Mas o outro Árabe levantara-se e
colocara-se atrás do que estava armado. Não ousámos mexer-nos. Os
Árabes recuaram lentamente, sem deixar de nos falar e de nos ameaçar
com a navalha. Quando viram que a distância era suficiente, fugiam muito

depressa, enquanto nós ficávamos ali pregados, ao sol, e Raimundo
agarrava no braço a escorrer sangue. Masson disse imediatamente que
conhecia um médico que passava os domingos no pequeno planalto.
Raimundo quis ir sem demora tratar das feridas. Mas, cada vez que falava,
o sangue borbulhava-lhe na boca. Ajudando-o a andar, voltámos para casa
o mais depressa possível. Aí, Raimundo disse que afinal as feridas eram
superficiais e que podia ir já ao médico. Saiu com Masson e eu fiquei, para
explicar às mulheres o que se tinha passado. A mulher de Masson chorava
e Maria estava muito pálida. Era aborrecido, ter de Lhes explicar. Por fim,
calei-me e pus-me a fumar, olhando para a paisagem do mar. Pela uma e
meia, Raimundo e Masson voltaram. Raimundo trazia o braço ligado e
adesivo no canto da boca. O médico dissera-lhe que não fora nada de
importante, mas estava com um ar sombrio. Masson tentou fazê-lo rir.
Mas ele não dizia nada. A certa altura, disse que queria descer à praia, e
eu perguntei-lhe onde ia. Respondeu que lhe apetecia apanhar ar. Masson
e eu dissemos que o acompanhávamos. Então, encolerizou-se e insultounos. Masson declarou que não devíamos contrariá-lo. Apesar disso, fui
com ele. Andámos muito tempo, ao longo da praia. O sol estava agora
esmagador. Estilhaçava-se na praia e no mar. Tive a impressão de que
Raimundo sabia onde ia, mas talvez estivesse enganado. Mesmo no fim da
praia, chegámos a uma pequena fonte que corria para a areia, em
direcção ao mar, por detrás de um grande rochedo. Aí, encontrámos os
dois Árabes. Estavam deitados, com os seus trajes azuis e sujos. Tinham
um ar calmo e quase beatífico. A nossa chegada não os incomodou. O que
ferira Raimundo, olhava-o sem dizer uma palavra. O outro soprava numa
flauta feita à mão e repetia interminavelmente, olhando-nos de viés, as
três notas que conseguia obter do instrumento.
Durante todo este tempo, havia só o sol e este silêncio, com o leve ruído
da nascente e das três notas musicais. Depois Raimundo levou a mão à
algibeira de trás das calças, mas o outro não se moveu. Continuavam a
fitar-se. Reparei que o que tocava flauta tinha os dedos dos pés muito
afastados. Sem tirar os olhos do adversário, Raimundo perguntou-me:
"Dou cabo dele?" Pensei que, se dissesse que não, ficaria excitado e
dispararia com certeza. Disse unicamente: "O tipo ainda não disse nada.
Disparar assim sem mais nem menos, não seria bonito". Ouviu-se ainda o
leve ruído da água e da flauta, no coração do silêncio e do calor. Depois,
Raimundo disse: "Então vou insultá-lo e quando ele responder, dou cabo
dele". Respondi: "Isso mesmo. Mas se o tipo não puxar da navalha, não
podes atirar". Raimundo começou a enervar-se. O outro continuava a
tocar e os dois observavam atentamente os gestos de Raimundo. "Não,

disse eu a Raimundo. Vai-te a ele, homem a homem e dá-me o revólver.
Se o outro intervém ou se puxa a navalha, mato-o". Quando Raimundo me
deu o revólver, o sol reflectiu-se na arma. Ficámos imóveis, como se tudo
se houvesse fechado em nossa volta. Olhávamo-nos sem baixar os olhos e
tudo aqui se detinha entre o mar, a areia, o sol, e o duplo silêncio da flauta
e da água. Pensei neste instante que disparar ou não disparar, era tudo o
mesmo. Mas bruscamente, os Árabes começaram a recuar e
desapareceram por detrás do rochedo. Raimundo e eu voltámos então
para casa. Raimundo parecia estar melhor e falou no autocarro da volta.
Acompanhei-o até casa e, enquanto ele subia a escada de madeira, eu
fiquei no primeiro degrau, a cabeça cheia de sol, sem coragem para o
esforço que era preciso fazer para subir as escadas de madeira e voltar a
abordar as mulheres. Mas o calor era tão grande que me era igualmente
penoso ficar assim imóvel, sob a chuva de luz que caía do céu. Ficar aqui
ou partir, vinha a dar na mesma. Ao fim de alguns instantes, voltei para a
praia e comecei a andar.
Era o mesmo brilho avermelhado. Na areia, o mar ofegava com a
respiração rápida e abafada das pequenas ondas que se sucediam umas às
outras. Dirigia-me lentamente para os rochedos e sentia que a testa me
inchava, sob o peso do sol. Todo este calor se apoiava contra mim,
opondo-se ao meu avanço. E cada vez que sentia o sopro quente deste
calor enorme na minha cara, cerrava os dentes, apertava os punhos nas
algibeiras das calças, retesava-me todo para triunfar do sol e da
embriaguez opaca que caía sobre mim. A cada espada de luz surgida da
areia, de uma concha esbranquiçada ou de um vidro partido, os queixos
crispavam-se-me. Andei assim durante muito tempo. Distinguia, de longe,
a pequena massa sombria do rochedo, rodeado de uma auréola formada
pela luz e pela poeira do mar. Pensava na nascente fresca que havia por
detrás do rochedo. Desejava reencontrar o murmúrio da água que dela
brotava, desejava fugir ao sol, ao esforço, às lágrimas da mulher, desejava
enfim, reencontrar a sombra e o repouso. Mas quando cheguei mais
perto, vi que o Árabe de Raimundo voltara ali. Estava só. Descansava de
costas, as mãos debaixo da nuca, a cabeça nas sombras do rochedo e o
resto do corpo ao sol. O seu trajo azul fumegava de calor. Fiquei um pouco
admirado. Para mim, era história antiga, e viera para aqui sem pensar no
caso. Logo que me viu, levantou-se e meteu a mão na algibeira. Eu, muito
naturalmente, agarrei no revólver de Raimundo, dentro do casaco. Então,
o Árabe deixou-se cair outra vez para trás, mas sem tirar a mão da
algibeira. Eu estava bastante longe dele, a uns dez metros de distância.

Adivinhava-lhe por instantes o olhar, entre as pálpebras semicerradas.
Mas a maioria das vezes, a imagem dele dançava diante dos meus olhos,
na atmosfera inflamada. O barulho das vagas era ainda mais preguiçoso
do que ao meio-dia. Eram o mesmo sol e a mesma luz, que se
prolongavam até este momento. Há já duas horas que o dia deitara a sua
âncora neste oceano de metal fervente. No horizonte, passou um
pequeno vapor. Adivinhei-lhe a mancha negra com o canto do olho, pois
não cessava de fitar o Árabe. Pensei que me bastava voltar para trás e
tudo ficaria resolvido. Mas atrás de mim, comprimia-se uma imensa praia
vibrante de sol. Dei alguns passos para a nascente. O Árabe não se moveu.
Apesar disso, estava ainda bastante longe. Parecia sorrir, talvez por causa
das sombras que se lhe projectavam na cara. Esperei. A ardência do sol
queimava-me as faces e senti o suor amontoar-se-me nas sobrancelhas.
Era o mesmo sol do dia em que a minha mãe fora a enterrar e, como
então, doía-me a testa, sobretudo a testa e todas as suas veias batiam ao
mesmo tempo debaixo da pele. Por causa desta queimadura que já não
podia suportar mais, fiz um movimento para a frente. Sabia que era
estúpido, que não me iria desembaraçar do sol, simplesmente por dar um
passo em frente. Mas dei um passo, um só passo em frente. E desta vez,
sem se levantar, o Árabe tirou a navalha da algibeira e mostrou-ma ao sol.
A luz reflectiu-se no aço e era como uma longa lâmina faiscante que me
atingisse a testa. No mesmo momento, o suor amontoado nas
sobrancelhas correu-me de súbito pelas pálpebras abaixo e cobriu-as com
um véu morno e espesso. Os meus olhos ficaram cegos, por detrás desta
cortina de lágrimas e de sal. Sentia apenas as pancadas do sol na testa e,
indistintamente, a espada de fogo brotou da navalha, sempre diante de
mim. Esta espada a arder corroía-me as pestanas e penetrava-me nos
olhos doridos. Foi então que tudo vacilou. O mar enviou-me um sopro
espesso e fervente. Pareceu-me que o céu se abria em toda a sua
extensão, deixando tombar uma chuva de fogo. Todo o meu ser se
retesou e crispei a mão que segurava o revólver. O gatilho cedeu, toquei
na superfície lisa da coronha e foi aí, com um barulho ao mesmo tempo
seco e ensurdecedor, que tudo principiou.
Sacudi o suor e o sol. Compreendi que destruíra o equilíbrio do dia, o
silêncio excepcional de uma praia onde havia sido feliz. Voltei então a
disparar mais quatro vezes contra um corpo inerte onde as balas se
enterravam sem se dar por isso. E era como se batesse quatro breves
pancadas à porta da desgraça.

SEGUNDA PARTE

I
Logo a seguir à minha prisão, fui interrogado por várias vezes. Mas
tratava-se de interrogatórios de identidade, que não duraram muito
tempo. A primeira vez, no comissariado, o meu caso parecia não
interessar a ninguém. Oito dias depois, ao contrário,. o juiz de instrução
olhou-me com curiosidade. Mas, para começar, perguntou-me apenas o
nome e a morada, a profissão, a data e o local do nascimento. Depois quis
saber se eu já escolhera advogado. Respondi que não e perguntei-lhe se
era absolutamente necessário ter advogado. "Porquê?", disse ele.
Repliquei, afirmando que achava o meu caso muito simples. Sorriu,
dizendo: "É uma opinião. No entanto, a lei é a lei. Se o senhor não quer
quem o defenda, nós nomeamos automaticamente advogado". Achei que
era muito cómodo, a justiça encarregar-se desses pormenores. Disse-lho.
Concordou comigo e concluiu que a lei estava bem feita. No começo, não
o tomei a sério. Recebeu-me numa sala com reposteiros nas paredes.
Tinha em cima da secretária um único candeeiro, que iluminava a cadeira
onde me mandou sentar, enquanto ele ficava na sombra. Tinha já lido
descrições parecidas em livros, e tudo isto me pareceu uma brincadeira.
Depois da nossa conversa, pelo contrário, olhei-o e vi um homem de
traços finos, profundos olhos azuis, muito alto, com um comprido bigode
grisalho e uma abundante cabeleira quase branca. Afigurou-se-me uma
pessoa razoável e, no fim de contas, simpática, apesar dos tiques nervosos
que, de quando em quando, lhe deformavam a boca. À saída ia mesmo
para lhe estender a mão, mas lembrei-me a tempo de que era um
assassino.
No dia seguinte, um advogado veio falar comigo à prisão. Era baixo e
gordo, bastante novo ainda, os cabelos cuidadosamente penteados com
fixador. Apesar do calor (eu estava em mangas de camisa), envergava um
fato escuro, um colarinho duro e uma gravata esquisita, com grandes
riscas pretas e brancas. Pôs em cima da cama a pasta que trazia debaixo
do braço, apresentou-se e disse que estudara o meu processo. O meu caso
era delicado, mas se eu tivesse confiança nele, não duvidava do êxito final.

Agradeci-lhe e ele disse-me: "Entremos no fundo da questão". Sentou-se
na cama e explicou-me que tinham andado a investigar a minha vida
privada. Tinham descoberto que a minha mãe morrera recentemente no
asilo. Procedera-se então a um inquérito em Marengo. Os investigadores
tinham sabido que eu "dera provas de insensibilidade" no dia do enterro.
"Veja se compreende, disse o advogado, custa-me um bocado perguntarlhe isto. Mas é muito importante. E será um grande argumento para a
acusação, se eu não conseguir dar resposta". Queria que eu o ajudasse.
Perguntou-me se eu, nesse dia, tinha tido pena da minha mãe. Esta
pergunta muito me espantou e parecia-me que não era capaz de a fazer a
alguém. Não obstante, respondi que perdera um pouco o hábito de me
interrogar a mim mesmo e que era difícil dar-lhe uma resposta. É claro
que gostava da minha mãe, mas isso não queria dizer nada. Todos os seres
saudáveis tinham, em certas ocasiões, desejado mais ou menos, a morte
das pessoas que amavam. Aqui, o advogado cortou-me a palavra e
mostrou-se muito agitado. Obrigou-me a prometer que não diria isto na
audiência, nem ao juiz de instrução. Expliquei-lhe, no entanto, que a
minha natureza era feita de tal modo que as minhas necessidades físicas
perturbavam frequentemente os meus sentimentos. No dia do enterro,
estava muito cansado e com muito sono. De forma que não dei lá muito
bem pelo que se passou. O que podia afirmar, com toda a certeza, era que
preferia que a mãe não tivesse morrido. Mas o advogado não ficou
contente. Disse: "Isso não chega". Pôs-se a pensar. Perguntou-me se se
poderia dizer que, nesse dia, eu reprimira os meus sentimentos naturais.
Respondi: "Não, porque não é verdade". Olhou-me de um modo estranho,
como se eu lhe inspirasse uma certa repulsa. Disse-me quase
maldosamente que, de qualquer forma, o director e o pessoal do asilo
seriam ouvidos como testemunhas, o que "seria sem dúvida muito mau
para mim". Fiz-lhe notar que essa história não tinha nenhuma relação com
o meu caso, mas ele respondeu-me que se via bem que eu não conhecia a
justiça de perto. Foi-se embora com um ar zangado. Teria querido retê-lo,
explicar-lhe que desejava a simpatia dele, não para ser mais bem
defendido, mas, se assim me posso exprimir, naturalmente. Percebia
sobretudo que o punha pouco à vontade. Não me compreendia e
desconfiava um bocadinho de mim. Desejava afirmar-lhe que era como
toda a gente, absolutamente como toda a gente. Mas tudo isso, no fundo,
não era de grande utilidade e, por preguiça, renunciei a esta intenção.
Pouco tempo depois, fui outra vez levado ao juiz de instrução. Eram duas
horas da tarde e, desta vez, o escritório estava cheio de luz, uma luz que a
cortina da janela mal conseguia abrandar. O calor apertava. Mandou-me

sentar e, muito amavelmente, declarou que o meu advogado, "devido a
um contratempo", não pudera comparecer. Mas eu tinha todo o direito de
não lhe responder às perguntas, e de esperar até que o advogado pudesse
estar presente. Disse que podia perfeitamente responder sozinho. Apoiou
um dedo numa campainha, debaixo da mesa. Um escrivão ainda novo veio
colocar-se atrás das minhas costas. Instalámo-nos os dois
confortavelmente nas nossas poltronas. O interrogatório principiou. Disseme antes de mais nada, que me pintavam como tendo um carácter
taciturno e fechado, e quis saber a minha opinião a este respeito.
Respondi: " que, como nunca tenho quase nada a dizer, prefiro calar-me".
Sorriu como da primeira vez, concordou que era uma razão de peso e
acrescentou: "Aliás, não tem importância nenhuma". Calou-se, olhou para
mim, e levantou-se bruscamente na cadeira, dizendo: "O que me
interessa, é o senhor!" Não compreendi o que ele queria dizer e não
respondi. "Há coisas, acrescentou ainda, que me escapam, no seu gesto.
Estou certo de que me ajudará a compreender melhor". Repliquei que era
muito simples. Pediu-me para lhe contar o que fizera nesse dia. Voltei a
descrever o que já lhe tinha contado: Raimundo, a praia, o banho, a
disputa, outra vez a praia, a pequena nascente, o sol e os cinco disparos
do revólver. A cada frase, ele dizia: "Bem, bem". Quando cheguei ao corpo
estendido na areia, aprovou-me, dizendo: "Bom." Quanto a mim, estava
cansado de repetir sempre a mesma história e tinha a impressão de nunca
ter falado tanto. Depois de um silêncio, o juiz levantou-se e disse que me
queria ajudar, que o meu caso interessava e, com a ajuda de Deus, faria
qualquer coisa por mim. Mas antes, queria dirigir-me ainda algumas
perguntas. Sem transição, perguntou se eu gostava da minha mãe.
Redargui: "Sim, como toda a gente". E o escrivão que, até aqui escrevia
em ritmo normal à máquina, enganou-se e teve que voltar atrás. Ainda
sem lógica aparente, o juiz perguntou-me então se disparara os cinco tiros
a seguir. Pensei um bocado e especifiquei que disparara primeiro um só
tiro e, alguns segundos depois, os outros quatro. "Porque fez uma pausa
entre o primeiro e o segundo tiro?", disse ele. Mais uma vez, voltei a ver a
praia avermelhada e senti na testa a ardência do sol. Mas desta vez, não
respondi nada. Durante todo o silêncio que se seguiu, o juiz pareceu
agitado. Sentou-se, mexeu nos cabelos, pôs os cotovelos em cima da
secretária e debruçou-se um pouco para mim com um ar estranho:
"Porque foi o senhor, porque foi o senhor disparar contra um corpo
caído?" Também não soube responder. O juiz passou a mão pela testa e
repetiu a pergunta, com a voz um pouco alterada: "Porquê? É preciso que
me diga. Porquê?" Eu continuava calado. Bruscamente levantou-se,

dirigiu-se com grandes passadas para a extremidade da secretária e abriu
uma gaveta. Tirou um crucifixo de prata e, agitou-o no ar, voltando para o
pé de mim. E, com uma voz completamente diferente, quase trémula,
gritou: "Conhece-O, conhece-O?" Respondi: "Sim, é claro que conheço".
Disse-me então muito depressa e de um modo apaixonado que acreditava
em Deus, que nenhum homem era suficientemente culpado para que
Deus não Lhe perdoasse, mas que para isso era necessário que o homem,
pelo seu arrependimento, se transformasse como que numa criança, cuja
alma está vazia e pronta a acolher tudo. Todo o seu corpo se debruçava
sobre a mesa. Agitava o crucifixo diante dos meus olhos. Para dizer a
verdade, eu mal seguira o raciocínio dele, primeiro porque tinha calor e
porque voavam no escritório grandes moscas que me vinham pousar na
cara, e em seguida, porque me assustava um bocadinho.
Reconhecia ao mesmo tempo que esta sensação era ridícula, pois afinal o
criminoso era eu. Continuou, no entanto. Compreendi pouco a pouco que,
na opinião dele, havia apenas um ponto obscuro na minha confissão, o
facto de ter esperado entre o primeiro e o segundo disparo. Quanto ao
resto estava bem, mas isso é que ele não conseguia compreender. Ia
dizer-lhe que não valia a pena obstinar-se: este último ponto não tinha
tanta importância como isso. Mas ele interrompeu-me e exortou-me pela
última vez, olhando-me de alto e perguntando-me se eu acreditava em
Deus. Respondi que não. Sentou-se indignadamente. Disse-me que era
impossível, que todos os homens acreditavam em Deus, mesmo os que
não o queriam ver. A convicção dele era essa e, se um dia duvidasse, a
vida deixaria de ter sentido. "Quer o senhor, exclamou, que a minha vida
deixe de ter sentido?" Eu achava que não tinha nada com isso, e disse-lho.
Mas, através da mesa, estendeu a imagem de Cristo e exclamou: "Eu, sou
cristão. Peço perdão pelos teus pecados a Este. Como podes não acreditar
que Ele sofreu por ti?"
Reparei que me estava a tratar por tu... mas estava farto. O calor apertava
cada vez mais. Como sempre que me quero desembaraçar de alguém que
já nem estou a ouvir, fiz menção de aprovar. Com grande surpresa minha,
tomou um ar de triunfo: "Vês, vês!" dizia ele. Não é verdade que crês e
que te vais confiar a Ele?" É claro que, uma vez mais, disse que não.
Voltou a deixar-se cair na cadeira. Tinha um ar muito cansado. Deixou-se
ficar calado durante alguns momentos, enquanto a máquina de escrever,
que não deixara de seguir o diálogo, prolongava ainda as últimas frases.
Em seguida, olhou-me atentamente e com um bocadinho de tristeza:

Murmurou: "Nunca tinha visto uma alma tão empedernida como a sua. Os
criminosos que aqui vieram, choraram sempre diante desta imagem da
dor". Ia responder que isso sucedia porque, justamente eram criminosos.
Mas pensei que, afinal, também eu era como eles. Não me conseguia
habituar a esta ideia... O juiz levantou-se então, como se quisesse
significar que o interrogatório acabara. Perguntou-me apenas, com o
mesmo ar um pouco fatigado, se estava arrependido do - meu gesto.
Meditei e disse que, mais do que verdadeiro arrependimento,
experimentava um certo aborrecimento. Tive a impressão de que não me
compreendia. Mas nesse dia, as coisas não foram mais longe.
Mais tarde, voltei a estar várias vezes com o juiz. Mas agora, sempre
acompanhado do advogado. Limitavam-se a pedir-me para pormenorizar
certos pontos das minhas anteriores declarações. Ou então, o juiz discutia
as acusações com o advogado. Mas nesse momento não se ocupavam de
mim. Pouco a pouco, em todos os casos, o tom do interrogatório foi-se
modificando. Parecia que o juiz já se não interessava por mim e que, de
algum modo, classificara já o meu caso. Não voltou a falar-me de Deus e
não voltei a vê-lo com a excitação do primeiro dia. O resultado é que as
nossas conversas se tornaram mais cordiais. Algumas perguntas, umas
frases trocadas com o meu advogado e pronto, o interrogatório acabara.
O caso seguia o seu curso, na expressão do juiz. Por vezes, quando a
conversa era de ordem geral, eu também entrava. Começava a poder
respirar. Ninguém era mau comigo, nesses momentos. Tudo era tão
natural, tão bem regulado e tão sobriamente representado, que tinha a
impressão ridícula de "fazer parte da família". E ao fim dos onze meses
que durou a instrução do processo, posso dizer que quase me espantava
de alguma vez ter gostado tanto de uma coisa, como desses raros
instantes em que o juiz me levava à porta do gabinete, batendo-me no
ombro e dizendo com um ar cordial: "Por hoje acabou, Sr. Anticristo".
Entregavam-me então outra vez nas mãos dos polícias.

II
Há coisas de que prefiro não falar. Quando entrei para a prisão, percebi
logo ao fim de poucos dias que não gostaria de falar dessa parte da minha
vida. Mais tarde, deixei de atribuir importância a essas repugnâncias. Na
realidade, nos primeiros dias não estava verdadeiramente na prisão:
esperava vagamente que surgisse qualquer acontecimento novo. Foi
apenas depois da primeira e última visita de Maria que tudo principiou.
A partir do dia em que recebi a carta dela (dizia que não a deixavam vir
visitar-me, pois não era minha mulher), a partir desse dia senti que a
minha casa era a minha cela, e que a vida parava aí. No dia em que me
prenderam, fecharam-me primeiro num quarto onde já havia muitos
detidos, a maioria deles Árabes. Ao verem-me, começaram a rir. Depois
perguntaram-me o que é que eu tinha feito. Disse que tinha morto um
Árabe e eles calaram-se todos. Mas uns momentos depois, caiu a noite. Os
Árabes explicaram-me como devia arranjar a enxerga onde me havia de
deitar. Enrolando uma das extremidades, improvisava-se um travesseiro.
Durante toda a noite, passearam-me piolhos pela cara. Alguns dias depois,
isolaram-me numa cela, onde me deitava numa cama de madeira.
Dispunha de uma bacia de ferro. A prisão ficava na parte de cima da
cidade e, da minha pequena janela, podia ver o mar. Foi num dia em que
estava agarrado às grades, a cara voltada para a luz, que um guarda
entrou, dizendo-me que tinha uma visita. Pensei que era Maria. Era ela, de
facto.
Atravessei um corredor comprido, depois umas escadas e, para acabar,
outro corredor. Entrei numa sala muito grande, iluminada por uma vasta
janela. A sala era dividida em três partes por dois gradeamentos que a
cortavam no comprimento. Entre os dois gradeamentos havia um espaço
de oito a dez metros que separava os visitantes dos prisioneiros. Vi que
Maria estava em frente de mim, com o seu vestido às riscas e a sua cara
queimada pelo sol. Do meu lado havia uma dúzia de presos, quase todos
Árabes. Maria estava rodeada de Mouros, entre duas visitantes, uma
velhinha de beiços cerrados, vestida de preto e uma mulher gorda, em
cabelo, que falava muito alto, com grande abundância de gestos. Por
causa da distância entre os gradeamentos, os visitantes e os presos viam-

se obrigados a falar quase aos gritos. Quando entrei, o barulho das vozes,
fazendo eco nas grandes paredes nuas da sala e a luz crua que corria do
céu para os vidros e se reflectia na sala, causaram-me uma espécie de
vertigem. A minha cela era mais calma e mais sombria. Precisei de alguns
segundos para me adaptar. Acabei, no entanto, por ver com nitidez cada
cara, como se se recortasse no dia claro. Observei que havia um guarda
sentado na extremidade do corredor, entre os dois gradeamentos. A
maioria dos prisioneiros árabes, assim como as suas famílias, estavam de
cócoras frente a frente. Estes não gritavam. Apesar do tumulto que ali
reinava, conseguiam entender-se, falando em voz baixa. Este murmúrio
surdo, vindo de mais baixo, formava como que um contínuo sublinhado
das conversas que se cruzavam por cima das suas cabeças. Observei tudo
isto muito depressa, e avancei para Maria. Colada ao gradeamento, sorriame com quantas forças tinha. Estava muito bonita, mas não fui capaz de
lho dizer. "Então?", disse ela em voz alta. "Então, aqui estou. - Estás bem,
tens tudo o que precisas? - Sim, tenho". Calámo-nos e Maria continuava a
sorrir. A mulher gorda berrava com o meu vizinho, o marido
possivelmente, um tipo alto e loiro, com um olhar franco. Era o
prosseguimento de uma conversa já iniciada. "A Joana não quis aceitar,
gritava ela. "Sim, sim", dizia o homem. "Disse que tu o irias buscar outra
vez quando saísses, mas ela não quis aceitar". Maria gritou por sua vez
que o Raimundo me mandava um abraço e eu disse: "Obrigado". Mas a
minha voz foi abafada pela do meu vizinho, que perguntou "que tal ia ele".
A mulher riu-se, dizendo "que nunca se sentira tão bem. O meu vizinho da
esquerda, um rapazinho de mãos muito finas, não dizia nada. Reparei que
estava em frente da velhinha e que os dois se olhavam intensamente. Mas
não tive tempo de os observar mais detidamente, pois Maria me estava a
dizer que era preciso ter esperança. Disse: "Sim". Ao mesmo tempo
olhava-a e sentia vontade de lhe apertar o ombro por cima do vestido.
Sentia vontade desse tecido delicado e, fora isso, não sabia muito bem em
que é que havia de ter esperança. Mas era isso, sem dúvida, o que Maria
queria dizer, pois continuava a sorrir. Via apenas o brilho dos seus dentes
e as pequenas rugas junto aos seus olhos. Voltou a gritar: "Vais sair
depressa e depois, casamo-nos!" Respondi: "Achas que sim?", mas era
sobretudo para dizer alguma coisa. Redarguiu então muito depressa e
sempre em voz altíssima que sim, que eu seria absolvido, que voltaríamos
a tomar banhos de mar. Mas outra mulher gritava mesmo ao lado de nós,
dizendo que deixara o cesto à porta. Enumerava tudo o que tinha dentro
do cesto. Era preciso verificar, pois tudo que lá havia dentro era muito
caro. O meu outro vizinho e a mãe continuavam a fitar-se. O murmúrio

dos Árabes também continuava a ouvir-se, abaixo de nós. Lá fora, a luz
parecia inchar-se de encontro à janela. Correu por todas as caras, como
um sumo novo. Não me sentia muito bem e gostaria de me ir embora. O
barulho incomodava-me. Mas por outro lado, queria gozar da presença de
Maria. Não sei quanto tempo passou. Maria falou-me do seu trabalho,
sem parar de sorrir. O murmúrio, os gritos, as conversas entrecruzavamse. A única ilha de silêncio estava ao meu lado, nas pessoas do rapazinho e
da mãe, que olhavam um para o outro. Pouco a pouco, os Árabes foram
saindo: Logo que o primeiro saiu, quase todos se calaram. A velhinha
aproximou-se das grades e, ao mesmo tempo, um guarda fez sinal ao
filho. Este disse: "Adeus, mãe", e ela passou a mão por entre as grades
para lhe fazer uma pequena carícia, lenta e prolongada.
A velhinha saiu, e entrou um homem de chapéu na mão, que lhe tomou o
lugar: Introduziram um novo prisioneiro e estes começaram a falar
animadamente, mas a meia voz, porque a sala estava agora silenciosa.
Vieram buscar o meu vizinho da direita e a mulher disse-lhe sem baixar de
tom, como se não houvesse notado que já não era preciso gritar: "Trata-te
bem e toma cuidado". Depois chegou a minha vez. Maria atirou-me um
beijo de longe. Voltei-me antes de sair. Estava imóvel, a cara esmagada
contra o gradeamento, com o mesmo sorriso forçado e crispado.
Foi pouco depois que ela me escreveu. E foi a partir desse momento que
começaram as coisas de que nunca gostei de falar. De todos os modos,
não vale a pena exagerar, e o certo é que me custou menos do que a
muitos outros. No início da minha detenção, no entanto, o mais duro, foi
virem-me à cabeça pensamentos de homem livre. Por exemplo, sentia de
repente desejo de estar numa praia e de correr para o mar. Imaginando o
barulho das primeiras ondas sob as plantas dos pés, a entrada do corpo na
água, a libertação que era para mim o banho de mar, sentia de repente
até que ponto as paredes da prisão me cercavam. Mas isto durou apenas
alguns meses. Depois, passei a ter unicamente pensamentos de
prisioneiro. Aguardava o passeio quotidiano no pátio ou então a visita do
advogado. No resto do tempo, passava menos mal.
Nessa altura pensei muitas vezes que, se me obrigassem a viver dentro de
um tronco seco de árvore, sem outra ocupação, além de olhar a flor do
céu por cima da minha cabeça, ter-me-ia habituado pouco a pouco.
Observaria a passagem das aves ou os encontros entre as nuvens, tal
como aqui observava as extraordinárias gravatas do advogado e como,
num outro mundo, esperava até sábado para apertar nos meus braços o

corpo de Maria. Ora a verdade, afinal de contas, é que eu não estava
dentro de um tronco de árvore. Havia pessoas mais infelizes do que eu.
Acabamos por nos habituar a tudo, gostava a minha mãe de dizer.
Geralmente eu não ia tão longe, aliás. Os primeiros meses foram difíceis.
Mas justamente o esforço que fui obrigado a fazer ajudou-me a passá-los.
Atormentava-me, por exemplo, o desejo de uma mulher. Era natural, eu
era um rapaz novo. Não pensava especialmente em Maria. Mas pensava
tanto numa mulher, nas mulheres, em todas as que tinha conhecido um
dia, em todas as circunstâncias em que as amara, - que a cela ficava cheia
de todas essas caras femininas e se povoava com todos os meus desejos.
Isto desequilibrava-me, de certo modo. Mas por outro lado, fazia passar o
tempo. Acabara por conquistar a simpatia do guarda que, à hora das
refeições, acompanhava o moço da cozinha. O primeiro que me falou de
mulheres, foi ele. Disse que era a primeira coisa de que os outros se
queixavam. Redargui que era como os outros e que achava injusto este
tratamento. "Mas é precisamente para isso, disse ele, que os prendem. Para isso? - Pois claro, a liberdade é isso mesmo. A vocês, privam-nos da
liberdade". Nunca me lembrara de semelhante coisa. Aprovei-o: "É
verdade, disse eu, onde estaria então o castigo? - Sim, Vê-se que você
compreende as coisas. Os outros não compreendem. Mas acabam por
resolver o problema de qualquer maneira". O guarda foi-se embora. No
dia seguinte, eu era como os outros. Houve também o caso dos cigarros.
Quando entrei para a prisão, tiraram-me o cinto, os atacadores dos
sapatos, a gravata e tudo quanto trazia nas algibeiras, especialmente os
cigarros. Uma vez na minha cela, pedi que mos devolvessem. Mas
responderam-me que era proibido.
Os primeiros dias foram terríveis. Foi talvez isso o que mais me abateu.
Chupava pedacinhos de madeira, que arrancava das tábuas da cama. Uma
náusea permanente acompanhava-me durante o dia inteiro. Não percebia
por que razão me privavam de coisas inocentes como os cigarros, que não
faziam mal a ninguém. Mais tarde, compreendi que também pertenciam
ao castigo. Mas nesse momento, habituara-me já a deixar de fumar e
deixara de ser um castigo.
Aparte estes aborrecimentos, não me sentia muito infeliz. Todo o
problema, repito-o, estava em matar o tempo. Por último, acabei por já
não me maçar, a partir do instante em que aprendi a recordar. Punha-me
às vezes a pensar no meu quarto e, em imaginação, partia de um canto e
dava a volta ao quarto, enumerando mentalmente tudo o que encontrava
pelo caminho. Ao princípio, isto durava pouco. Mas, cada vez que

recomeçava, ia durando mais, pois lembrava-me de cada móvel e, para
cada móvel, de cada objecto que lá havia e, para cada objecto, de todos os
pormenores e, para os próprios pormenores, de uma incrustação, de uma
racha, de um bordo quebrado, da cor que tinham, ou da qualidade de que
eram feitos. Tentava ao mesmo tempo não perder o fio a este inventário e
fazer uma enumeração completa. De tal forma que, ao fim de algumas
semanas, passava horas, só a catalogar tudo o que havia no meu quarto.
Assim, quanto mais pensava, mais coisas esquecidas ia tirando da
memória. Compreendi então que um homem que houvesse vivido um
único dia, poderia sem custo passar cem anos numa prisão. Teria
recordações suficientes para não se maçar. De certo modo, isto era uma
vantagem. Havia também o sono. No começo dormia mal de noite e de
dia, nunca. Pouco a pouco, as noites melhoraram e consegui também
dormir de dia. Posso dizer que, nos últimos meses, dormia dezasseis a
dezoito horas por dia. Restavam-me seis horas a matar, com as refeições,
as necessidades naturais, as recordações e a história do Checoslovaco.
Entre a enxerga e as tábuas da cama, eu encontrara, com efeito, um velho
bocado de jornal, amarelecido e transparente, quase colado ao pano.
Relatava um acontecimento cujo início faltava, mas que devia ter sucedido
na Checoslováquia. Um homem partira de uma aldeia para fazer fortuna.
Ao fim de vinte e cinco anos, rico, regressara casado e com um filho. A
mãe dele, juntamente com a irmã, tinham uma estalagem na aldeia. Para
lhes fazer uma surpresa, deixara a mulher e o filho noutra estalagem e
fora visitar a mãe, que não o reconheceu. Por brincadeira, tivera a ideia de
se instalar num quarto como hóspede. Mostrara o dinheiro que trazia. De
noite, a mãe e a irmã tinham-no assassinado à martelada e atirado o
corpo para o rio. No dia seguinte de manhã, a mulher do desgraçado viera
à estalagem e revelara, sem saber, a identidade do viajante. A mãe
enforcara-se. A irmã atirara-se a um poço. Devo ter lido esta história
milhares de vezes. Por um lado, era inverosímil. Por outro lado, era
natural. De todos os modos, achava que o viajante merecera até certo
ponto a sua sorte e que nunca se deve brincar com estas coisas.
E assim, com as horas de sono, as recordações, a leitura do meu jornal e a
alternância da luz e da sombra, o tempo foi passando. Tinha lido que na
prisão se perde a noção do tempo. Mas para mim, isto não fazia sentido.
Não compreendera ainda até que ponto os dias podiam ser ao mesmo
tempo curtos e longos. Longos para viver, sem dúvida, mas de tal modo
distendidos, que acabavam por se sobrepor uns aos outros e por perder o

nome. As palavras ontem ou amanhã eram as únicas que conservavam
sentido.
Quando, um dia, o guarda me disse que estava preso há cinco meses,
acreditei, mas não compreendi. Para mim era sempre o mesmo dia, que
caía na minha cela, e era sempre a mesma tarefa, que eu perseguia sem
cessar. Nesse dia, depois do guarda ter saído, olhei-me ao espelho na
bacia de esmalte. Pareceu-me que a minha cara ficava séria, mesmo
quando tentava sorrir. Agitei-a diante de mim. Sorri, mas a imagem
conservou o mesmo ar severo e triste. O dia acabava e era a hora de que
não quero falar, a hora sem nome, em que os ruídos da noite subiam de
todos os andares da prisão, num cortejo de silêncios. Aproximei-me da
clarabóia e, à última luz do fim da tarde, contemplei uma vez mais a minha
imagem. Continuava séria, o que não era de admirar, pois nesse instante,
também eu estava sério. Mas ao mesmo tempo, e pela primeira vez, ouvi
distintamente o som da minha voz.
Reconhecia-a por aquela que ressoava há tantos dias aos meus ouvidos e
compreendi que, durante este tempo, falara sozinho em voz alta. Lembreime então do que dizia a enfermeira no enterro da mãe. Não, não havia
saída possível, e ninguém, ninguém pode imaginar o que são as noites nas
prisões.

III
No fundo, um Verão depressa substituiu outro Verão. Sabia que, com a
chegada dos primeiros calores, surgiria qualquer coisa de novo. O meu
caso estava inscrito na última sessão do tribunal e esta sessão terminaria
em fins de Junho. Os debates iniciaram-se num dia de sol. O meu
advogado assegurara-me que não durariam mais do que dois ou três dias
"Aliás, acrescentara, "O caso será despachado rapidamente, porque não é
o mais importante da sessão. Logo a seguir, será julgado um parricida".
Vieram-me buscar às sete e meia da manhã, e o carro celular levou-me ao
tribunal. Os dois polícias mandaram-me entrar para uma salinha sombria.
Aguardámos, sentados ao pé de uma porta, por detrás da qual se ouviam
vozes, chamamentos, barulhos de cadeiras, numa confusão de ruídos que
me recordou essas festas de bairro em que, depois do concerto, se
organiza a sala para a dança. Os polícias disseram-me que tínhamos que
esperar pelos juízes e um deles ofereceu-me um cigarro, que recusei.
Perguntou-me, pouco depois, se estava com medo. Respondi que não. E
mesmo, sob um certo aspecto, interessava-me observar um julgamento.
Nunca tivera ocasião para ver nenhum: "Sim, disse o segundo polícia, mas
acabamos por nos cansar".
Não muito tempo depois, uma campainha retiniu na sala onde estávamos.
Tiraram-me as algemas. Abriram a porta e introduziram-me no pequeno
quadrado dos réus. A sala estava cheia a abarrotar. Apesar das persianas,
o sol infiltrava-se aqui e ali e o ar estava já quentíssimo. Tinham deixado
os vidros fechados. Sentei-me e os polícias puseram-se um de cada lado
da cadeira. Foi nesse momento que, diante de mim, distingui uma fila de
caras. Todas me olhavam: percebi que eram os membros do júri. Mas não
sou capaz de dizer o que os distinguia uns dos outros. Tive apenas uma
impressão: eu estava no banco de um eléctrico e todos estes passageiros
anónimos espiavam o recém-chegado para lhe observar os ridículos. Sei
perfeitamente que esta ideia era parva pois aqui não era o ridículo que
eles procuravam, era o crime. Porém a diferença entre as duas coisas não
se me afigurava muito grande e, de qualquer modo, foi a ideia que me
veio à cabeça. Estava um pouco atordoado, por tanta gente amontoada
numa sala. Voltei a olhar para o júri e não consegui distinguir

especialmente nenhuma fisionomia. Parece-me bem que, ao princípio,
não tinha percebido que toda esta gente estava aqui para me ver.
Geralmente, as pessoas não se interessavam pela minha pessoa. Tive que
realizar um esforço, para compreender que a causa de toda esta agitação
era eu. Disse ao polícia: "Que quantidade de gente!" Respondeu-me que
era por causa dos jornais e mostrou-me um grupo que estava em volta de
uma mesa, por debaixo do banco do júri. Disse: "Ali estão eles". Perguntei:
"Quem?" e ele repetiu: "Os jornais". Conhecia um dos jornalistas, que
nesse momento o viu e que se dirigiu em nossa direcção. Era um homem
já de certa idade, simpático, com uma cara vincada. Apertou
calorosamente a mão do polícia. Notei nesse instante que toda a gente se
interpelava e conversava, como num clube em que se gosta de encontrar
pessoas do mesmo meio. Foi assim que interpretei uma impressão bizarra
de estar a mais, de ser como que um intruso. No entanto, o jornalista
falou-me com um ar sorridente. Disse que esperava que tudo corresse
bem, para mim. Agradeci-lhe e ele acrescentou: "Sabe, tivemos que
"fazer" um pouco o seu caso. O Verão é uma época morta, para os jornais.
As únicas histórias que valiam alguma coisa, eram a sua e a do parricida".
Mostrou-me em seguida, no grupo que acabara de deixar, um
homenzinho gordo, com uns grandes óculos de aros negros. Disse-me que
era o enviado especial de um jornal de Paris: "Não veio, aliás, por sua
causa. Mas como está encarregado de fazer uma reportagem sobre o
parricida, pediram-lhe para se ocupar também do seu caso". Estive quase
para lhe agradecer, mas pensei que seria ridículo. Fez-me com a mão um
cordial gesto de despedida e deixou-nos. Esperámos ainda alguns minutos.
Por fim chegou o meu advogado, com o traje da ocasião, rodeado de
muitos outros colegas. Dirigiu-se aos jornalistas e apertou várias mãos.
Gracejaram, riram e tinham um ar perfeitamente à vontade até que tocou
a campainha. Foram todos ocupar os seus lugares. O meu advogado veio
ter comigo, apertou-me a mão e aconselhou-me a responder com
brevidade às perguntas que me fizessem, a não tomar iniciativas e, quanto
ao resto, a ter confiança nele.
Ouvi, à minha esquerda, o barulho de uma cadeira arrastada e vi um
homem alto e magro, vestido de encarnado, com monóculo, que se
sentava dobrando cuidadosamente a toga. Era o procurador. Um oficial de
justiça veio anunciar os juízes. Ao mesmo tempo, dois grandes
ventiladores começaram a girar. Os três juízes, dois de preto e o terceiro
de vermelho, entraram com as pastas do processo e dirigiram-se muito
depressa para a tribuna que dominava a sala. O homem da toga vermelha

sentou-se na cadeira do meio, colocou a gorra em frente dele, limpou o
crânio sem cabelos com um lenço e declarou que estava aberta a sessão.
Os jornalistas tinham já as canetas na mão. Tinham todos o mesmo ar
indiferente e um pouco trocista. Porém um deles, muito mais novo do que
os outros, com um fato de flanela cinzenta e uma gravata azul, deixara a
caneta em cima da mesa e fitava-me. Na sua cara um pouco assimétrica,
eu não via senão os olhos, muito claros, que me examinavam
atentamente, sem nada exprimir de definível. E senti a estranha
impressão de estar a ser examinado, não pelo que parecia, mas pelo que
era realmente. Foi talvez por isso, e também porque não conhecia os
hábitos dos tribunais, que não compreendi lá muito bem o que depois se
passou, a tiragem à sorte dos jurados, as perguntas feitas pelo presidente
ao advogado, ao procurador e ao júri (de cada vez, as caras dos membros
do júri voltavam-se ao mesmo tempo para a tribuna dos juízes), uma
rápida leitura do acto de acusação, onde reconheci nomes de lugares e de
pessoas e novas perguntas, feitas ao meu advogado.
Mas o presidente disse que ia proceder à chamada das testemunhas. O
bedel leu nomes que me despertaram a atenção. Do seio deste público
informe, vi que surgiam, um a um, para em seguida desaparecerem por
uma porta lateral, o velho Tomás Perez, Raimundo, Masson, Salamano e
Maria. Esta fez-me um sinal ansioso. Ainda não desaparecera a surpresa
de não os ter visto mais cedo, quando a última das testemunhas, o
Celeste, se levantou. Reconheci ao lado dele a mulherzinha do
restaurante, com o seu casaco e o seu ar exacto e decidido. Mas não tive
tempo de pensar, pois o presidente tomou a palavra. Disse que os
verdadeiros debates iam principiar e que julgava inútil recomendar calma
ao público.
Na sua opinião, estava ali para dirigir imparcialmente os debates de um
caso que queria considerar com toda a objectividade. A sentença dada
pelo júri seria tomada com espírito de justiça e, se fosse preciso, mandaria
evacuar a sala ao mínimo incidente.
O calor aumentava e reparei que, na sala, várias pessoas se abanavam
com jornais. Isto provocava um barulho contínuo de papel amarrotado. O
presidente fez um sinal e o bedel trouxe três leques de palha entrançada
que os três juízes começaram imediatamente a utilizar.


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